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Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende
Não sou nutricionista. Mas dirijo um centro infantil — e isso significa que tomo decisões sobre o que as crianças comem, com a consciência de que essas decisões têm consequências reais no seu desenvolvimento. É a partir desse lugar, e não de uma especialização que não tenho, que escrevo sobre o Dia Africano de Alimentação Escolar, celebrado a um de março.
A alimentação escolar não é um tema de nutricionistas nem de políticas públicas distantes. É uma questão de sala de aula, de rotina, de presença. Uma criança com fome não aprende — não porque lhe falte vontade, mas porque o cérebro em desenvolvimento não tem condições de se concentrar, reter informação ou regular o comportamento quando as necessidades básicas não estão satisfeitas. Isso não é opinião. É fisiologia. E é também, por isso, pedagogia — porque tudo o que interfere com a capacidade de aprender é, necessariamente, uma questão educativa.
O problema é que em Angola essa ligação — entre alimentação, desenvolvimento e aprendizagem — raramente é tratada com a coerência que exige. Existem escolas sem cantinas, crianças que percorrem distâncias consideráveis antes de chegar à sala de aula, famílias que não têm condições de garantir que os filhos comam antes de sair de casa. E existem, simultaneamente, discursos sobre melhoria dos resultados escolares que ignoram completamente este factor. Como se fosse possível elevar o nível de aprendizagem sem perguntar se as crianças chegaram à escola alimentadas. Como se o prato vazio fosse um problema de saúde e não um problema de educação — quando é, evidentemente, os dois ao mesmo tempo.
Há também uma dimensão que ultrapassa a composição nutricional do prato, e que os contextos educativos que trabalham com crianças pequenas conhecem bem: a forma como a refeição acontece é também formação. Se a criança come com calma ou com pressa, se o momento da refeição é tratado como interrupção do dia ou como parte do dia, se há espaço para experimentar, recusar, aceitar o novo — tudo isso é educação alimentar que nenhum currículo formal ensina explicitamente, mas que acontece todos os dias, em cada refeição, nas instituições que têm essa consciência. Nas que não a têm, a refeição é um problema logístico. Nas que a têm, é uma oportunidade pedagógica.
O Dia Africano de Alimentação Escolar foi criado pela União Africana em 2016 precisamente para tornar esta questão uma prioridade política. O modelo que o sustenta — vincular a alimentação escolar à produção agrícola local — é ao mesmo tempo apoio económico às comunidades e garantia de alimentos frescos e culturalmente pertinentes para os alunos. Angola tem condições para fazer isso. Tem terra, tem produção local, tem ingredientes que fazem parte da cultura alimentar angolana e que deveriam estar presentes nos pratos das crianças angolanas. Que estejam ou não é uma questão de política, de vontade e de organização — e é nesse nível que a data convida os governos a responder.
Mas a responsabilidade não é apenas dos governos. Quem trabalha directamente com crianças — em salas de aula, em centros infantis, em espaços comunitários — tem o dever de saber o suficiente para tomar boas decisões sobre alimentação, e de reconhecer quando precisa de ajuda para as tomar. A ausência de formação especializada não é justificação para a ausência de consciência. É exactamente o tipo de humildade profissional que a educação de qualidade exige: saber o que não se sabe, e agir com cuidado à mesma.
A alimentação escolar é educação. Quem a trata como logística está a perder metade do trabalho. E quem governa sem a levar a sério está a prometer resultados que as crianças — com fome, sentadas nas salas de aula — nunca vão conseguir alcançar.
1 DE MARÇO
Dia Africano de Alimentação Escolar
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.