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Uma Escola Feliz Aprende Melhor

O bem-estar da comunidade educativa não é um luxo pedagógico — é uma condição de aprendizagem e deve ser uma prioridade de política educativa

Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora

Celebra-se hoje o Dia Internacional da Felicidade. A Organização das Nações Unidas instituiu esta data em 2012 com o reconhecimento explícito de que a felicidade e o bem-estar são objectivos fundamentais e universais do desenvolvimento humano — tão fundamentais quanto o crescimento económico, tão universais quanto o direito à educação. Para muitos decisores políticos, a palavra felicidade soa vaga, difícil de medir, demasiado subjectiva para entrar numa conversa séria sobre sistemas de ensino. É precisamente contra essa ideia que este artigo se insurge. A felicidade — ou, com mais rigor, o bem-estar subjectivo, que a ciência define como a avaliação positiva que uma pessoa faz da sua própria vida, incluindo a presença de emoções positivas e a ausência de emoções negativas dominantes — não é um ornamento do processo educativo. É uma das suas condições estruturais. E há vozes e investigação, de dentro de Angola, que o demonstram.

Denise Curado é psicóloga clínica, especialista em Necessidades Educativas Especiais e Educação Inclusiva, e trabalha no Colégio São Francisco de Assis em Luanda. Em entrevista à Angola Aprende, descreveu aquilo que observa há cinco anos na sua prática clínica com uma clareza que dispensa glosa: cerca de oitenta por cento dos seus pacientes apresentam esgotamento emocional cuja origem está no ambiente de trabalho — níveis de exigência extremamente elevados, metas difíceis de atingir, competitividade intensa, e a sensação persistente de não ser valorizado. E colocou a pergunta que devia estar no centro de qualquer debate sério sobre educação: será que as pessoas deixaram de ser humanas? A pergunta não é retórica. É um diagnóstico. E o que ela observa no consultório, Da Costa e colaboradores confirmam na investigação: um estudo publicado em 2024 na Revista Científica Multidisciplinar RECIMA21, especificamente sobre os factores que influenciam o bem-estar e o mal-estar de alunos e profissionais de educação angolanos, concluiu que criar um ambiente escolar saudável e motivador é uma das condições mais urgentes para melhorar a qualidade do ensino no país. A ausência de bem-estar nos profissionais e nas comunidades educativas não é uma consequência secundária dos problemas do sistema — é um obstáculo primário à aprendizagem.

 

Quando este dado chega à mesa dos decisores da política educativa — e deve chegar — a pergunta que se impõe é simples: podemos continuar a tratar o bem-estar da comunidade educativa como um assunto periférico, enquanto esperamos que o desempenho do sistema melhore por outras vias? A resposta é não. E importa perceber porquê com precisão.

 

Uma escola não é apenas o espaço físico onde o currículo é transmitido. É um ecossistema humano, e como todo o ecossistema, o seu funcionamento depende da saúde de todas as suas partes. Quando falamos da comunidade educativa, falamos de um conjunto amplo e interdependente: os professores que ensinam, os directores e subdirectores que gerem e lideram, os auxiliares de educação que garantem o funcionamento quotidiano das instalações, os psicólogos e orientadores escolares onde existem, os funcionários administrativos que processam as matrículas e os registos, os guardas que abrem as portas de manhã, os auxiliares de limpeza que cuidam dos espaços onde a aprendizagem acontece. Todos estes profissionais participam, directa ou indirectamente, na experiência que o aluno tem da escola — e todos eles trazem para esse espaço o seu estado emocional, as suas motivações, os seus receios e as suas expectativas. Uma escola onde os profissionais sofrem é uma escola onde os alunos sentem esse sofrimento, mesmo que ninguém lho explique em palavras.

 

Denise Curado descreve o seu objectivo no trabalho com crianças e adolescentes como contribuir para que se tornem adultos mais resilientes, equilibrados e felizes, capazes de enfrentar os desafios da vida com confiança. Mas acrescenta algo que a política educativa raramente nomeia: para que isso aconteça, é urgente a implementação de políticas e práticas que promovam a inclusão no seu verdadeiro sentido, e que os profissionais de educação tenham formação contínua para identificar as dificuldades e particularidades de cada aluno — dentro e fora da sala de aula. Não basta querer. É preciso estar preparado. E estar preparado exige que o próprio profissional se sinta apoiado, ouvido e valorizado pela instituição onde trabalha.

 

O UNICEF, no seu trabalho de apoio ao Ministério da Educação de Angola, reconhece de forma explícita que para muitas crianças angolanas a escola não é uma experiência positiva — e identifica isso como um dos grandes desafios para garantir não apenas o acesso, mas a permanência e a aprendizagem efectiva dos alunos no sistema. Esta constatação não é um detalhe estatístico. É um diagnóstico que ainda não encontrou resposta de política educativa à sua altura. Uma escola que não é vivida como um lugar seguro e acolhedor não retém os alunos. Uma escola que não é vivida como um lugar de pertença não os motiva. E uma escola que não motiva pode ter as melhores infraestruturas e os manuais mais actualizados — e continuar a falhar.

O que significa, então, uma escola psicologicamente saudável — e o que é necessário para a construir? Significa, em primeiro lugar, uma escola onde o erro não é uma humilhação. Onde o director entra nas salas com a convicção de que os seus professores precisam de apoio e não apenas de supervisão. Onde o professor chega à aula com a certeza de que alguém, na estrutura institucional acima dele, se preocupa com o seu estado. Onde o auxiliar de educação é tratado com a mesma dignidade que é pedida ao professor na relação com os seus alunos — porque a dignidade no trabalho não é divisível, e um ambiente institucional que a pratica selectivamente não a pratica verdadeiramente. Significa uma escola onde as relações entre alunos são levadas a sério, onde o isolamento é detectado e respondido, onde o sentido de pertença é construído activamente e não deixado ao acaso.

Para que tudo isto aconteça, são necessárias medidas concretas que a política educativa em Angola ainda não incorporou de forma sistemática. A primeira é a introdução de mecanismos regulares de avaliação do bem-estar da comunidade educativa — instrumentos simples, aplicados periodicamente, que permitam às direcções escolares e às autoridades provinciais de educação saber como estão as pessoas que trabalham e aprendem nas suas escolas. O que não se mede não se gere, e o bem-estar emocional das escolas angolanas continua, na sua maioria, invisível para o sistema. A segunda é a formação de directores e subdirectores em liderança humanizante — a capacidade de gerir pessoas com atenção ao seu estado emocional, criando condições para que os profissionais se sintam ouvidos, valorizados e apoiados. A terceira é a integração de psicólogos e técnicos de saúde mental nas escolas públicas angolanas, não apenas nas situações de crise declarada, mas como presença permanente e preventiva no quotidiano escolar. A quarta é a revisão das condições de trabalho de todos os profissionais de educação — remuneração, carga horária, acesso a formação contínua, condições físicas dos espaços — com o reconhecimento de que um profissional que trabalha em condições indignas não pode ser esperado que produza resultados dignos. A quinta, e talvez a mais difícil porque exige uma mudança de cultura e não apenas de legislação, é a construção de escolas onde o acolhimento é uma prática intencional: onde o primeiro dia de aula é pensado com cuidado, onde as transições entre ciclos são acompanhadas, onde nenhum aluno novo fica à deriva nas primeiras semanas porque ninguém teve tempo ou mandato para o receber.

 

Nenhuma destas medidas é impossível. Nenhuma exige recursos que Angola não possa mobilizar se os considerar prioritários. O que exigem é uma decisão: a decisão de reconhecer que o bem-estar emocional da comunidade educativa é uma variável de desempenho do sistema e não um benefício residual a distribuir quando tudo o resto estiver resolvido. Um aluno que se sente bem na escola falta menos, concentra-se mais, persiste perante a dificuldade e tem maior probabilidade de completar o seu percurso. Um profissional de educação que se sente bem no seu trabalho é mais criativo, mais disponível, mais eficaz — e fica. A retenção de profissionais qualificados é um dos problemas estruturais do sistema educativo angolano, e a evidência clínica que Denise Curado traz do seu consultório confirma o que a investigação académica também documenta: as pessoas não saem apenas por falta de dinheiro. Saem quando se sentem invisíveis, desrespeitadas e sós.

O Dia Internacional da Felicidade não é uma ocasião para discursos. É uma ocasião para perguntas honestas. Quantas escolas angolanas têm hoje um plano para o bem-estar dos seus profissionais? Quantas direcções provinciais de educação monitorizam o estado emocional das suas comunidades escolares? Quantas orientações de política educativa incluem o bem-estar como indicador de qualidade, ao lado das taxas de aprovação e das matrículas?

A Angola Aprende acredita que estas perguntas merecem respostas — e que o caminho para as obter começa por reconhecer, de forma definitiva e sem hesitação, que uma escola onde as pessoas são felizes é uma escola que ensina melhor. Não apesar disso. Por causa disso.

Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?

20 DE MARÇO

Dia Internacional da Felicidade

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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