Coordenadora de Comunicação e Advocacia no Mosaiko — Instituto para a Cidadania
Aonde se aprende a discriminar? Em casa, quando se elogia e privilegia o bebé por ser mais claro. Na rua, popularizando termos como “pacular“, “cabelo bruto“, “laton“, “escurinho“, “cor de mobília“… Nas escolas, onde não se pode entrar com cabelo crespo solto e se estudam manuais sem histórico de dignidade negra — que observam etnias africanas como primatas e incivilizados.
A discriminação racial faz parte da nossa socialização, educação e afirmação, atravessando todas as camadas e esferas sociais, políticas, económico-financeiras e culturais. Brota de forma aparentemente espontânea, quase “natural“, mas vai além da epiderme: tem raízes profundas na mente, no corpo e no espírito. Gera auto-ódio, uma reacção traumática à internalização do destino branco como o único possível — mesmo para o negro —, tal como Frantz Fanon escreveu: “Para o negro há apenas um destino. E ele é branco.”
Racismo é um sistema criado para diminuir a capacidade, destruir o potencial e arruinar a auto-estima dos negros, tornando-os escravos ou mão-de-obra barata, declarando-os — social, política e legalmente — como pouco mais que animais: incapazes e, por isso, a precisar de ser civilizados, higienizados…
Este mesmo sistema, sustentado por uma vulnerabilidade fabricada, usou tecnologia, fé, ciência e cultura para “denegrir” — com dicionário próprio — os negros e, simultaneamente, ocultou as vulnerabilidades dos brancos, tornando-os salvadores, heróis, sábios, irrepreensíveis e donos tanto da razão como da subjectividade.
Sobre quem criou este sistema e esta estrutura racial fica implícito que, ao discriminar racialmente — e apesar de todo o poder forjado —, continua a ter medo. E sobre quem o “destino” ainda hoje obriga a interiorizar a discriminação racial: já não pode simplesmente fazê-lo sem antes questionar, desconstruir, rejeitar, denunciar e criminalizar.
Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?
21 DE MARÇO
Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial
Verónica Mendes Pereira é jornalista e especialista em comunicação e direitos humanos, radicada em Luanda há mais de 16 anos. Iniciou a carreira no jornalismo em Portugal, tendo passado pela direcção da Revista Estratégia e pela coordenação-adjunta do Expansão — o primeiro semanário de economia de Angola. Foi a primeira e única directora da edição impressa do Novo Jornal e é parceira da NEXT AFRICA. Desde 2018 é Coordenadora de Comunicação e Advocacia no Mosaiko — Instituto para a Cidadania, em Luanda, onde alia a comunicação estratégica à defesa dos direitos humanos e à promoção de uma educação anti-racista, inclusiva e emancipadora em Angola.
A tua análise, Verónica, desvela com rigor e coragem aquilo que muitos ainda preferem chamar de “cultura” — como se a normalização da humilhação pudesse ser herança legítima. Nomear os lugares onde a discriminação racial se instala (a casa, a rua, a escola) é já um acto de resistência. A referência a Frantz Fanon — psiquiatra e pensador martinicano cujo trabalho continua a ser referência fundamental na compreensão do racismo e dos seus efeitos psicológicos sobre o colonizado — ancora o que muitos ainda tentam tratar como sensibilidade excessiva: o auto-ódio não é fraqueza individual, é produto de um sistema. E sistemas constroem-se — e desconstroem-se. Neste 21 de Março, que a data sirva menos para celebrar e mais para interpelar. Obrigada por escrever com esta clareza.