Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora
Existe uma contradição silenciosa no centro dos nossos currículos escolares. Por um lado, a educação moderna diz que quer formar alunos com pensamento crítico, com capacidade de análise, com vocabulário rico, com memória treinada e com criatividade. Por outro, trata a poesia — um dos instrumentos mais antigos e mais eficazes para desenvolver exactamente essas capacidades — como um conteúdo residual, encaixado entre matérias mais sérias, lido de passagem, raramente explorado com a profundidade que merece. Esta contradição não é inocente. Tem um custo, e esse custo é pago pelos alunos — que saem da escola sem as competências cognitivas que a poesia teria desenvolvido, e que nenhuma ficha de gramática nem nenhum exercício de escolha múltipla consegue substituir.
A investigação científica sobre os efeitos da poesia no desenvolvimento cognitivo dos jovens não é nova nem escassa — é simplesmente ignorada com uma regularidade que surpreende. Sabe-se, há décadas, que memorizar e recitar poesia não é um exercício ornamental mas um treino neurológico concreto: o acto de memorizar um poema activa e fortalece as mesmas vias neurais que sustentam a memória de longo prazo noutros domínios, incluindo os domínios científicos e matemáticos. O ritmo e a rima não são apenas recursos estéticos — são andaimes cognitivos que facilitam a retenção de informação ao organizar a língua em padrões reconhecíveis, reduzindo o esforço de memorização e aumentando a capacidade de recuperação posterior. Um aluno que treina a memória através da poesia está a treinar a memória como capacidade geral, e os ganhos transferem-se para todas as outras áreas. Esta conclusão é sustentada, entre outros, pelo trabalho de David Rubin em Memory in Oral Traditions (1995), que demonstrou que as estruturas rítmicas da poesia funcionam como esquemas de memória — padrões antecipáveis que o cérebro usa para organizar e reter informação de forma mais eficiente do que o texto em prosa. Tillman e Dowling confirmaram esta assimetria de forma directa num estudo publicado em 2007 na revista Memory and Cognition: a memória declina com o tempo para a prosa, mas não para a poesia.
A análise de um poema é, do ponto de vista cognitivo, um dos exercícios mais exigentes que a escola pode propor. Um poema é, por definição, linguagem comprimida: diz muito com pouco, omite o que considera dispensável, usa a ambiguidade como recurso e não como falha, obriga o leitor a preencher os espaços vazios com interpretação própria. Para um aluno que o lê com atenção, isto significa activar simultaneamente várias operações cognitivas de ordem superior: identificar o que está dito e o que está implícito, interpretar metáforas, reconhecer a intenção por detrás da escolha de cada palavra, avaliar a coerência interna do texto e construir uma leitura pessoal que se sustente. Em psicologia cognitiva, a este conjunto de capacidades chama-se flexibilidade cognitiva — a capacidade de mudar de perspectiva, de considerar mais de uma interpretação ao mesmo tempo, de não se prender à primeira leitura — e é exactamente o mesmo conjunto que o pensamento científico, o raciocínio jurídico e a resolução criativa de problemas exigem. Esta dimensão foi estudada de forma rigorosa por uma equipa de investigadores da Universidade de Liverpool, liderada por Noreen O’Sullivan e Philip Davis, Professor Emérito de Literatura e Psicologia e director do Centro de Investigação sobre Leitura, Literatura e Sociedade. Num estudo de neuroimagem — isto é, um estudo que regista a actividade do cérebro em tempo real através de ressonância magnética funcional — publicado na revista científica Cortex em 2015, a equipa comparou o que acontece no cérebro durante a leitura de poesia e durante a leitura de prosa, com vinte e quatro participantes. A conclusão foi clara: a poesia activa regiões do cérebro associadas ao processamento não automático do significado — ou seja, regiões que entram em funcionamento precisamente quando o cérebro não pode seguir o caminho mais fácil e precisa de pensar de forma mais activa e atenta. Davis designou esta capacidade como consciência literária — a aptidão para habitar o texto com alerta, sem se contentar com a primeira leitura. O estudo concluiu ainda que este processo é experimentado pelo cérebro como intrinsecamente recompensador, activando as mesmas zonas de prazer associadas à música.
Há uma conexão, menos óbvia mas igualmente documentada, entre a estrutura poética e o pensamento matemático. A poesia organiza-se em padrões — de ritmo, de rima, de sílabas, de estrofes — e o reconhecimento de padrões é uma das competências cognitivas fundamentais para a aprendizagem da Matemática. Um estudo de 2019, citado em vários relatórios sobre neurodesenvolvimento infantil, analisou a actividade cerebral de vinte e um recém-nascidos expostos a discurso normal, música e lengalengas rimadas. Os bebés expostos às lengalengas produziram respostas cerebrais significativas quando a rima esperada era alterada — o que sugere que o cérebro humano, mesmo antes da aquisição da linguagem, tenta antecipar e completar padrões rítmicos. Este tipo de processamento antecipativo é, estruturalmente, o mesmo que está na base do raciocínio sequencial necessário para compreender progressões aritméticas, equações com padrão ou qualquer forma de pensamento que exija identificar uma regularidade e prever o que vem a seguir. Uma criança que aprende a sentir onde o verso quebra, a antecipar a cadência que se repete, está a exercitar o mesmo tipo de raciocínio que a Matemática vai exigir mais tarde.
Ler poesia em voz alta acrescenta ainda outra dimensão: a do desenvolvimento neurológico através do corpo. A declamação de um poema envolve simultaneamente a zona do cérebro responsável pela audição, a zona responsável pelo movimento e as áreas de processamento de linguagem, criando conexões entre regiões cerebrais que o texto em prosa raramente mobiliza com a mesma intensidade. O corpo participa — a respiração regula-se pelo ritmo, a voz modula-se pelo sentido, a memória muscular instala-se. Um aluno que recita poesia regularmente não está apenas a aprender o poema: está a aprender a usar o corpo como instrumento de pensamento, o que tem consequências documentadas na fluência verbal, na confiança comunicativa e na capacidade de expressão oral. A investigadora Louise Rosenblatt, na sua obra The Reader, the Text, the Poem (1978), distinguiu entre dois modos de leitura: o modo centrado na extracção de informação — aquele que usamos quando lemos instruções ou relatórios, procurando apenas recolher factos — e o modo centrado na experiência vivida durante a leitura, em que o leitor participa activamente na construção do significado em vez de apenas receber conteúdo. Rosenblatt argumentou que a poesia é o género que mais consistentemente activa este segundo modo, tornando o leitor co-autor do sentido e não simples destinatário.
E depois há a empatia. Ler um poema escrito por outra pessoa, num tempo diferente, num lugar diferente, a partir de uma experiência que pode ser radicalmente distinta da nossa, é um acto de descentração cognitiva — isto é, a capacidade de sair do próprio ponto de vista e habitar temporariamente o de outrem. Regressamos dessa habitação com uma compreensão ligeiramente diferente do mundo. A investigação em neurociências sociais mostra que esta capacidade não é apenas uma virtude moral: é uma competência cognitiva que se treina, que se desenvolve e que tem impacto mensurável em domínios que vão da resolução de conflitos à tomada de decisão ética. Adam Zeman, professor de neurologia cognitiva e comportamental da Universidade de Exeter, conduziu em 2013 um estudo de neuroimagem sobre a leitura de poesia e prosa — publicado no Journal of Consciousness Studies — e observou que os poemas conhecidos de memória activam as zonas cerebrais associadas à memória pessoal com muito maior intensidade do que as zonas normais de leitura, sugerindo que a poesia não apenas informa o leitor, mas se integra na sua estrutura de memória emocional de formas que a prosa raramente consegue igualar.
O que tudo isto significa, em termos práticos, para os currículos angolanos? Significa que tratar a poesia como um género literário entre outros, a ser estudado quando o programa chega aos poetas e esquecido quando o programa avança, é desperdiçar uma ferramenta pedagógica de largo espectro com aplicações que transcendem em muito a disciplina de Língua Portuguesa. Um professor de História que usa um poema para abrir uma unidade sobre a luta de libertação não está a desviar-se do programa — está a activar nos seus alunos modos de processamento cognitivo que vão aprofundar a compreensão da matéria. Um professor de Matemática que começa a aula com a declamação colectiva de um poema de estrutura rítmica regular não está a perder tempo — está a preparar o cérebro dos seus alunos para o tipo de reconhecimento de padrões que a aula vai exigir. Um professor de qualquer disciplina que pede aos alunos que escrevam um poema sobre o que aprenderam não está a fugir ao rigor — está a propor uma das formas mais exigentes de consolidação de aprendizagem que existe, porque transformar conhecimento em linguagem comprimida e intencional exige uma compreensão que a reprodução de respostas-tipo nunca consegue revelar.
Angola tem poetas. Tem uma tradição poética que atravessou a luta de libertação, que sobreviveu ao pós-guerra, que continua a ser produzida hoje por vozes que cresceram nestas cidades, nestes bairros, nestas escolas. Integrar essa tradição nos currículos não é um gesto nostálgico nem identitário no sentido estreito — é uma decisão pedagógica com fundamento científico, porque a proximidade cultural entre o aluno e o texto que lê intensifica os efeitos cognitivos da leitura: o aluno que reconhece no poema o seu mundo, a sua língua, a sua história, processa-o com uma profundidade que o texto distante raramente provoca. A ciência diz que a poesia forma melhores pensadores. E Angola tem poesia suficiente para começar amanhã.
Alguns dos livros de poesia de Cláudia Cassoma, Fundadora e Directora Executiva da Angola Aprende — porque escrever sobre o valor da poesia na sala de aula começa por acreditar, de dentro, no valor da poesia.
Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?
21 DE MARÇO
Dia Mundial da Poesia
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.
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