Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora
Há um desalinhamento silencioso no sistema educativo angolano que raramente é nomeado com a clareza que exige: continuamos a ensinar como se o mais importante fosse lembrar, quando o mundo exige, cada vez mais, a capacidade de pensar. Esta tensão torna-se particularmente visível quando datas como o Dia Mundial da Criatividade e Inovação nos obrigam a olhar para aquilo que dizemos valorizar e aquilo que, na prática, cultivamos nas salas de aula.
O problema não está na ausência de discurso sobre criatividade. Está na ausência de condições reais para que ela exista. O modelo de ensino dominante continua estruturado em torno da transmissão de conteúdos e da sua reprodução fiel. O aluno que memoriza com precisão é reconhecido; o aluno que questiona, arrisca ou propõe caminhos alternativos entra, muitas vezes, em conflito com a lógica da aula. Esta configuração não é neutra — ela molda a forma como os alunos aprendem a posicionar-se perante o conhecimento: não como sujeitos activos, mas como receptores.
As implicações desta escolha pedagógica ultrapassam o espaço da escola. Num contexto global em que a inovação deixou de ser um diferencial e passou a ser uma condição de sobrevivência económica e social, formar jovens sem capacidade de interpretar, adaptar e produzir conhecimento é limitar, de forma estrutural, o potencial do país. Não se trata de introduzir uma competência adicional ao currículo, mas de repensar a própria finalidade da educação: preparar indivíduos capazes de agir sobre a realidade, e não apenas de a descrever.
Importa, no entanto, evitar simplificações. A responsabilidade por este cenário não recai exclusivamente sobre o professor. Ela é distribuída por todo o sistema: programas extensos que privilegiam a cobertura de conteúdos em detrimento da compreensão, modelos de avaliação centrados na memorização, ausência de formação contínua orientada para metodologias activas e condições de trabalho que reduzem o espaço para experimentação pedagógica. Exigir criatividade sem alterar estas condições é exigir um resultado sem transformar o processo que o torna possível.
Ainda assim, é precisamente aqui que a mudança precisa de começar. Promover criatividade não é introduzir momentos “criativos” numa estrutura que permanece inalterada; é transformar a lógica da aprendizagem. Significa deslocar o foco do conteúdo para o pensamento, da resposta certa para o processo de construção, da passividade para a participação. Significa criar espaço para o erro como parte do percurso e para a pergunta como motor da aprendizagem. E isso exige intencionalidade: na formação de professores, na organização do currículo, na forma como se avalia e no modo como se lideram as escolas.
Quando se afirma, no plano internacional, que criatividade e inovação são pilares do desenvolvimento sustentável, não se está a fazer uma recomendação opcional — está-se a definir uma condição. Angola não está fora desta equação. Pelo contrário, sendo um país jovem, com desafios complexos e necessidades urgentes de desenvolvimento, tem ainda mais a ganhar — ou a perder — com a forma como educa as suas novas gerações.
A questão, portanto, não é se devemos valorizar a criatividade. É se estamos dispostos a reorganizar o sistema educativo para que ela deixe de ser uma excepção e passe a ser uma consequência natural do modo como ensinamos. Enquanto essa decisão não for tomada de forma clara e consistente, continuaremos a celebrar a criatividade em datas específicas e a anulá-la, silenciosamente, no quotidiano das nossas escolas.
E esse é um custo que o futuro dificilmente perdoará.
Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?
21 DE ABRIL
Dia Mundial da Criatividade e Inovação
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.
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