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O Dia em que a Matemática Deixou de ser um Monstro

Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora

No primeiro dia em que o Adão entrou na minha sala, não olhou para a minha cara. Olhou para a minha pele. Eu vi, e percebi naquele instante que aquilo não era indelicadeza — era alívio. A escola era apresentada ao mundo como um lugar diverso: havia cartazes, havia discursos, havia a linguagem certa nos documentos certos. Mas o Adão era um aluno negro numa escola onde poucos dos seus professores se pareciam com ele, e quando chegou à minha turma — uma turma mista de 6.ª, 7.ª e 8.ª classe, onde eu era responsável por Matemática — o que o fez sentar-se, abrir a mochila e ficar, pelo menos por aquele primeiro dia, foi simplesmente isso: ver alguém como ele do outro lado da sala. Isto tem um nome em pedagogia — representação — e define-se como a presença visível, em posições de autoridade e conhecimento, de pessoas com quem o aluno se identifica. A representação não resolve tudo. Mas abre portas que o talento, sozinho, não consegue abrir, porque antes de um aluno acreditar que é capaz de aprender, precisa de acreditar que pertence àquele espaço — e nada comunica pertença de forma mais imediata do que ver, na frente da sala, alguém que se parece consigo.

 

Tenho um hábito que mantenho desde que comecei a ensinar, e ao qual chamo construção do perfil académico individualizado: reservo as primeiras semanas do ano para conhecer cada aluno por mim mesma, através de observação directa, entrevistas informais e diagnósticos próprios. Leio os históricos, sim — seria irresponsável não o fazer — mas recuso-me a deixar que o olhar de outro professor, formado noutro ano e noutro contexto, substitua o meu. Os históricos dizem-me o que aconteceu; a observação diz-me porquê. O que os registos diziam sobre o Adão era que ele tinha discalculia, que estava no ensino de educação especial e inclusiva, e que odiava Matemática — não apenas que tinha dificuldades, que odiava. Havia uma nota escrita à mão num relatório do ano anterior que dizia qualquer coisa como: o aluno recusa-se frequentemente a participar nas aulas de Matemática. O que os registos não diziam era o porquê. E o porquê, neste trabalho, é quase sempre a parte mais importante.

Aprendi cedo que os alunos que mais perturbam são, quase sempre, os que têm mais medo. A perturbação é o disfarce — é o modo que encontraram de sobreviver numa sala de aula sem que ninguém perceba que estão perdidos. Em pedagogia inclusiva, reconhecemos isto como comportamento de evitamento: uma estratégia desenvolvida, muitas vezes de forma inconsciente, pelo aluno que associa a participação académica à humilhação pública do erro. O aluno não foge da sala de aula — isso seria demasiado evidente. Foge de dentro da sala de aula, criando ruído, movimento, distracção, qualquer coisa que adie o momento em que terá de mostrar o que sabe — ou o que não sabe. O Adão era um praticante consumado desta estratégia. Chegava, sentava-se, e logo começava: contava histórias sobre filmes, e havia sempre uma história nova, sempre um detalhe urgente que precisava de ser partilhado antes de qualquer outra coisa poder acontecer. Os colegas riam, a aula atrasava, e ele, no meio de tudo aquilo, estava a salvo. Se a aula não avançava, não tinha de tentar. Se não tentava, não falhava. E se não falhava, ninguém descobria que ele não sabia. Era uma estratégia imperfeita e desgastante para todos, mas eficaz — e ele tinha anos de prática a aperfeiçoá-la. Demorei algumas semanas a perceber o padrão, e quando o percebi, senti aquela mistura específica de preocupação e respeito que os alunos mais desafiantes nos provocam: preocupação pelo tempo perdido, respeito pela inteligência que estava ali, mal orientada mas inegável.

Quando percebi o que se passava, não lhe pedi para parar de contar histórias. Fiz outra coisa: decidi responder a sério à pergunta mais honesta que ele me fazia, repetidamente, de formas diferentes — para que preciso de saber isto? Quando é que vou usar? Muitos professores levam esta pergunta a mal, como se fosse impertinência ou preguiça. Aprendi a ouvi-la como o que realmente é: um pedido de relevância. E a relevância, em educação, não é um favor que se faz ao aluno — é uma condição de aprendizagem. A esta abordagem chamamos currículo contextualizado: o processo de ancorar os conteúdos académicos em situações, problemas e interesses que o aluno reconhece como seus, de modo a que a resposta à pergunta quando é que vou usar isto? seja não uma promessa vaga sobre o futuro, mas uma demonstração concreta no presente. O currículo da escola já tinha, por definição, uma abordagem multissensorial — isto é, desenhada para envolver simultaneamente diferentes canais de percepção: o visual, o auditivo, o cinestésico, o táctil — o que é particularmente importante para alunos com discalculia, que muitas vezes processam conceitos matemáticos de forma mais eficaz quando esses conceitos têm uma expressão física e não apenas simbólica. Mas dei um passo além e tornei esse currículo relevante para ele especificamente, cruzando a abordagem multissensorial com aquilo a que chamo aprendizagem baseada em projectos de interesse: cada unidade passou a culminar num projecto real, construído a partir dos interesses declarados dos alunos, onde os conceitos da unidade eram não apenas aplicados mas necessários para o projecto funcionar.

A professora Cláudia Cassoma (à direita) e a professora auxiliar na festa de tacos de conclusão de unidade — o momento em que os exponentes ganharam sabor, quantidade e festa. Porque aprender Matemática também pode ser assim.

Quando chegámos à ordem das operações, o projecto final foi a criação e gestão de um cinema. Os alunos venderam bilhetes, venderam petiscos, calcularam receitas, despesas e lucros, e fizeram tudo o que se faz num cinema real — porque era um cinema real, montado dentro da escola — em várias salas de aula. Para perceber quanto dinheiro tinha entrado, quanto tinha saído e quanto sobrava, era preciso conhecer a ordem correcta das operações — não porque eu tinha dito que era importante, mas porque sem isso o cinema não funcionava, as contas não fechavam e o projecto falhava. Não preciso de descrever como o Adão reagiu. Ele escolheu os filmes. Com o dinheiro que o cinema gerou, fizemos uma festa de tacos onde trabalhámos exponentes — calcular ingredientes para quantidades que duplicam e triplicam é, na prática, uma aula de potências sem que ninguém precise de pronunciar a palavra potência antes de a compreender. E assim sucessivamente: cada aula com uma âncora no mundo concreto, cada conceito com um rosto e um contexto que os alunos reconheciam como seu. O sonho do Adão era ser actor, e nunca lhe disse que a Matemática era mais importante do que esse sonho. Disse-lhe que a Matemática ia estar lá dentro do sonho — nas contas do produtor, no orçamento do filme, na percentagem que o agente fica, no número de espectadores que decide se um projecto sobrevive ou não. Ele ficou quieto quando lhe disse isso. Quieto de verdade — não o silêncio de quem não percebeu, mas o de quem está a reorganizar alguma coisa lá dentro.

Não sei exactamente quando aconteceu a mudança, porque estas coisas não têm um dia exacto, não há um momento único em que se possa dizer foi aqui e assinalar no calendário. Mas houve uma manhã, já perto do fim do primeiro trimestre, em que cheguei à sala e o Adão já lá estava. Sentado à porta, mochila no colo, à espera — e não estava a contar histórias, estava à espera da aula. Passou a chegar sempre antes do sino. Às vezes perguntava-me, assim que eu chegava, o que é que íamos fazer naquele dia, e havia na pergunta uma qualidade diferente, uma leveza que reconheci de imediato: não era a ansiedade de quem teme o que vem a seguir, era a curiosidade de quem quer mesmo saber. Há uma diferença enorme entre as duas, e qualquer professor que tenha visto as duas sabe que não se confundem. O comportamento de evitamento tinha desaparecido — não porque lhe tivesse pedido para parar, mas porque ele já não precisava dele. Quando a sala de aula deixa de ser um lugar de risco, o disfarce torna-se desnecessário.

O Adão tem discalculia — isso não mudou, e nunca vai mudar. A discalculia é uma dificuldade específica de aprendizagem que afecta a capacidade de processar conceitos numéricos, e não tem cura nem prazo de validade: é uma característica neurológica permanente, não uma fase. O que a educação inclusiva nos ensina é que uma característica permanente não é uma sentença — é um ponto de partida que exige respostas pedagógicas adequadas. Há processos que lhe custam mais, há conceitos que exigem mais tempo, mais repetição, mais caminhos alternativos. A sala de aula inclusiva não é a sala onde toda a gente aprende ao mesmo ritmo; é a sala onde cada um encontra o seu caminho sem ter de pedir desculpa por ele. O que mudou foi outra coisa, mais profunda do que qualquer estratégia: ele passou a acreditar que era capaz. Não de tudo, não da mesma forma que todos, mas capaz — e essa crença, uma vez instalada com cuidado e com evidências reais, é extraordinariamente difícil de apagar. Já não sonhava apenas com ser actor. Sonhava com mais certeza, com mais chão debaixo dos pés, como alguém que percebeu que o sonho e a Matemática não estavam em lados opostos de uma batalha que estava destinado a perder.

Ainda penso nele quando entro numa sala de aula nova e vejo aquele aluno — e há sempre aquele aluno — que chega tarde, se senta no fundo, faz de conta que não está, e conta histórias para toda a gente menos para si próprio. Penso no Adão e lembro-me de que o problema, quase nunca, é a Matemática. O problema é a distância entre aquilo que o aluno é e aquilo que a escola lhe pede para ser — e quando essa distância diminui, quando aplicamos representação, quando construímos perfis académicos reais em vez de herdarmos rótulos, quando reconhecemos o comportamento de evitamento pelo que é e não pelo que parece, quando tornamos o currículo multissensorial e ancorado nos interesses de quem está à nossa frente, a Matemática deixa de ser o monstro que todos aprendemos a temer e passa a ser, simplesmente, mais uma coisa que se aprende. Como tudo o resto. E o aluno que chegava sempre depois do sino passa a ser o que espera à porta antes de ele tocar.

Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?

14 DE MARÇO DE 2026

Dia Internacional da Matemática

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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Domingos A. M. Pedro
Domingos A. M. Pedro
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28 de Março, 2026 12:05

Uma reflexão necessária.
Hoje, sobretudo em contextos diversos, a noção de “representação” pode assumir múltiplas formas. Um aspecto que aprendi é que podemos manifestá-la principalmente em nossos métodos de ensino e na forma como nos expressamos, pois, como defende Bourdieu, até a linguagem que utilizamos enquanto professores de Matemática, História ou outras disciplinas pode se traduzir em uma violência simbólica. Então, os vários “Adãos” das nossas escolas angolanas sentem-se excluídos por falta dessa representatividade. Onde o “eurocentrismo” tem sido visível na forma como se concebe e materializa o currículo.

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