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Preservar a História para Valorizar a Sociologia

Abordar a escravatura na sala de aula não para cultivar lamúria, mas para despertar a consciência crítica

Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora

A História é a disciplina que estuda o passado — os acontecimentos, as decisões, as forças que moldaram o mundo antes de nós. A Sociologia é a disciplina que estuda o presente — as sociedades tal como existem hoje, as suas estruturas, as suas desigualdades, os padrões que organizam a vida colectiva. São duas disciplinas com métodos e objectos diferentes, mas partilham uma relação de dependência que raramente é explicada com clareza nas salas de aula: a Sociologia não consegue explicar o presente sem a História. Uma sociedade não nasce do nada — é o resultado acumulado de decisões tomadas ao longo do tempo, de sistemas que se construíram e perpetuaram, de injustiças que produziram consequências que ainda hoje se sentem. Sem a História, a Sociologia descreve o que existe mas não consegue explicar por que existe. Com a História, o presente torna-se legível.

É a partir desta relação — entre o passado que a História documenta e o presente que a Sociologia interpreta — que se entende por que o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Comércio Transatlântico de Pessoas Escravizadas, assinalado a 25 de Março, tem um valor pedagógico que vai muito além da disciplina de História. Angola foi um dos principais territórios de origem de africanos escravizados para as Américas, durante séculos, em portos como Luanda e Benguela. Esta história não é apenas angolana — é global. E é precisamente por ser global que a sua integração no ensino forma alunos com uma compreensão mais completa do mundo em que vivem — não apenas do mundo que existiu, mas do mundo que existe agora.

Uma nota antes de continuar: a Angola Aprende adoptou conscientemente a expressão pessoas escravizadas em substituição do termo escravos, utilizado pelas Nações Unidas na designação oficial desta data. Antes de qualquer condição imposta, eram pessoas. A linguagem que usamos reflecte os valores que defendemos — e esta escolha não é detalhe, é posição.

O que importa deixar claro desde o início é o propósito de abordar esta data em sala de aula: não se trata de cultivar um sentimento colectivo de vitimização, nem de olhar para o passado como um peso que paralisa. Trata-se do oposto. Trata-se de usar a memória histórica como ferramenta de leitura sociológica — como ponto de partida para as perguntas que a Sociologia coloca sobre o presente. Por que existem as desigualdades que existem entre países e entre grupos de pessoas? Como se constroem e se perpetuam as hierarquias raciais e económicas? O que explica que certas regiões do mundo sejam sistematicamente mais ricas e outras sistematicamente mais pobres? Um aluno que aprende a fazer estas perguntas e a procurar as suas respostas não está a lamentar o que foi. Está a construir a capacidade de compreender e de transformar o que é.

E qual é essa realidade presente que a Sociologia nos pede para ler? É o dia a dia de pessoas concretas. É um jovem angolano que sente que o seu continente é sempre descrito como atrasado, sem nunca perceber de onde vem esse atraso. É uma criança que cresce a ouvir que África é pobre, sem que ninguém lhe explique que parte dessa pobreza foi fabricada — que houve um sistema deliberado de extracção de pessoas, de recursos e de riqueza que durou séculos e cujas consequências ainda estruturam o mundo. É um adulto que vê as desigualdades globais como naturais, inevitáveis, quase divinas, porque nunca lhe foi dada a história que as explica. A escravatura não é apenas um capítulo do passado que a História regista — é a chave sociológica para ler fenómenos que as pessoas sentem todos os dias sem conseguir nomear: a relação entre Angola e os países que a colonizaram, a forma como certos conhecimentos e culturas são tratados como universais e outros como locais, a razão pela qual a diáspora africana nas Américas partilha com Angola muito mais do que a distância geográfica sugere. Quando um aluno aprende esta história, não está a aprender algo distante. Está a aprender a explicar a sociedade que já conhece.

Esta perspectiva torna a data relevante para todas as disciplinas. A Sociologia encontra aqui um caso de estudo fundamental sobre como os sistemas produzem desigualdade estrutural e como essa desigualdade se perpetua ao longo de gerações. A Geografia explica como as rotas do comércio transatlântico redesenharam a distribuição de povos e recursos em todo o mundo, com consequências que ainda hoje se lêem nos mapas económicos. A Língua Portuguesa e a Literatura têm à sua disposição algumas das expressões culturais mais poderosas do mundo lusófono — da poesia angolana ao romance brasileiro, das tradições orais que sobreviveram ao atravessamento do Atlântico. A Filosofia encontra aqui a origem concreta do conceito de dignidade humana que fundamenta os direitos internacionais modernos. Um professor de qualquer uma destas disciplinas tem material pedagógico rico e relevante — e o 25 de Março é uma ocasião para o activar.

 

Para os alunos do ensino primário, o ponto de entrada é simples e humano: muitas pessoas foram levadas de Angola contra a sua vontade, e lembrá-las é uma forma de respeito pela sua dignidade. Para os alunos do Iº Ciclo do Ensino Secundário, o campo alarga-se para a compreensão de que os acontecimentos históricos têm consequências duradouras, e que as diferenças que vemos hoje entre países e entre grupos de pessoas não são naturais nem inevitáveis — têm origem, têm causas, têm uma história que pode ser examinada com as ferramentas que a Sociologia oferece. Para os alunos do IIº Ciclo do Ensino Secundário, a data abre espaço para análises mais complexas: as relações entre escravatura, capitalismo e desenvolvimento desigual, o conceito de memória colectiva, e o que Angola partilha com as diásporas africanas nas Américas que descendem de pessoas que partiram dos seus portos.

O que a escola angolana tem a ganhar com esta integração não é apenas conhecimento histórico. É a capacidade de produzir alunos que sabem usar a História para entender a Sociologia — que compreendem que as sociedades são construídas, que as desigualdades têm explicação, e que a história de um povo não começa nem acaba nas datas que os manuais costumam marcar como início e fim. Preservar esta memória não é um acto de sofrimento colectivo. É um acto de inteligência pedagógica. A consciência crítica não nasce do esquecimento — nasce de quem olha para o passado com rigor, sem paralisia, e pergunta: o que fazemos agora com o que sabemos?

Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?

25 DE MARÇO

Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Comércio Transatlântico de [Pessoas Escravizadas]

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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