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O Texto que Não Escrevi Sobre o 14 de Abril

Professor de História

O texto que não escrevi sobre o 14 de Abril começa, paradoxalmente, aqui. Não naquilo que consegui dizer, mas naquilo que repetidamente apaguei. Foram catorze, ou talvez mais, as vezes que recorri à tecla delete para silenciar ideias que, de tão claras, me pareceram excessivas para o momento em que seriam lidas.

 

O primeiro texto que escrevi foi um artigo. Queria ser objectivo, quase clínico: reunir dados, observar tendências, confrontar números. A condição da juventude angolana, pensei, poderia ser analisada com a frieza necessária a qualquer exercício académico. No entanto, à medida que os dados se organizavam diante de mim, muitos deles retirados de relatórios oficiais, comecei a perceber que a verdade, quando dita de forma directa, pode tornar-se desconfortável — não por ser falsa, mas precisamente por ser demasiado evidente.

Mostrei o texto a alguém próximo. A resposta foi simples e, ao mesmo tempo, perturbadora: “o texto é magnífico, mas duvido que tenhas coragem de o publicar”. Naquele momento, não senti indignação; senti reconhecimento. Porque, no fundo, eu já sabia. Se tivesse essa coragem, talvez não estivesse agora a escrever este outro texto — este texto que nasce não do que foi dito, mas do que foi apagado.

 

O segundo texto que escrevi seguiu um caminho diferente. Já não pretendia ser objectivo, mas analítico. Dei-lhe, inclusive, um título que me parecia excessivo e, por isso mesmo, revelador: “O 14 de Abril: A Eucaristia do Espectáculo e a Mumificação do Herói”. Nele, procurei recorrer às reflexões de Guy Debord para pensar a forma como celebramos. Talvez celebremos mais a imagem de Hoji-ya-Henda do que o espírito que o tornou digno de memória.

Nesse texto que também não sobreviveu, interrogava-me sobre um paradoxo difícil de ignorar: exaltamos a figura do jovem combatente que deu a sua vida para que hoje pudéssemos existir como sujeitos livres e, ao mesmo tempo, convivemos com uma realidade em que jovens que procuram aproximar-se desse mesmo espírito crítico são frequentemente desencorajados, quando não silenciosamente combatidos.

 

O terceiro texto que escrevi procurava outro caminho. Já não era um artigo, nem um ensaio no sentido mais reflexivo; era uma tentativa de compreensão histórica. Sendo formado em Ensino da História, quis recuar ao processo de institucionalização da data — da morte de Henda, em 1968, até à formalização progressiva da efeméride, culminando na sua consagração em 2010.

Foi nessa busca que me deparei com algo que não esperava encontrar com tanta clareza: a existência de vozes dissonantes. Jovens que questionavam a escolha do 14 de Abril como data representativa da juventude angolana. Alguns propunham alternativas: o dia da fundação do Conselho Nacional da Juventude, ou mesmo a memória de Mandume ya Ndemufayo.

Essas vozes, porém, não encontraram o eco que talvez esperassem. Em alguns casos, foram silenciadas. Em outros, ultrapassaram o limite do debate e tocaram um território mais sensível, onde a discordância deixa de ser apenas opinião e passa a ser interpretada como afronta. Foi nesse momento que o texto deixou de ser apenas um exercício académico para se tornar uma inquietação pessoal. E talvez tenha sido essa a razão suficiente para o apagar.

Foi então que me ocorreu uma hipótese incómoda: e se o problema não estiver apenas no conteúdo do que escrevemos, mas na relação que mantemos com aquilo que ousamos pensar? Talvez o verdadeiro texto sobre o 14 de Abril não seja aquele que conseguimos publicar, mas aquele que continuamente apagamos — um texto invisível, mas persistente, que habita entre a intenção de dizer e a decisão de silenciar.

Nesse intervalo, instala-se algo difícil de nomear. Não é exactamente censura, porque ninguém me proibiu explicitamente de escrever. Também não é ignorância, porque os dados estão disponíveis, as análises são possíveis e o pensamento insiste em formar-se. Trata-se, antes, de um medo difuso, quase um hábito interiorizado, que nos leva a medir as palavras antes mesmo de as compreender plenamente.

Talvez seja aqui que as reflexões de Guy Debord se tornem discretamente pertinentes. Numa realidade em que a representação ocupa o lugar da experiência, não é necessário proibir a fala; basta criar as condições para que ela se torne improvável. O silêncio, nesse caso, não é imposto — é aprendido.

Percebo, então, que o “fantasma do medo” não me pertence inteiramente. Ele é partilhado. Circula entre nós, manifesta-se em conversas interrompidas, em textos não publicados, em ideias que ficam pela metade. Quando aquele amigo duvidou da minha coragem, talvez não estivesse apenas a falar de mim, mas de uma geração que aprende a reconhecer os limites antes mesmo de testar as possibilidades.

E, no entanto, permanece um paradoxo difícil de ignorar. Celebramos a memória de Hoji-ya-Henda como símbolo de coragem e entrega, mas convivemos com um ambiente onde a expressão crítica é frequentemente filtrada por esse medo silencioso. Não se trata de comparar tempos, mas de reconhecer uma tensão entre o que admiramos e aquilo que efectivamente praticamos.

Talvez o mais inquietante seja perceber que este texto não existiria sem esse medo. Ele é, ao mesmo tempo, obstáculo e condição — impede certos discursos, mas obriga a encontrar outras formas de dizer.

No fim, resta uma pergunta que não sei responder com segurança: será que o silêncio que praticamos é uma escolha consciente ou o resultado de uma aprendizagem tão profunda que já não a reconhecemos como tal?

Se for a segunda hipótese, então talvez o verdadeiro desafio não seja apenas escrever mais, mas compreender melhor aquilo que nos impede de escrever. Porque, em certos contextos, o que não é dito pode revelar tanto quanto aquilo que se torna público.

E talvez este seja, afinal, o único texto possível sobre o 14 de Abril: não aquele que afirma, nem aquele que denuncia, mas aquele que hesita. Aquele que revela, não tanto pelo que diz, mas pelo que não conseguiu dizer. Porque, se há algo que este exercício me ensinou, é que o silêncio também se escreve — e, por vezes, com mais verdade do que a palavra. Resta saber se, um dia, deixaremos de apagar aquilo que pensamos, ou se continuaremos a celebrar a coragem apenas quando ela já não nos pertence.

Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?

14 DE ABRIL

Dia da Juventude Angolana

Domingos Augusto Manuel Pedro é licenciado em Ensino de História pela Escola Superior Pedagógica do Bengo, com distinção. Professor de formação, iniciou a sua trajectória como alfabetizador de adultos e formador de Pedagogia aos 17 anos, consolidando experiência no ensino, investigação e extensão universitária. Actuou em funções de liderança estudantil e projectos pedagógicos, destacando-se no Projecto Saber Fazer & Saber Ser. Integra redes de jovens investigadores da CPLP e promove a orientação de estudantes do ensino médio e superior. O seu contributo centra-se no desenvolvimento curricular, melhoria das práticas pedagógicas e fortalecimento da educação em Angola.

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