Mais por descobrir...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Filter by Categories
Ahetu mu Kulonga
ARTIGO
Artigo de Opinião
CRÓNICA
Crónica Narrativa
ENSAIO
Ensaio Comparado
Ensaio Crítico
Ensaio Reflexivo
Ensaio Teórico
ENTREVISTA
Entrevista Individual
Missão
Nas Lentes da Angola Aprende
Páginas do Saber
Vozes

O Que Fica Quando Vinte e Oito Vozes Falam

Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora

Há perguntas que só conseguimos formular depois de já termos as respostas. Quando lançámos a campanha Ahetu mu Kulonga — A Educação no Olhar das Mulheres, sabíamos o que queríamos compreender: como as mulheres que fazem a educação acontecer em Angola navegam entre o que é prescrito e o que é possível, entre o currículo oficial e a realidade das suas salas de aula, entre as expectativas institucionais e as condições efectivas de trabalho. Queríamos perceber que conhecimento prático acumularam, que estratégias desenvolveram, que decisões tomam quando as directrizes mudam e os recursos não chegam. Sabíamos que as perguntas eram importantes. Não antecipávamos, porém, a profundidade do que as respostas viriam a revelar.

 

Devo ser honesta: quando me sentei com a equipa e desenhámos esta campanha, o número 31 — uma voz por dia, durante todo o mês de Março — pareceu-me ambicioso até a mim. Conheço bem a realidade de quem tenta construir algo novo sem o peso de um nome já estabelecido. As pessoas hesitam em investir tempo e esforço numa iniciativa que não reconhecem, associada a uma organização que ainda não conhecem, com resultados que não conseguem antecipar. Essa hesitação é legítima — e eu sabia que tínhamos de a merecer, não apenas de a superar. Por isso, quando 37 mulheres manifestaram interesse e 28 completaram o processo na sua totalidade, não foi apenas uma conquista de números. Foi uma confirmação de que o convite foi genuíno o suficiente para ser aceite.

 

Chegaram de quintais transformados em clubes de leitura e de gabinetes de apoio psicopedagógico sem computadores. De salas de aula no Nambuangongo onde a rede móvel não chega e os projectos ficam à espera de condições que a lei prevê mas a realidade não garante. Chegaram de Madres que planificam aulas depois da oração da noite, de estudantes que já estão a ensinar antes de terminar a licenciatura, de psicólogas que usam a poesia para aceder ao que os instrumentos formais não conseguem captar. Chegaram com humor e com indignação, com rigor e com testemunho pessoal — e com ditados que nenhum manual regista mas que definem, com precisão cirúrgica, o que significa lidar com a imperfeição humana no quotidiano de uma escola. Cada uma das vinte e oito mulheres que participaram disse “Eme ngui muhatu wa Kulonga” — e cada uma disse de uma forma que só ela poderia dizer. A menina tímida que se tornou poetisa no Clube de Leitura do Malweka. Os quatro anos sem ordenado numa escola sem janelas que ensinaram mais do que qualquer formação formal. A estudante que chegou ao gabinete de apoio, falou durante uma hora sem parar e saiu apenas agradecida por ter sido ouvida. O aluno da 12.ª classe que quase desistiu porque os pais foram para outra província e deixaram quatro filhos sozinhos em Luanda. Estas não são histórias anedóticas — são dados, são evidência, são o tipo de conhecimento que os documentos de política raramente captam e que, quando ignorado, produz reformas bem intencionadas que chegam às escolas como instruções impossíveis.

Esta campanha deixou marcas que vão além do que foi publicado. Ficou a consciência de que a liderança pedagógica em Angola é exercida, em grande parte, em condições de improvisação estrutural — não improvisação por incompetência, mas por necessidade: a capacidade de encontrar sempre o plano C e o plano D quando o plano A nunca existiu e o plano B foi cancelado sem aviso. Esta improvisação tem um custo que ninguém mede: o cansaço de quem mantém a qualidade sem ter as condições para o fazer, semana após semana, ano após ano, com a convicção de que os alunos merecem mais do que as circunstâncias permitem. Ficou também a constatação de que estas mulheres não precisavam de ser convencidas de que o seu conhecimento tem valor — precisavam, muitas vezes, apenas de ser perguntadas. De ter um espaço onde a pergunta fosse genuína, não um formulário nem uma inspecção, mas uma conversa. E quando a pergunta foi genuína, as respostas foram extraordinárias.

Há uma tensão que Angola carrega e que esta campanha tornou mais visível: a distância entre o conhecimento produzido sobre a educação e o conhecimento produzido a partir da educação. O primeiro habita relatórios, conferências e documentos de política. O segundo habita salas de aula, quintais e igrejas onde alguém decidiu que as crianças do bairro mereciam um clube de leitura. Esses dois mundos comunicam pouco — e quando não comunicam, as políticas tornam-se prescrições que chegam ao terreno sem compreender o terreno. Ahetu mu Kulonga foi um exercício de aproximação entre esses dois mundos. Não resolveu a tensão — uma campanha não resolve o que décadas de invisibilidade construíram. Mas criou um registo. Deu nome e rosto a conhecimento que existia mas não tinha forma pública.

 

Esse registo importa por uma razão que me é próxima. Sempre que escrevo — artigos, ensaios, análises sobre educação — e vou à procura de fontes angolanas, o exercício é quase impossível. Não porque o conhecimento não exista, mas porque não está sistematizado, não está publicado, não está acessível de forma que permita ser citado, verificado, construído. A dificuldade multiplica-se quando procuro especificamente vozes femininas: são ainda mais raras no registo formal, ainda mais ausentes dos arquivos que consultamos quando queremos fundamentar uma ideia ou sustentar um argumento. Esta campanha começou a mudar isso. Não de forma definitiva — vinte e oito entrevistas não constroem um arquivo da noite para o dia — mas de forma intencional. Cada testemunho publicado é uma fonte que passa a existir. Cada análise partilhada é um ponto de referência que antes não havia.

 

Este ano, vinte e oito vozes juntaram-se. No próximo, esperamos pelo menos o dobro do que planeámos para esta edição — sessenta e duas vozes, duas por dia, durante todo o mês de Março. E eventualmente teremos um arquivo que Angola merece ter: um corpus de conhecimento construído por mulheres que fazem a educação acontecer todos os dias, em todas as províncias, em todas as condições — um arquivo que poderá ser consultado, citado e construído por quem vier a seguir. Um arquivo que dirá, com evidência e com nome, que o conhecimento sobre educação em Angola não começa nem termina nos documentos de política. Começa nas salas de aula. Começa nos quintais. Começa onde uma mulher decide que vale a pena ensinar — e ensina.

Eme ngui muhatu wa Kulonga. Este ano disseram vinte e oito mulheres. No próximo, dirão mais. E o que fica, quando tantas vozes falam, é exactamente o que sempre deveria ter existido: um registo que prova que estiveram aqui, que pensaram, que ensinaram — e que o seu conhecimento tem valor suficiente para ficar.

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

Continua a aprofundar o teu saber sobre educação com textos transformadores

Páginas do Saber

Tens uma perspectiva sobre educação? Escreve para a Angola Aprende

O que aprendeste? Comente ↓

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Inspire alguém hoje — partilhe este conteúdo com a tua rede!