Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora
Há vinte e quatro anos, o silêncio das armas chegou a Angola. Era 4 de Abril de 2002, e o Acordo de Luena punha fim a um conflito que durou quase tanto quanto o país era independente. Festejámos. Chorámos. Reconstruímos estradas, pontes, mercados. Mas há uma reconstrução que se faz mais devagar, que não aparece nas fotografias das inaugurações nem nos discursos de celebração: a reconstrução da sala de aula.
A guerra civil angolana, que se prolongou de 1975 a 2002, não destruiu apenas edifícios. Destruiu percursos. Uma criança que entrou na escola em 1980, na Huíla ou no Moxico, não sabia se amanhã haveria escola — nem professor, nem caderno, nem caminho seguro até lá. Gerações inteiras cresceram com o direito à educação interrompido, adiado ou simplesmente negado. Não por incapacidade intelectual. Não por falta de vontade. Por causa da guerra.
O custo humano desta interrupção é de difícil quantificação. Mas alguns contornos são conhecidos: centenas de milhares de professores deslocados, escolas destruídas ou convertidas em aquartelamentos, crianças forçadas ao êxodo rural que as afastou não só da escola mas da possibilidade de imaginar um futuro escolar. A educação foi, em Angola, uma vítima silenciosa da guerra — e as suas feridas sangram em silêncio ainda hoje.
Desde 2002, Angola fez o que poucos países em situação similar conseguiram: expandiu, em velocidade notável, a rede escolar. Construíram-se escolas, contrataram-se professores, cresceu a taxa de escolarização. Estes são factos que merecem reconhecimento. Angola é citada, em fóruns internacionais de reconstrução pós-conflito, como um exemplo de recuperação rápida do sistema educativo. Esta referência não é indevida.
Mas há um risco sério na celebração: o de confundir quantidade com qualidade, presença com aprendizagem eficaz. Uma sala de aula com carteiras é diferente de uma sala de aula onde se aprende. Um professor na lista de pagamentos é diferente de um professor formado, apoiado, respeitado e capaz de ensinar com método. E uma criança matriculada é diferente de uma criança que completa o seu percurso escolar com as competências que esse percurso deveria garantir.
Angola é, simultaneamente, um caso de referência e um problema estrutural em aberto. Esta tensão — entre o que foi conquistado e o que permanece por fazer — é o terreno verdadeiro em que o 4 de Abril precisa de ser pensado quando o colocamos em diálogo com a educação.
Nas zonas rurais, onde a guerra foi mais devastadora e a reconstrução mais lenta, faltam ainda professores qualificados. Faltam materiais didácticos em línguas que as crianças compreendem. Faltam sanitários, electricidade, bibliotecas. Faltam políticas que transformem a presença física da escola numa experiência de aprendizagem real. Estes défices não são acidentes administrativos. São heranças directas de um conflito que desmontou, durante décadas, as condições mínimas para que a educação funcionasse.
Comemorar a paz sem honrar esta realidade seria um acto de esquecimento disfarçado de celebração.
O 4 de Abril exige de cada angolano — e de cada instituição que trabalha no campo da educação — uma pergunta honesta: o que fizemos, de concreto, para devolver à educação angolana o que a guerra lhe roubou? Não a pergunta retórica, que antecipa a resposta satisfeita. A pergunta real, que assume que ainda há muito por fazer e que isso exige compromisso continuado.
A Angola Aprende acredita que a paz não se mede apenas pelo silêncio das armas. Mede-se também pelo barulho das crianças nas salas de aula, pela qualidade do que aprendem, pela possibilidade real que têm de crescer sem que o seu futuro seja determinado pelo acidente do lugar onde nasceram ou pela geração a que pertencem.
Reconstruir a escola é, ainda, reconstruir Angola. E essa reconstrução não acabou.
Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?
4 DE ABRIL
Dia da Paz e Reconciliação Nacional
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.
E no final…o contexto actual do mundo faz me concluir que: “A paz tem uma sala de aula” e ela é um dos ambientes mais propício para se fazer a manutenção dela…dito de outro modo, a paz precisa de uma sala de aula…para lembrar e evitar que os “homens” caiam numa amnésia estrutural a fim de esquecerem o quão sofrido é um contexto de guerra…
A expressão “amnésia estrutural” nomeia com precisão o que o texto circunda: que o esquecimento da guerra não é acidente, é risco sistémico. E que o antídoto não é a memória individual, que se apaga com as gerações, mas a memória institucionalizada — que é o que a escola pode ser quando é levada a sério.
O que acrescentas é uma inversão essencial: a sala de aula não é apenas o que a paz torna possível. É o que torna a paz sustentável. Como Pepetela percebeu antes de qualquer currículo oficial — a guerra que não é ensinada volta a ser repetida.