Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora
Há uma ideia instalada com demasiada firmeza em muitas salas de aula: a de que o livro infantil pertence à biblioteca, às férias, às tardes livres — mas não à aula. Que a aula tem o manual, tem os exercícios, tem a matéria, e que o livro de histórias é um extra agradável para quando sobra tempo. Esta ideia é, ao mesmo tempo, compreensível e profundamente equivocada. Compreensível porque a pressão curricular é real e o tempo lectivo é escasso. Equivocada porque o livro infantil não é um desvio da aprendizagem — é uma das suas formas mais eficazes e mais duradouras.
Um livro infantil bem escolhido faz coisas que o manual não consegue fazer sozinho. Desenvolve o vocabulário de forma orgânica, sem que a criança sinta que está a levar a mente a um esforço excessivo. Expande a capacidade de atenção, que é hoje um dos recursos mais escassos e mais necessários na sala de aula. Constrói empatia — a capacidade de habitar temporariamente a perspectiva de outro, de sentir o que outro sente, de reconhecer a humanidade em quem é diferente. Estimula a imaginação criativa, que é a mesma faculdade cognitiva que está por detrás do pensamento científico, da resolução de problemas e da inovação. E faz tudo isto de uma forma que a criança não experimenta como trabalho — experimenta como prazer. E o prazer, como qualquer professor sabe, é o estado em que a aprendizagem acontece com mais profundidade e mais permanência.
O livro infantil tem ainda uma dimensão que raramente é nomeada com a clareza que merece: é o primeiro espaço onde uma criança aprende que as histórias existem, que as palavras têm poder, e que ela — a criança — tem o direito de habitar mundos que ainda não existem. Um aluno que cresce com livros aprende a ler mais do que palavras. Aprende a ler o mundo. Aprende que as situações têm contexto, que as pessoas têm motivações, que os problemas têm mais do que uma solução possível. Aprende, em suma, a pensar — e a pensar com a complexidade que a vida exige.
Há algo que aprendi de forma muito directa na minha experiência como professora: os alunos que participam na criação de um livro transformam a sua relação com a aprendizagem de uma forma que nenhuma outra actividade consegue replicar com a mesma intensidade. Quando escrevi Our Dazzling, Dumbfounding, Delightful Days at Diener com os meus alunos — um livro que nasceu das suas próprias vozes, das suas histórias, das suas aventuras quotidianas numa escola que os via e os ouvia — o que aconteceu não foi apenas a produção de um livro. Foi a descoberta, por parte de cada um desses alunos, de que a sua experiência tem valor suficiente para ser escrita. De que o que vivem merece ser contado. De que eles são, eles próprios, autores — não apenas receptores de conhecimento, mas produtores de sentido. Esta descoberta não se apaga. Fica.
O Dia Internacional do Livro Infantil, celebrado a 2 de Abril, existe para lembrar que a literatura para crianças não é literatura menor. É literatura com uma responsabilidade maior — porque chega às pessoas num momento em que ainda estão a construir a sua relação com o mundo, com a linguagem, com as outras pessoas e consigo mesmas. Um livro que uma criança lê aos seis anos pode determinar se ela vai querer ler aos dezasseis. Um professor que lê em voz alta para a sua turma, regularmente, com entusiasmo genuíno, está a fazer uma das coisas mais importantes que um professor pode fazer — está a mostrar que as palavras valem o tempo que demoram a ser ditas.
A Angola Aprende acredita que o livro infantil pertence à sala de aula — não como decoração da prateleira, não como recompensa para quem termina o trabalho mais cedo, mas como instrumento pedagógico com lugar garantido no plano de aula, independentemente da disciplina e do nível de ensino. Porque antes de qualquer conteúdo curricular, há uma criança. E essa criança merece histórias que a ajudem a crescer inteira: não apenas instruída, mas reconhecida.
Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?
02 DE ABRIL
Dia Internacional do Livro Infantil
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.
Tens uma perspectiva sobre educação? Escreve para a Angola Aprende
O que aprendeste? Comente ↓