A Educação do Educador que Angola Chama “Pilar do Desenvolvimento da Sociedade”
POR CLÁUDIA CASSOMA — Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende
Em 22 de Novembro de 1977, na fábrica Textang II, em Luanda, o primeiro Presidente da República, António Agostinho Neto, abriu uma campanha de alfabetização que se tornaria marco histórico. Não foi apenas um acto pedagógico — foi uma declaração de soberania: um país livre seria, antes de tudo, um país letrado. Ali, no coração operário da capital, o Estado reconheceu formalmente o poder transformador do educador. Um ano depois, em 1978, a data ficou oficialmente registada como o Dia Nacional do Educador, erguendo o professor como figura central na construção da nação que nascia. Quase 50 anos depois, continuamos a chamar o educador de pilar. Mas deixamos que ele, sozinho, sustente o peso do edifício social. E quando o edifício vacila — porque vacila —, é ao pilar que culpamos pela rachadura.
A história da educação angolana é povoada por heróis silenciosos: professores que ensinaram debaixo de árvores, em aldeias sem electricidade, em escolas marcadas por balas. Mulheres e homens que, com giz e coragem, desenharam futuros onde havia apenas pó. Eles não tinham manuais actualizados, mas tinham convicção. Não tinham salários dignos, mas tinham missão. E construíram. Alfabetizaram gerações. Formaram médicos, engenheiros, economistas, ministros. Sustentaram, literalmente, o país.
Hoje, o discurso oficial mantém a retórica da valorização. Os comunicados exaltam a “importância estratégica do professor”. Os discursos evocam o “compromisso com a educação de qualidade”. Mas quando chega a hora de traduzir palavras em políticas, o educador continua a esperar. Espera pela formação contínua que foi prometida. Espera pelo salário que reflicta a dimensão social do seu trabalho. Espera pelo reconhecimento que não cabe em cerimónias, mas se mede em condições concretas de dignidade profissional.
O planeamento educacional não é burocracia. É arquitectura do tempo pedagógico. É a base sobre a qual o professor organiza programas, planifica aulas, desenha avaliações, prepara materiais. É o instrumento que permite ao educador ser profissional — e não improvisador. Quando o sistema não oferece previsibilidade, obriga-se o professor a trabalhar no improviso. Pede-se que planifique sem ter parâmetros claros. Exige-se rigor sem oferecer estrutura. É como construir uma casa sem saber quantos andares terá.
O planeamento educacional é mais do que procedimento — é uma promessa de seriedade com a educação. Quando essa promessa é quebrada sistematicamente, não é apenas o professor que perde. É o aluno que estuda num sistema desorganizado. É a família que não consegue planear. É o país que ensina, pelo exemplo, que o planeamento não importa. Um país que quer professores preparados precisa dar-lhes tempo e previsibilidade. Não se pode pedir excelência a quem trabalha no improviso permanente.
A profissão docente é a fundação de todas as outras. Não há médico sem professor. Não há jurista, economista ou engenheiro que não tenha sido, primeiro, aluno. O educador é o arquitecto do capital humano — o recurso mais precioso de qualquer nação que se pretenda desenvolvida. Mas em Angola, essa profissão fundacional é socialmente invisível e economicamente instável. O educador é celebrado em datas comemorativas e esquecido em orçamentos. É chamado ao palco em cerimónias oficiais e devolvido a salas superlotadas, sem material, sem apoio, sem voz nas decisões que afectam o seu trabalho. Chamamos o educador de pilar, mas o tratamos como escada — usado para subir, esquecido quando o topo é alcançado.
A verdade inconveniente é esta: enquanto o professor continuar a ser mal remunerado, socialmente desvalorizado e profissionalmente abandonado, o discurso sobre “educação de qualidade” será retórica vazia. Porque educação de qualidade exige educadores valorizados. E valorização não se declama — constrói-se com políticas, salários, formação, condições de trabalho, reconhecimento estrutural.
No Dia Nacional do Educador, Angola precisa de olhar para si mesma e fazer perguntas honestas:
A educação do educador é a educação de Angola. Se o país continuar a celebrar sem sustentar, se continuar a exaltar sem estruturar, se continuar a clamar por desenvolvimento enquanto deixa desmoronar o único pilar capaz de o erguer, então continuará a falar de futuro sem o construir. Porque um país que não educa o seu educador não está apenas a falhar com uma classe profissional — está a falhar consigo mesmo.
Acredita que a mudança começa pela formação e pela união?
A Angola Aprende oferece formação de professores e gestores escolares, consultoria educativa, produção de materiais didácticos e soluções de educação digital — tudo desenhado para a realidade angolana e centrado nas necessidades reais dos profissionais da educação. Além disso, criámos a Sala dos Professores, uma rede nacional de educadores dedicada ao desenvolvimento profissional contínuo, onde pode aceder a formações exclusivas, trocar experiências e ter acesso prioritário a oportunidades. Porque o educador não pode sustentar sozinho o edifício social, mas pode construir junto com outros a força colectiva que Angola precisa.
22 DE NOVEMBRO
Dia Nacional do Educador
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.