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Raízes Antes das Asas

A Cultura Africana na Escola como Fundação de Identidade

Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora

Alunas de uma escola em Cabinda usam trajes africanos dois dias por semana, valorizando a cultura africana, promovendo a identidade cultural.

Há uma imagem que me persegue quando penso na escola angolana: a de uma criança que aprende a voar sem nunca lhe terem dito de onde vem o chão. Aprende matemática, aprende gramática, aprende a nomear capitais de países que nunca vai ver — e chega ao fim de doze ou mais anos de formação sem ter estudado com seriedade a civilização que a produziu, a filosofia que organizou as comunidades dos seus antepassados, a literatura que os seus contemporâneos africanos estão a escrever agora mesmo, neste século, neste momento. Sai da escola equipada com ferramentas para um mundo que existe em parte. E mal equipada para o mundo onde vai, de facto, viver.

Não estou a falar de folclore. Não estou a falar de canções tradicionais cantadas uma vez por ano em datas comemorativas, nem de exposições de artesanato montadas nos corredores quando há visitas. Estou a falar de algo muito mais exigente e muito mais necessário: a integração real, estrutural e progressiva da cultura, da história, da filosofia e das expressões artísticas africanas — e angolanas em particular — como fundação do percurso académico, desde o primeiro dia de escola até ao último dia de universidade. Não como suplemento. Como base. E a diferença entre as duas coisas não é semântica — é a diferença entre uma escola que forma pessoas inteiras e uma escola que forma pessoas capazes, mas incompletas.

 

A distinção importa porque uma fundação não é opcional. Não se acrescenta quando sobra tempo nem se remove quando o programa está sobrecarregado. É aquilo sobre o qual tudo o resto assenta — e quando falta, o edifício não desmorona imediatamente, mas cresce torto, sem raízes que o segurem quando o vento bate. Vemos esse edifício torto nos profissionais que dominam teorias importadas mas não sabem aplicá-las ao contexto angolano. Nos cidadãos que conhecem a história da Revolução Francesa com mais detalhe do que a história do Reino do Kongo. Nos jovens que chegam ao ensino superior sem nunca ter lido um autor africano num contexto escolar, sem nunca ter analisado uma obra de arte angolana como objecto de pensamento, sem nunca ter sido convidados, dentro de uma sala de aula, a considerar que o conhecimento produzido em África tem valor epistemológico equivalente ao que chegou de fora.

 

A identidade não é um ornamento que se coloca por cima da formação — é a condição que torna a formação possível. Uma pessoa que não se conhece a si mesma, que não tem uma relação consciente com a história e a cultura que a produziram, não está em vantagem por isso. Está em desvantagem — porque o pensamento crítico, que é o objectivo mais alto de qualquer educação que se leve a sério, não nasce no abstracto. Nasce no contacto com o que é próximo, familiar e suficientemente amado para merecer ser questionado. Uma criança que aprende a questionar a sua própria herança — a distinguir o que nela é rico do que nela é limitante, o que merece ser preservado do que merece ser transformado — está a desenvolver uma capacidade analítica que vai transferir para qualquer domínio do conhecimento, para qualquer desafio profissional, para qualquer decisão de cidadania.

 

A escola que ignora a cultura africana não está a ser neutra. Está a ensinar, sem o dizer, que ser angolano é uma condição de partida a superar — não uma identidade a habitar com inteligência e orgulho.

Como seria diferente, na prática? A resposta não é uma lista de conteúdos a adicionar ao programa existente, porque o problema não é de quantidade — é de posição. É sobre onde a cultura africana está colocada na hierarquia implícita do que a escola trata como conhecimento sério. Uma criança que no início da sua escolaridade aprende a língua portuguesa através de contos orais do seu próprio país, que no ensino primário estuda o meio ambiente a partir do ecossistema que conhece antes de estudar os que desconhece, que no ensino secundário lê Pepetela e Chinua Achebe e Chimamanda Ngozi Adichie com o mesmo rigor com que lê Eça de Queirós, que no ensino superior encontra a filosofia ubuntu tratada como epistemologia e não como curiosidade etnográfica — essa criança não está a receber uma educação mais africana em detrimento de uma educação de qualidade. Está a receber uma educação mais completa. Porque está a aprender que o mundo tem mais de um centro e que ela própria pode ser um deles.

 

O benefício não é apenas identitário, embora o benefício identitário seja já, por si só, razão suficiente. É também intelectual, profissional e cívico. Intelectual, porque o encontro com múltiplos sistemas de conhecimento alarga a capacidade de pensar — um aluno que conhece tanto a cosmologia Bantu quanto a filosofia ocidental tem mais ferramentas conceptuais do que aquele que conhece apenas uma. Profissional, porque os problemas reais que os profissionais angolanos vão encontrar têm contexto angolano — e o profissional que foi formado a partir desse contexto, e não apesar dele, está muito melhor equipado para os resolver. Cívico, porque a democracia, a participação, o sentido de responsabilidade colectiva ensinam-se com o sentimento profundo de que se pertence a uma comunidade com história, com valor e com futuro que vale a pena construir.

 

Há professores em Angola que já fazem este trabalho. Que entram numa sala de aula e tratam a história angolana como história — não como curiosidade local antes da história verdadeira. Que usam a filosofia ubuntu como ponto de partida para discutir ética. Que pedem aos alunos que comparem arquitecturas tradicionais com arquitecturas contemporâneas e pensem sobre o que se perdeu e o que se ganhou. Que reconhecem nas línguas nacionais não um obstáculo à aprendizagem do português, mas um recurso cognitivo que, bem aproveitado, torna o aluno mais capaz em ambas. Esses professores não estão a fazer concessões ao programa — estão a fazer o programa inteiro, com mais profundidade e mais honestidade do que o manual previu.

É isso que a Angola Aprende defende quando fala de educação de qualidade. Não a qualidade medida apenas por taxas de escolarização e resultados em testes estandardizados — embora essas coisas importem. A qualidade medida pela pergunta mais exigente e mais honesta: que tipo de pessoa esta escola está a formar? Uma pessoa que se conhece, que conhece o mundo a partir de si mesma, que tem raízes suficientemente fundas para poder crescer em qualquer direcção — ou uma pessoa que passou anos a aprender sobre um mundo do qual, subtilmente, nunca lhe foi dito que fazia parte?

A reforma que Angola precisa na educação não é apenas curricular. É filosófica. É a decisão, tomada com consciência e sustentada com compromisso, de que a escola angolana vai formar angolanos — não no sentido estreito da palavra, mas no sentido mais amplo e mais exigente: pessoas que sabem de onde vêm, que conhecem a riqueza e a complexidade da civilização que as produziu, que chegam ao mundo com identidade suficiente para dialogar com outras identidades sem se perderem nesse diálogo.

 

Raízes não são o oposto das asas. São a razão pela qual voar não é perder-se.

Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?

5 DE MAIO

Dia do Património Mundial africano

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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