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O Meu Lugar é Aqui — eme ngui muhatu wa kulonga — uma Declaração de Quem Insiste em Ficar
Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende
Era uma noite de semana, sem hora certa, numa das muitas em que a casa estava quieta e eu ainda estava acordada. Tinha documentos abertos no ecrã, um recurso pedagógico a meio, notas espalhadas, o cansaço acumulado de dias que não cabem em dias. Naquele silêncio particular das madrugadas — o tipo de silêncio que não é paz, é só ausência de barulho — passou-me pela cabeça uma pergunta que já conheço bem, porque volta de tempos a tempos com a mesma seriedade: e se eu simplesmente parasse?
Não é uma pergunta de fraqueza. É uma pergunta honesta, que toda a pessoa que investe profundamente em qualquer coisa se faz pelo menos uma vez. Eu já a fiz mais do que isso. Fiz-a naquela madrugada. Fiz-a noutras antes. E cada vez que a faço, paro genuinamente para a ouvir, porque não merece ser varrida para baixo do tapete com entusiasmo forçado. Merece ser recebida com seriedade, olhada de frente, levada a sério. Porque as razões que a alimentam são reais.
Construí projectos educativos investindo o que tinha disponível — porque aprendi desde cedo que o financiamento externo para iniciativas educativas sem ancoragem institucional reconhecida é escasso, e quem espera que os fundos apareçam antes de começar raramente começa. Passei noites em claro a produzir recursos pedagógicos. E escrevi — como sempre escrevi — livros, textos editoriais, artigos académicos e científicos, porque a escrita é a base sobre a qual existo, a minha forma de falar com o mundo e, neste caso, de me certificar de que quem já faz pela educação encontra apoio, quem quer fazer encontra impulso, e quem está a um passo de desistir encontra, numa página, razão para não o fazer.
E por vezes, quando olho para o sector da educação que tanto me move, vejo coisas que me enchem de uma raiva que não passa facilmente. Vi, desde criança, professores a cobrar por notas. Vi a desvalorização do mérito ser normalizada, o conhecimento ser tratado como moeda de troca, o futuro de gerações inteiras ser comprometido com uma naturalidade que me deixava sem palavras e com a sensação de que havia qualquer coisa profundamente errada numa sociedade capaz de aceitar isso. Cresci dentro desse sistema. Vi o que ele faz às crianças. Vi o que faz aos professores que tentam ser diferentes e não encontram estrutura que os sustente.
Hoje, anos depois, faço parte de grupos digitais de profissionais da educação angolanos. E o que encontro lá ainda me abala. Professores que não se empenham no próprio desenvolvimento. Pessoas que se expressam com descuido numa profissão que exige precisão de linguagem. Conversas que derivam para piadas sobre situações que não são nem devem ser matéria de piada — incluindo professores que se relacionam com alunas, como se isso fosse assunto para risada e não para repúdio claro e inequívoco. Há algo de desolador em constatar que parte de quem deveria sustentar a educação trata a profissão com a mesma leveza com que trata um passatempo. E há algo igualmente desolador em saber que esse comportamento tem raízes num sistema que nunca exigiu mais, que nunca investiu o suficiente, que nunca criou condições para que a profissão docente fosse vivida com o rigor e a dignidade que merece.
Perante tudo isso, naquela madrugada como em tantas outras, a pergunta voltou com peso: e se eu simplesmente parasse?
Mas então acontece sempre a mesma coisa. Deixo ficar em mim a voz que me mantém. Ouço-a com atenção. E ela diz para ficar.
Não sei explicar de onde vem essa voz com toda a precisão que o assunto merece. Sei que está lá desde muito antes de eu ter palavras para ela. Tinha nove anos quando dei as primeiras aulas — não numa sala, mas num quintal, com uma janela enferrujada a fazer de quadro e um mata-barata a fazer de giz. Os meus alunos eram os primos e as primas, que chegavam às férias sem saber que eu já tinha o programa preparado. Ninguém me pediu que fizesse aquilo. Eu é que não conseguia não fazer. Não era ambição nem plano — era uma necessidade tão anterior à consciência que só anos mais tarde comecei a perceber o que significava ter sentido assim desde o início.
Depois vieram os anos, os países, as formações, as experiências que me moldaram de formas que ainda estou a compreender. O meu primeiro trabalho oficial como professora foi na Escola Bíblica Dominical — uma experiência que até hoje marca o meu testemunho e que confirmou, domingo após domingo, que ensinar era para mim a coisa mais natural do mundo. Depois vieram as formações formais, os diplomas, mais de quarenta certificações. Passei de Angola para os Estados Unidos, de salas sem material para escolas com recursos que antes só conhecia de imagens, de aluna para formadora, de professora para directora de escola. Criei o meu próprio método de ensino. Desenvolvi um Modelo Integrado de Educação Preventiva para a Protecção da Criança — uma abordagem que entende a protecção como resultado de práticas educativas conscientes, realizadas de forma articulada entre escola, família, alunos e comunidade — porque havia uma lacuna que precisava de ser preenchida e eu tinha o que era necessário para a preencher. Fundei uma organização que existe porque decidi que tinha de existir. Trabalhei em contextos que nunca imaginei, com colegas de origens que me alargaram, com alunos que me ensinaram tanto quanto eu lhes ensinei. Fui convidada a falar de educação na Bélgica. Partilhei o que sei em Angola e nos Estados Unidos. Construí tudo isso passo a passo, sem atalhos.
Por vezes penso em desistir e aventurar-me noutras paragens — em fazer outra coisa, em parar de fervilhar por um sector que tantas vezes parece não querer ser fervilhado. A possibilidade existe. Conheço-a bem. E é precisamente por a conhecer que a escolha de continuar tem o peso que tem — porque não é inevitabilidade, é decisão.
Porque a vontade de fortalecer a educação, de enaltecer os educadores, de transformar o futuro não é algo que adquiri. É algo que sou. É inerente, maior do que eu, mais antiga do que a Angola Aprende, mais antiga até do que as palavras que uso para a descrever. Estava na janela enferrujada. Está na madrugada com documentos abertos no ecrã. Estará amanhã, quando o dia recomeçar.
Insistência não é a mesma coisa que resignação. Resignar-se é aceitar o que não pode ser mudado e parar de tentar. Insistir é escolher, todos os dias, trabalhar para mudar o que ainda pode ser mudado — mesmo quando ninguém está a ver, mesmo quando o reconhecimento não chega, mesmo quando a pergunta difícil volta de madrugada e pede resposta. São gestos opostos, embora possam parecer o mesmo quando vistos de fora.
O Dia da Mulher Angolana, que se celebra a dois de março, é uma data que me encontra sempre a fazer alguma coisa — a escrever, a planificar, a preparar uma formação, a responder a uma mensagem que não podia esperar. É o que a minha vida tem sido: trabalho contínuo, interrompido pela dúvida, retomado pela convicção, sustentado por uma missão que já não consigo separar de mim mesma.
Naquela madrugada, fechei os documentos por fim. Fui dormir. De manhã, voltei ao trabalho.
O meu lugar é aqui.
A campanha Ahetu mu Kulonga nasceu daqui também. De saber que existem mulheres angolanas ligadas à educação que insistem em ficar — em salas de aula com poucos recursos, em escolas com liderança instável, em sistemas que mudam antes de se consolidarem — e que essa insistência carrega conhecimento que raramente é registado ou levado a sério. Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação — não é apenas uma frase. É a declaração de quem escolheu ficar quando havia razões para partir. De quem continua porque a voz que mantém é mais forte do que o cansaço. Se também é a tua declaração, a campanha está à tua espera.
2 DE MARÇO
Dia da Mulher Angolana
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.
Simplismente, incrível. ❤️👏