Psicoterapeuta | Especialista em Saúde Mental em Contextos Multiculturais
Dizem que, se a vida nos der limões, podemos fazer limonada. Eu penso que essa percepção limita e condiciona o limão. Mesmo sendo costume pensarmos que a função primeira do limão é a limonada, aqui reconhecemos que “nem o costume acostuma” quem não quer conformar-se.
Estudar. Ler. Exercitar. Pesquisar. Pouco se faz, nos dias de hoje, espontaneamente — sem consultar o TikTok, o Google ou o ChatGPT. Talvez por não se querer mesmices, por se querer facilitar, ou até por simplesmente copiar. Esperemos apenas que respirar não seja algo que se pense terceirizar, como muitos têm feito com a escrita e a leitura — reduzindo-as a sínteses prontas.
Pensar por si só é duro para alguns, e criar não é massa mole de se amassar. Por isso a escrita não é para todos. Mas a leitura continua a ser — especialmente para os estudantes e, essencialmente, para os professores.
O professor que quer influenciar a vida dos seus pupilos tem de ter tempo para ler com frequência. Não pode apenas ler por diversão. Que seja ler para aprender, primeiro. Que seja ler para produzir, segundo. Que seja ler para instruir, sempre.
Essa produção e instrução não podem resumir-se ao simples copiar e colar de sistemas que não se assemelham à nossa realidade — até porque possuem muitas lacunas. E ainda assim, o professor não pode limitar-se a ler para instruir. Tudo começa com a auto-instrução que rege a curiosidade.
Com a curiosidade como combustível para a criação, o professor pode descondicionar a forma de leccionar e de interagir com os pupilos. Muito como o limão, a informação que os professores partilham com esses aprendizes deve ser ajustada para que estes observem e absorvam o modo de actuar que o instrutor modela — o que, potencialmente, os levará a explorar o mundo para além do que já conhecem.
Do limão podemos fazer muito, e até as folhas do próprio limoeiro têm utilidade. Assim também tem de ser versátil a nossa forma de leccionar, para melhor interagir com os pupilos. Como educadores e professores, não nos limitemos a fazer limonadas apenas por força do costume. Sem açúcar — por falta dele ou por necessidade de saúde — uma água aromatizada pode refrescar da mesma forma que a abertura mental de quem educa pode suprir a simples vontade de seguir padrões.
É imperativo que adoptemos a postura de que padrões servem como mapas orientadores em constante evolução. Sendo assim, também nós teremos de acompanhar essa evolução — instruindo-nos sobre outras formas de usar os limões que a vida nos dá, aprendendo a ouvir os nossos pupilos (e os seus pais) para melhor os instruir.
Mwalua Costa é psicoterapeuta angolana com experiência internacional no apoio psicológico a crianças, adolescentes, adultos e famílias. Desenvolve o seu trabalho nos Estados Unidos da América, em contextos multiculturais com especial enfoque em comunidades migrantes, famílias em processos de reunificação e populações em situação de vulnerabilidade. A sua prática articula conhecimento técnico com sensibilidade cultural e social, numa abordagem informada pelo trauma. Mesmo à distância, mantém um compromisso activo com a promoção da saúde mental em Angola, defendendo o acesso a serviços psicológicos de qualidade adaptados às realidades locais.
Este texto deixa-me uma pergunta inquietante:
Quando foi a última vez que lemos algo que realmente nos fez mudar de opinião, melhorar uma aula ou repensar uma prática que repetimos há anos?
Muitas vezes falamos da necessidade de transformar a educação, mas a transformação começa quando nos dispomos a aprender novamente.
Talvez o maior risco para um educador não seja errar. Talvez seja acomodar-se ao que já sabe.
Mwalua Costa recorda-nos, com esta reflexão, que o costume não deve ser confundido com destino. Os padrões podem orientar-nos, mas não podem substituir a curiosidade, a criatividade e a vontade de evoluir.
Que este texto não seja apenas lido. Que seja discutido.