Técnica de Enfermagem | Estudante de Medicina | Voluntária em Causas de Saúde, incluindo os Abraços Amarelos
Há um momento silencioso em que a saúde começa a falhar e quase ninguém percebe. Não é um grito imediato, é um sussurro, um cansaço que já não passa com uma noite de sono, uma dor leve que insistimos em ignorar, uma respiração que pesa um pouco mais no fim do dia. O corpo não falha de repente, ele avisa aos poucos, como quem pede atenção sem querer incomodar.
E, ainda assim, vivemos apressados, ocupados demais para escutar. Entre responsabilidades, expectativas e dias que parecem sempre curtos, vamos adiando o cuidado, como se o corpo pudesse esperar.
A saúde vive nesse lugar invisível onde tudo ainda parece inteiro. É um equilíbrio discreto, quase esquecido, que sustenta os dias sem pedir reconhecimento. Só quando começa a desfazer-se em silêncio é que percebemos o quanto dependíamos dela para continuar.
E pouco a pouco, aquilo que era leve ganha peso. Os dias tornam-se mais longos, o corpo mais distante, e aquilo que antes era natural passa a exigir esforço. Há um desgaste que não se vê de imediato, mas que se instala devagar, como quem ocupa espaço sem pedir licença.
Não é fraqueza, é o corpo a mostrar que também tem limites.
E o mais triste talvez seja perceber que só damos valor quando começamos a perder, quando aquilo que sustentava os nossos dias deixa de ser garantido. Quando o corpo deixa de sussurrar e finalmente grita.
Talvez, se ouvíssemos os sussurros, o grito não seria tão alto.
Então, tudo bem. O corpo gritou e agora você finalmente escuta.
Calma. Respira fundo.
Comecemos pelo mais simples, pelo essencial que tantas vezes ignoramos: beber água — pelo menos dois litros hoje, e amanhã também. Deixar que cada golo seja um gesto de cuidado, como se estivéssemos a regar algo dentro de nós. E, com a mesma atenção, aprender a ouvir de verdade e a decifrar cada sinal, cada silêncio, cada cansaço que o corpo traduz em grito.
Talvez seja hora de repousar. Dormir não como fuga, mas como reencontro. Oito horas por noite, ou o mais próximo disso, para que o corpo se reorganize em silêncio, longe do ruído do mundo. E depois, mover-se não com pressa, mas com intenção. Pequenas caminhadas, passos leves que, com o tempo, ganham fôlego e se transformam em corrida, em liberdade. Caminhar como quem volta a si.
E enquanto caminhamos, que possamos tocar as plantas, sentir o vento, olhar para o céu, lembrar que também fazemos parte de algo tão lindo. Conversar com alguém, partilhar o peso e a leveza da vida, rir sem motivo exacto. Estar com amigos, brincar — porque brincadeiras também curam, também acalmam, também silenciam os gritos mais intensos do corpo.
Talvez possamos ainda reaprender a comer com vontade, a respeitar os sinais que o corpo dá, a escolher o que nutre e não apenas o que preenche. Dar descanso aos olhos e à mente. Permitir-se pausas ao longo do dia, nem que sejam breves, mas verdadeiras. Respirar fundo entre uma tarefa e outra, como quem precisa recomeçar.
E aos poucos, com essas escolhas quase invisíveis, o equilíbrio começa a voltar. Não de forma brusca, mas como algo que se reconstrói devagar, com muito cuidado.
Porque, no fundo, o corpo raramente pede muito.
Ele só pede que o escutemos. Pare e escute.
Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?
7 DE ABRIL
Dia Mundial da Saúde
Antónia Gonçalves é profissional angolana com formação técnica média em Enfermagem e actualmente a frequentar a licenciatura em Medicina. A sua trajectória une a experiência prática no cuidado directo ao paciente com um compromisso social profundo, actuando em projectos comunitários e serviços sociais de promoção da saúde em Angola. É voluntária em causas de saúde, tendo participado nos Abraços Amarelos — iniciativa do projecto Conversas Amarelas, do Global Shapers Community — Luanda Hub, dedicado à sensibilização para a saúde mental e à prevenção do suicídio em Angola. Escreve a partir da convicção de que cuidar começa muito antes do consultório — com a voz de quem observa, acompanha e acredita que gestos simples têm o poder de mudar tudo.
Ham, incrível!
Este texto transmitiu-me duas coisas essenciais.
Primeiro, que a escrita não pertence apenas aos escritores; há quem, mesmo sem rótulo, escreve de forma capaz de tocar profundamente. Li a biografia da autora e, em nenhum momento, encontrei menção a ser “escritora”, mas a delicadeza e sensibilidade com que abordou um tema tão complexo é simplesmente admirável. Fiquei especialmente preso a este trecho:
“A saúde vive nesse lugar invisível onde tudo ainda parece inteiro. É um equilíbrio discreto, quase esquecido, que sustenta os dias sem pedir reconhecimento. Só quando começa a desfazer-se em silêncio é que percebemos o quanto dependíamos dela para continuar.”
Wau! Esse trecho é quase uma polifonia: fala sobre saúde, mas poderia até inspirar uma cantada… Voltando, lembrou-me de um personagem de Frankz Kaffa: um homem com uma vida tão activa, imerso em negócios, que jamais pensava no bem mais precioso a saúde..mesmo quando a sussurrava..na tosse despercebida..na dor de cabeça e febre comfundida. Até que, de repente, essa porta se fechou, e quem antes era o alicerce da família tornou-se um fardo a ser cuidado.
O segundo ponto é igualmente marcante: profissionais de saúde em Angola e além têm um terreno fértil para explorar na escrita, aplicando uma das dimensões mais importantes da medicina: a preventiva. Escrever sobre prevenção é também salvar vidas. Mas isso exige leitores atentos… e, infelizmente, este texto merecia mais visibilidade. Preferimos partilhar memes e confesso que me incluo nessa lista, porque li tarde e, como consequência, nem 1 litro de água tinha bebido desde manhã.
Pronto, que textos assim não fiquem restritos a dias especiais. Que se tornem lembretes constantes…porque são leves, mas com efeito mais poderoso do que uma receita de farmácia…pois, mostrou-me que que as prescrições médicas também podem encontrar lugar em palavras que dançam como poesia, onde a prvenção se esconde no último verso, na última rima, de um texto.
Senhor Domingos, muito obrigada pelas suas palavras tão bonitas. Fico feliz que a minha escrita tenha ressoado em você dessa forma. Sua reflexão sobre o lugar invisível da saúde e a referência a Kafka mostram o quão atento e profundo o senhor é como leitor. É gratificante saber que o texto cumpriu o seu papel de tocar alguém. 😊
Antónia, escreves como quem já aprendeu a escutar o próprio corpo — e isso não é pouca coisa. Há uma maturidade no teu olhar sobre o cuidado que não se aprende nos livros, aprende-se vivendo com atenção. E tu escreves com essa atenção.
O que me surpreendeu foi a ternura. Não há julgamento neste texto, não há sermão. Há alguém que chegou ao teu lado e disse calma, respira, vamos começar pelo mais simples. Num mundo que confunde cuidar com exigir, isso é um gesto raro — e um talento ainda mais raro de pôr em palavras.
Fico feliz que este texto exista. E ainda mais por estar aqui — na Angola Aprende.
Feliz Dia Mundial da Saúde.
Muito obrigada, mana Cláudia! Ler o teu comentário foi um presente. Fico feliz que a ternura e o cuidado tenham chegado até ti de forma tão clara, pois era exatamente esse o meu objetivo. Agradeço imenso à Angola Aprende por me permitir partilhar estas reflexões com o mundo e por me proporcionar encontros tão bonitos como este.