Mais por descobrir...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Filter by Categories
Ahetu mu Kulonga
ARTIGO
Artigo de Opinião
CRÓNICA
Crónica Narrativa
ENSAIO
Ensaio Comparado
Ensaio Crítico
Ensaio Reflexivo
Ensaio Teórico
ENTREVISTA
Entrevista Individual
Missão
Nas Lentes da Angola Aprende
Páginas do Saber
Vozes

23 de Abril Não é só Para Quem Publica

Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora

Hoje é 23 de Abril, e ao longo do dia fui sendo lembrada disso pelas mensagens que se repetem nas redes sociais, pelos cartazes que aparecem com palavras bem alinhadas e pelas felicitações que chegam como chegam todas as efemérides — certas, organizadas, quase automáticas. É o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, dizem, e eu leio, reconheço, aceito, mas desta vez não passei por cima da data como tantas outras vezes fiz. Desta vez parei.

 

Sou escritora, e não digo isso de forma leve. Digo com consciência do que significa escrever, do que implica sustentar ideias no tempo, do que exige assumir autoria. Mas hoje, mais do que pensar nos textos que assino, nos que publico ou nos que assumo como meus, dei por mim a pensar naquilo que não tem nome, naquilo que é escrito todos os dias e nunca chega a ser reconhecido como escrita.

Pensei, inevitavelmente, nos professores.

Pensei naquilo que fazem quando ninguém está a ver, quando a sala de aula já terminou, quando o silêncio da noite substitui o ruído dos alunos e ainda assim o trabalho continua. Pensei nos cadernos que preparam, nas fichas que constroem, nos exemplos que inventam porque os materiais disponíveis não chegam, não respondem, não explicam. Pensei no esforço constante de transformar conteúdo em compreensão, de pegar num programa e traduzi-lo para uma realidade concreta, viva, muitas vezes difícil.

E quanto mais pensava, mais evidente se tornava uma contradição que já não consigo ignorar: dentro das nossas escolas, escreve-se muito, mas reconhece-se pouco.

 

Hoje fala-se de livros, mas o problema não está apenas na falta deles. Está no facto de que muitos dos textos que poderiam tornar-se livros nunca passam desse estado inicial, porque quem os escreve não se vê como autor, não se reconhece como alguém que produz conhecimento com valor próprio. Em Angola, a produção intelectual dos professores existe, é diária, é consistente, mas raramente é formalizada, registada ou protegida. Fica nos cadernos, nas folhas soltas, na memória de quem ensina e de quem aprende, mas não entra no circuito onde passa a existir como obra.

E isso não é apenas uma falha técnica ou administrativa. É uma falha de percepção.

 

Os direitos de autor não começam no momento da publicação, nem dependem da existência de uma editora, de uma capa ou de um lançamento. Começam no momento em que alguém organiza o pensamento, estrutura uma explicação e escreve com intenção de transmitir conhecimento. Começam quando um professor cria um exercício que não existia, quando adapta um conteúdo para que faça sentido, quando encontra uma forma diferente de ensinar porque a forma anterior não funcionou.

Isso é criação. Isso é autoria.

E, no entanto, continua a ser tratado como se fosse apenas parte do trabalho — como se não tivesse identidade própria, como se não tivesse valor que mereça ser reconhecido, protegido ou desenvolvido.

Hoje, 23 de Abril, enquanto o mundo celebra o livro, eu não consigo deixar de olhar para aquilo que ainda não chegou a ser livro, mas que já é, na essência, produção intelectual. Não consigo ignorar que existem autores dentro das escolas que nunca foram chamados assim, não porque não escrevam, mas porque ninguém lhes disse que aquilo que fazem tem estatuto de criação.

Talvez seja aqui que a conversa sobre direitos autorais em Angola precise realmente de começar.

Não nos grandes nomes, nem apenas nas obras publicadas, mas no reconhecimento do trabalho intelectual que sustenta o sistema educativo por dentro. No momento em que um professor percebe que o que escreve não é apenas apoio, não é apenas improviso, não é apenas resposta imediata, mas é produção que pode ser organizada, valorizada e projectada.

Eu escrevo, e sei que sou autora.

Mas hoje, mais do que afirmar isso sobre mim, escrevo para afirmar outra coisa que me parece mais urgente: há muitos autores em Angola que ainda não sabem que o são.

E enquanto isso não mudar, continuaremos a celebrar o livro sem reconhecer plenamente quem o poderia estar a escrever.

Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?

23 DE ABRIL

Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

Continua a aprofundar o teu saber sobre educação com textos transformadores

Páginas do Saber

Tens uma perspectiva sobre educação? Escreve para a Angola Aprende

O que aprendeste? Comente ↓

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Inspire alguém hoje — partilhe este conteúdo com a tua rede!