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Juventude no Centro

Co-Criar a Educação como Projecto Colectivo

Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende

A educação é um dos mais antigos projectos colectivos da humanidade. Ao longo da história, as sociedades organizaram sistemas educativos para transmitir saberes, valores, competências e visões de mundo às novas gerações. Ainda assim, apesar de a educação existir para preparar o futuro, esse mesmo futuro — representado hoje por crianças, adolescentes e jovens — continua, em grande medida, afastado dos espaços onde se pensam, decidem e implementam as políticas educativas. O Dia Internacional da Educação de 2026, dedicado ao tema O poder da juventude na co-criação da educação, convida-nos a confrontar essa contradição de forma crítica, responsável e situada.

Vivemos um momento histórico singular. Mais de metade da população mundial tem menos de 30 anos. Trata-se de uma juventude diversa, marcada por diferentes realidades sociais, económicas, culturais e territoriais, mas também profundamente conectada, informada e activa. Nunca houve tantos jovens a estudar, a formar-se, a ensinar, a aprender fora dos sistemas formais, a criar soluções educativas nas comunidades e nos espaços digitais. No entanto, essa presença massiva nos espaços de aprendizagem contrasta com a sua fraca representação nos espaços de decisão sobre a educação.

Esta ausência não é fruto do acaso. Durante décadas, os sistemas educativos foram pensados a partir de uma lógica vertical, onde especialistas, decisores e técnicos definem caminhos, enquanto os estudantes ocupam o lugar de destinatários passivos. Mesmo quando se fala de participação juvenil, esta tende a assumir formas simbólicas: consultas pontuais, fóruns sem poder deliberativo ou iniciativas que raramente se traduzem em influência real sobre políticas, currículos ou práticas pedagógicas. Fala-se constantemente sobre juventude, mas continua-se a falar pouco com a juventude.

O recente relatório da UNESCO, Liderar com a Juventude, vem reforçar uma evidência que muitos contextos nacionais já demonstravam: os jovens não são apenas beneficiários da educação; são actores com capacidade para pensar, propor e co-construir soluções educativas. Liderar com a juventude não significa abdicar de responsabilidades institucionais, nem romantizar a inovação juvenil. Significa reconhecer capacidade política, intelectual e ética para participar activamente na definição dos rumos da educação.

Co-criar a educação exige uma mudança profunda de mentalidade. Exige abandonar a ideia de que participação se resume a escuta simbólica, para assumir que participação implica partilha real de decisão. Implica aceitar que os jovens não trazem apenas entusiasmo, mas também críticas, questionamentos e propostas que desafiam práticas consolidadas. A co-criação não é um exercício de conforto institucional; é um processo de transformação que envolve tensões, negociações e revisões constantes.

Um dos argumentos mais recorrentes contra a participação juvenil nos processos de decisão é a alegada falta de experiência. No entanto, esta visão ignora um elemento central: os jovens acumulam uma experiência única e insubstituível — a experiência directa e quotidiana de ser estudante nos sistemas educativos actuais. Eles conhecem, por dentro, as limitações dos currículos, as fragilidades das metodologias, as contradições entre discurso e prática, e os impactos reais das decisões políticas na sua aprendizagem e no seu bem-estar. Desvalorizar essa experiência é desperdiçar uma fonte essencial de conhecimento educativo.

Pensar a juventude como co-criadora da educação implica também reconhecer a diversidade interna desse grupo. Não existe uma juventude homogénea. Existem juventudes atravessadas por desigualdades profundas, por diferentes línguas, territórios, géneros, condições económicas e percursos educativos. Co-criar com a juventude exige, por isso, mecanismos que garantam que as vozes historicamente marginalizadas não sejam silenciadas pelas mais privilegiadas. Caso contrário, a participação juvenil corre o risco de reproduzir as mesmas desigualdades que a educação deveria combater.

A pergunta provocadora — Se fosses Ministro ou Ministra da Educação por um dia, qual seria a primeira mudança que farias? — revela mais do que um exercício retórico. Ela desloca o jovem do lugar de receptor para o lugar de pensador do sistema. Revela, também, que muitos jovens têm propostas concretas, leituras críticas e diagnósticos fundamentados sobre a escola que frequentam, a universidade que habitam e os sistemas que os formam. Escutar essas respostas não é um gesto simbólico; é um acto de responsabilidade pública.

As respostas a essa pergunta tendem a revelar preocupações recorrentes: a necessidade de currículos mais relevantes, de metodologias mais participativas, de melhores condições para professores, de escolas mais inclusivas e seguras, e de uma educação que dialogue com a realidade social e económica dos estudantes. Estas preocupações não são abstractas; são fruto de vivências concretas. Ignorá-las é insistir num modelo de educação desligado da vida real.

No contexto angolano, este debate assume particular relevância. Angola é um país jovem, tanto do ponto de vista demográfico como histórico. A construção do sistema educativo nacional tem sido marcada por avanços significativos, mas também por desafios persistentes relacionados com qualidade, equidade, formação de professores, infra-estruturas e governação. Neste cenário, a juventude não é apenas destinatária das políticas educativas; é parte activa da sua implementação quotidiana, enquanto estudantes, monitores, formadores informais e agentes comunitários.

Em muitos contextos, jovens angolanos já estão a co-criar educação fora dos quadros formais. Em bairros, comunidades, associações, igrejas, plataformas digitais e iniciativas locais, surgem projectos educativos liderados por jovens que respondem a lacunas do sistema formal. Estas experiências demonstram que a juventude não espera passivamente por reformas; ela age. O desafio das instituições é reconhecer, aprender e dialogar com essas práticas, em vez de as ignorar.

Co-criar a educação não significa transferir para os jovens responsabilidades que pertencem ao Estado ou às instituições educativas. Pelo contrário, significa criar condições estruturais para que a participação juvenil seja informada, acompanhada e sustentável. Isso implica investir em educação cívica, acesso à informação, transparência nos processos decisórios e mecanismos claros de participação. Sem essas condições, a co-criação corre o risco de se tornar apenas um discurso vazio.

É igualmente importante reconhecer que a relação entre juventude e instituições educativas é frequentemente marcada por desconfiança. Muitos jovens sentem que as suas vozes são instrumentalizadas para legitimar decisões já tomadas. Recuperar essa confiança exige coerência entre discurso e prática. Exige que as contribuições juvenis tenham efeitos visíveis, ainda que graduais. A participação que não produz consequências gera frustração e desmobilização.

Pensar a educação com a juventude implica, também, repensar o papel dos adultos no sistema educativo. Educadores, gestores e decisores não perdem autoridade ao escutar os jovens; fortalecem-na. A autoridade educativa baseada na imposição é frágil; a autoridade construída pela escuta, pelo diálogo e pelo reconhecimento é mais sólida e duradoura. Co-criar é, portanto, um exercício de humildade institucional.

A educação do presente enfrenta desafios complexos: transformações tecnológicas aceleradas, crises ambientais, desigualdades persistentes e mudanças profundas no mundo do trabalho. Nenhuma geração, isoladamente, possui todas as respostas para esses desafios. A co-criação intergeracional torna-se, assim, não apenas desejável, mas necessária. Os jovens trazem novas linguagens, novas ferramentas e novas formas de pensar; os adultos trazem memória, experiência e visão de longo prazo. A educação precisa desse encontro.

Neste Dia Internacional da Educação, reconhecer o poder da juventude na co-criação da educação não pode limitar-se a uma celebração simbólica. Trata-se de um apelo à acção. A educação do presente — e não apenas a do futuro — depende da capacidade de incluir os jovens como co-autores das políticas, das práticas e das visões que moldam os sistemas educativos.

A pergunta final que se impõe não é se os jovens estão prontos para co-criar a educação. A realidade mostra que muitos já o fazem, com ou sem reconhecimento institucional. A questão decisiva é se as instituições estão dispostas a partilhar poder, a aprender com a juventude e a transformar-se a partir desse diálogo. O futuro da educação depende, em grande medida, da resposta que dermos a essa questão hoje.

24 DE JANEIRO

Dia Internacional da Educação

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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