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Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende
Há uma imagem que não consigo apagar. Uma criança de sete anos chega à escola com fome, vestindo uma bata passada a ferro com o cuidado de uma mãe que se levantou muito antes do primeiro raio de sol. Senta-se, abre o caderno, olha para o quadro e, sem que ninguém perceba, começa a gerir uma desvantagem que não criou, não escolheu e não merece. O sistema trata essa desvantagem como se fosse natural, como se fosse inevitável. Mas não é. É o resultado acumulado de decisões económicas, sociais e políticas que antecedem aquela manhã e que determinam o ponto de partida daquela criança.
Ao longo dos anos, trabalhei com crianças em contextos profundamente distintos — em Maryland, no Distrito de Columbia, em Boston, em Luanda, no Lucala. A experiência ensinou-me algo simples: o talento distribui-se amplamente; as oportunidades, não. A criança que cresce com estabilidade alimentar, acesso a livros e adultos disponíveis chega à escola com ferramentas invisíveis que facilitam a aprendizagem. A outra chega já a compensar ausências. Quando tratamos ambas como se partissem do mesmo ponto, estamos a chamar igualdade ao que é, na verdade, indiferença perante a desigualdade. E essa indiferença transforma-se numa dívida que a criança nunca contraiu.
Equidade em educação não é um conceito importado. É a consequência directa da afirmação de que todas as crianças têm igual dignidade. Se acreditamos nisso, então precisamos reconhecer que necessidades diferentes exigem respostas diferenciadas. Ignorar desigualdades estruturais não elimina a desvantagem; apenas a desloca para os ombros de quem tem menos capacidade de a suportar.
Em Angola, como em muitos outros contextos, essa dívida estrutural é visível. Professores trabalham com recursos insuficientes. Turmas são numerosas. Crianças abandonam a escola porque a sobrevivência familiar impõe escolhas que não deveriam ser feitas na infância. O sistema educativo carrega decisões acumuladas que continuam a produzir pontos de partida desiguais. Infra-estruturas são necessárias, mas não suficientes; o que está em causa é prioridade efectiva.
Não existe compromisso com o futuro quando as crianças continuam a pagar no presente o preço das escolhas erradas feitas pelos adultos no passado. Sempre que uma geração começa a sua trajectória educativa já em desvantagem estrutural, o discurso sobre desenvolvimento perde credibilidade. O futuro não se constrói exigindo que crianças compensem falhas que não criaram.
A glorificação do professor que “faz muito com pouco” reforça essa lógica. Professores podem ser resilientes e criativos, mas transformar a escassez em virtude desloca a responsabilidade colectiva para o esforço individual. Um professor sem materiais adequados não é o problema; o problema é o sistema que normaliza a insuficiência. Exigir resultados sem garantir condições perpetua a dívida inicial.
O mesmo acontece quando a inclusão é tratada como concessão. Se crianças com necessidades especiais precisam provar que merecem estar na escola, então estamos a estabelecer hierarquias de pertença. Educação Inclusiva não é benevolência; é reconhecimento de direito. Negar condições adequadas é acrescentar mais uma camada à desvantagem já existente.
A forma como tentamos corrigir desigualdades também revela se estamos dispostos a assumir responsabilidade. Reformas desenhadas sem escutar quem vive a realidade diária da escola tendem a reproduzir distâncias. Professores que enfrentam escassez desenvolvem respostas concretas para reduzir obstáculos. Ignorar esse conhecimento é desperdiçar soluções que poderiam diminuir a desvantagem que tantas crianças carregam ao entrar na sala.
Tudo regressa à imagem inicial. A fome com que aquela criança chega à escola não é um detalhe isolado; é o sinal de um sistema que lhe exige mais do que oferece. O caderno aberto diante dela representa possibilidade, mas também revela a assimetria do ponto de partida. Se a escola a recebe sem reconhecer essa condição, estará a exigir que pague, com esforço redobrado, uma dívida que nunca contraiu.
A distinção entre caridade e justiça torna-se evidente. Um gesto pontual pode aliviar um dia. Uma decisão estrutural pode alterar um percurso. Aliviar trata o sintoma; transformar enfrenta a causa. Enquanto confundirmos uma coisa com a outra, a dívida permanece.
Nenhuma sociedade pode exigir desenvolvimento enquanto aceita que parte das suas crianças comece a vida escolar já a compensar ausências estruturais. Educação não é favor nem suplemento; é mecanismo central de redistribuição de oportunidades. Quando falha nesse papel, cristaliza desigualdades em vez de as reduzir.
E é por isso que regresso à imagem que não consigo apagar. Aquela criança não nasceu em dívida. Não deve provar que merece condições básicas de aprendizagem. Não deve compensar decisões que nunca tomou. Se chega à escola já a gerir desvantagens que não criou, então não estamos perante inevitabilidade; estamos perante escolha colectiva.
Nenhuma criança nasce em dívida. A verdadeira medida do nosso compromisso é decidir, de forma concreta e consistente, que deixará de pagar por aquilo que nunca lhe pertenceu.
20 DE FEVEREIRO
Dia Mundial da Justiça Social
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.