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O Envolvimento Paterno na Educação

Do que a Ciência Documenta ao que a Vida Ensina

Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora

O meu pai não estudou pedagogia. Estudou engenharia, e as suas mãos sabem de estruturas, de cálculos, de coisas que se constroem para durar. Mas o que ele constrói em nós — nos seus filhos — não vem de nenhuma teoria, de nenhuma corrente de pensamento sobre desenvolvimento infantil ou políticas de envolvimento parental. Vem de uma decisão simples e inabalável: estar presente. Ser presente. E há uma diferença enorme entre as duas coisas, que ele conhece sem nunca ter precisado de a nomear.


A investigação produzida em Angola sobre a relação família-escola documenta, com uma consistência que interpela, que o envolvimento dos encarregados de educação no percurso escolar dos filhos é um factor determinante para o desempenho académico e para o desenvolvimento integral das crianças. Sacata, Sacata e António, numa investigação realizada no Lobito e publicada na Revista FOCO em 2024, concluíram que alunos de famílias com menor envolvimento parental tendem a apresentar atrasos escolares significativos — e que as condições económicas, por si sós, não explicam nem determinam a qualidade do acompanhamento que os pais oferecem aos filhos. Sachitota, num estudo publicado pela Revista Angolana de Ciências em 2020 e conduzido numa escola de ensino primário na província do Huambo, concluiu que o grau de participação da família no processo escolar favorece directamente o desempenho dos alunos — e que a baixa participação dos encarregados de educação é uma das principais fragilidades documentadas no sistema educativo angolano. No contexto africano, Eshetu demonstrou, a partir de uma amostra de 538 alunos em treze escolas secundárias na Etiópia, que o envolvimento parental activo tem impacto positivo e mensurável no desempenho académico — e que esse impacto é particularmente significativo em famílias com menores recursos socioeconómicos, contrariando a ideia de que a presença dos pais é um privilégio de quem tem mais.

Não temos todo o dinheiro do mundo — estamos longe disso. Mas temos um pai em todas as reuniões escolares, sem excepção. Um pai que quer saber as notas, sim, mas que quer igualmente saber o comportamento, os planos, os sonhos. Que pergunta o que queremos ser — não para nos mostrar o sonho dele disfarçado de pergunta, mas para nos perguntar, com genuína curiosidade, como pode ajudar. Que portas pode tentar abrir. Que caminhos pode iluminar para que cheguemos um pouco mais perto daquilo que sonhamos. Envolve-nos em artes, em desportos, em experiências que vão muito além do que a escola oferece — não porque segue algum modelo de desenvolvimento integral, mas porque acredita, de forma visceral, que os filhos merecem o mundo inteiro como ponto de partida. Nada nos é simplesmente dado — tudo é ensinado, acompanhado, vivido ao lado dele.

 

O que a investigação designa como envolvimento baseado em aspirações — a prática de manter expectativas explicitamente elevadas para o percurso educativo dos filhos, comunicando essa confiança de forma activa e consistente — é precisamente o que o meu pai pratica, sem a nomenclatura e sem o enquadramento teórico, mas com uma precisão que nenhum manual poderia ter garantido. Uma das maiores conquistas da minha vida profissional foi a publicação do meu primeiro livro. Eu duvidei. Achei que não podia, que não devia, que não era para mim. Ele não duvidou um segundo. Hoje tenho mais de trinta livros publicados, e a melhor coisa — com todos os avanços que já alcancei — continua a ser ter esse apoio, e saber o que ele faz por mim todos os dias. A investigação chama a isto capital de aspiração: a transferência, de pais para filhos, de uma crença estruturada no potencial próprio. A minha experiência chama-lhe simplesmente pai.

Em Angola, a participação do pai na vida educativa da família é uma dimensão ainda pouco enquadrada nas políticas de envolvimento parental. A investigação angolana disponível tende a tratar a família como unidade genérica, sem distinguir os papéis específicos do pai e da mãe, e sem reconhecer que o envolvimento paterno tem características, barreiras e efeitos próprios que merecem atenção específica. A investigação de Sachitota identificou ainda que a escola é frequentemente convocada apenas em situações de indisciplina — o que significa que a presença dos pais na escola é associada, culturalmente, ao problema e não ao acompanhamento. Esta associação tem consequências: enquanto a presença materna na escola é socialmente esperada e valorizada, a presença paterna é raramente exigida, raramente reconhecida e raramente promovida pelas próprias instituições escolares.

Este Dia do Pai não é uma celebração de perfis idealizados nem de paternidades perfeitas. É um convite a reconhecer que o envolvimento paterno na vida educativa dos filhos não é um gesto opcional nem um luxo reservado a quem tem tempo ou recursos para o fazer. É, como a investigação angolana e africana documentam, uma das formas mais concretas e mais eficazes de contribuir para o futuro de uma criança — e os seus efeitos são tanto maiores quanto menores forem os recursos materiais disponíveis. O meu pai não sabe isso em linguagem académica. Sabe-o de outra forma — a forma que importa. E eu, que trabalho todos os dias para que mais crianças angolanas tenham acesso a uma educação que as veja e as prepare, sei que parte do que sou começa ali: numa reunião escolar a que ele nunca falta, numa pergunta que faz sempre, numa certeza que tem em mim mesmo quando eu ainda não a tenho em mim mesma.

 

Feliz Dia do Pai.

Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?

19 DE MARÇO

Dia do Pai

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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