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O Abismo Entre o Seminário e o Giz

A Fragmentação do Ensino da Língua Portuguesa no Iº Ciclo do Ensino Secundário

Mestre em Ensino das Literaturas em Língua Portuguesa | Doutoranda em Estudos Portugueses

A análise da conjuntura educativa no Iº Ciclo do Ensino Secundário em Angola revela um fenómeno persistente que se pode designar como “o abismo entre o seminário e o giz”. A distância entre as diretrizes programáticas e a execução lectiva compromete a eficácia da transposição didáctica, resultando na fossilização de erros linguísticos que acompanham o discente até ao Ensino Médio e Superior.

Embora existam reflexões pontuais sobre os conteúdos literários e a formação docente em Angola, não se encontra na literatura especializada uma abordagem sistemática e integrada como a aqui proposta para o Iº Ciclo do Ensino Secundário. Este texto disseca as causas desta fragmentação, com foco na desarticulação entre o ensino da gramática e a hermenêutica do texto narrativo — elementos que deveriam coexistir em simbiose pedagógica.

 

Na prática docente observada, verifica-se uma dicotomia que compromete a eficácia do processo de ensino-aprendizagem. Persiste um modelo de “ensino por compartimentos”, no qual a gramática é abordada como uma unidade isolada e estanque. O estudo da norma ocorre frequentemente em sessões lectivas desvinculadas da exploração do texto narrativo, impedindo que o discente compreenda a língua como um organismo vivo, em que a estrutura constitui a ferramenta essencial para a construção de sentido.

A esta problemática acresce o uso recorrente de excertos adaptados. Ao amputar o texto original das suas características estilísticas e da sua complexidade inerente, a transposição didáctica acaba por nivelar o ensino por baixo. O resultado directo desta prática é a estagnação das tipologias textuais e a fossilização do erro, que o aluno transporta de forma acrítica para os níveis subsequentes.

 

A desarticulação entre as disciplinas de Língua Portuguesa e Literatura no Iº Ciclo criou um hiato que coloca o processo de ensino vulnerável. O sistema passou a exigir do discente uma competência de redação — o “saber fazer” — sem antes lhe fornecer o “saber ler” que a sustenta. Como afirma Libâneo (2013), o ensino constitui um processo de mediação em que o aluno deve ser instrumentalizado para a apropriação dos conteúdos. Na prática lectiva actual, porém, falta a ferramenta primordial: a memória estética.

Ao isolar a gramática normativa num compartimento estanque, retira-se ao aluno a possibilidade de observar a regra em movimento. O resultado é o que designamos por “Anatomia do Improviso”: o discente é confrontado com temas de elevada complexidade sociológica ou humanística e instado a produzir juízos de valor sem o suporte da experiência vicariante que só a literatura proporciona. Sem esse suporte, limita-se a um vocabulário rudimentar e a estruturas simplistas, incapazes de sustentar o pensamento crítico exigido nos níveis subsequentes.

 

A escrita não é um acto de criação ex nihilo. Para que o aluno redija com propriedade, é necessário que tenha “vivido” através do olhar do outro. É neste ponto que a leitura de obras integrais se torna a verdadeira caixa de ferramentas da redação. Segundo Reis (2015), o conhecimento da literatura não se esgota na erudição histórica; constitui-se como uma forma de inteligência da linguagem, permitindo ao sujeito organizar a sua própria subjectividade através das formas herdadas da tradição.

Quando o sistema de ensino substitui a obra integral por excertos adaptados, amputa o repertório do aluno. Um discente que tenha tido contacto directo com obras que abordem a condição humana possui uma “biblioteca mental” de sentenças, conectores lógicos e figuras de estilo. A redação deve ser entendida como o culminar de um ciclo de ingestão literária.

Antes de solicitar uma redação sobre temas sociais, o docente deve garantir que o aluno teve contacto com perspectivas literárias sobre o assunto. A questão que deve nortear o ensino não é “o que achas sobre isto?”, mas sim “como é que os mestres da língua estruturaram este pensamento antes de ti?”.

Um dos pontos mais críticos reside na homogeneidade excessiva dos conteúdos programáticos. As tipologias textuais apresentadas da 7.ª à 9.ª classe não apresentam diferenciação substancial em relação às exigências do Ensino Médio. Esta ausência de progressão gera um fenómeno de circularidade pedagógica, no qual o discente é exposto aos mesmos géneros textuais sem aprofundamento da complexidade analítica ou da produção escrita.

Esta estagnação é agravada pela ausência de uma transposição didáctica que considere a evolução das competências cognitivas. Consequentemente, a transição para o Ensino Médio ocorre sem que as bases estruturais estejam devidamente consolidadas, o que explica a dificuldade generalizada na interpretação de textos complexos e na redação de ensaios argumentativos com o rigor exigido na academia (Ministério da Educação de Angola, 2019; Pedro, 2019).

A reversão deste cenário exige uma reconfiguração da transposição didáctica para um modelo de instrução integrada. A gramática deve deixar de ser um fim em si mesma para se tornar a chave de descodificação do sentido textual. A solução reside na centralidade da obra integral. O contacto directo com textos de referência permite ao discente observar a norma culta em pleno funcionamento, compreendendo como a sintaxe e a retórica estruturam o pensamento complexo (Cunha & Cintra, 2017; Faria, 2021).

O “abismo entre o seminário e o giz” só será colmatado quando o processo de ensino-aprendizagem abandonar a simplificação excessiva. A excelência no Iº Ciclo depende da capacidade de integrar a leitura profunda, a memória estética e a prática gramatical num único eixo pedagógico.

A redação deve deixar de ser um evento isolado de avaliação para se tornar o culminar de um processo de ingestão literária. Sem esta mudança estrutural, continuará a formar-se alunos com limitações profundas na linguagem, no pensamento e na capacidade de interpretar o mundo.

Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?

05 DE MAIO

Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)

Carolina Danster é Mestre em Ensino das Literaturas em Língua Portuguesa pelo ISCED-L e Doutoranda em Estudos Portugueses pela Universidade Aberta. Professora e investigadora, dedica-se ao estudo da Transposição Didáctica Integrada e à valorização da obra integral como base da formação intelectual. Com experiência no ensino geral e superior, centra a sua actuação na articulação entre gramática e hermenêutica literária, com foco no combate à fragmentação curricular. É autora de estudos sobre a estrutura linguística e a experiência vicariante na educação, desenvolvendo actualmente investigação sobre o texto literário como organismo vivo, aliando rigor científico e prática pedagógica para a melhoria do ensino em Angola.

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