Adelaide Dibaia
Ser Professora é uma Identidade: Educação Física, Gestão Financeira e Psicologia ao Serviço de uma Só Missão
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Adelaide Dibaia, estudante do 3.º ano de Psicologia no Instituto Superior Politécnico Deolinda Rodrigues, formada em Educação Física pelo INPEF e actualmente a actuar também como gestora financeira. O seu percurso atravessa três universos aparentemente distintos — a docência, a gestão e a psicologia — unidos por uma convicção que não abandona: ser professora não é uma função, é uma identidade.
Nesta entrevista, Adelaide fala sobre a aula que nunca esqueceu — na altura, com 19 anos, tinha alunos mais velhos do que ela, um tanto desafiantes — e ensinava Educação Física. Fala também sobre o que a psicologia lhe ensinou a ver nas salas de aula que antes não via, e sobre a convicção de que a educação de Angola precisa, acima de tudo, de boa gestão e de um currículo renovado.
A sua trajectória profissional atravessa diferentes áreas — da docência à gestão financeira, passando pela formação em Psicologia. Como se construiu esse percurso e que motivações estiveram por trás dessas transições?
Adelaide Dibaia: Uma trajectória que me faz crescer a cada dia profissionalmente. Desde muito cedo sempre amei trabalhar com as pessoas e organizar um ambiente saudável para elas. A maior motivação da minha vida para a realização de qualquer projecto é Deus — ele é a base de tudo. Este percurso como docente, gestora financeira e agora estudante de Psicologia é tão desafiante — e só é possível construí-lo quando se tem determinação, foco e firmeza. Unificar estes pilares na minha vida é uma trajectória de coragem e amor próprio.
Durante o período em que actuou como professora, que experiências considera mais marcantes — e que aprendizagens levou consigo dessa fase?
Adelaide Dibaia: O lado prazeroso de ser professora é que se aprende todos os dias — no sentido mais amplo da palavra. O professor aprende o que ensina, aprende a conhecer os alunos do interior ao exterior. Posso dizer que, mesmo não estando numa sala de aula, nunca deixei de ser professora — porque ser professora é já uma identidade minha.
A experiência mais marcante foi dar aula pela primeira vez a alunos da 9.ª classe no Piamarta. Na altura tinha 19 anos e os alunos eram mais velhos, todos rebeldes, numa disciplina totalmente difícil — Educação Física. Foi um desafio que, quando lembro, me faz rir. E foi mesmo no Piamarta que aprendi que as pessoas mudam — e que nada acontece por acaso.
Mesmo tendo transitado para outras áreas, em que medida a experiência como professora continua presente na forma como pensa, comunica e se posiciona profissionalmente?
Adelaide Dibaia: Como já disse, ser professora é uma identidade minha — sou professora por vocação e por profissão. Sou professora em tudo que faço. Como professora, aprendi que as pessoas são diferentes e aprendem de formas diferentes. O professor deve ter a capacidade de avaliar para saber que método usar com cada aluno, conhecer a realidade de quem o rodeia e criar um ambiente saudável.
Levo isso em todas as áreas da minha vida. Antes de criticar, preciso de conhecer e saber em que contexto estou — porque por vezes são as perspectivas em que nos encontramos que nos fazem ter uma leitura diferente do assunto ou do problema que estamos a tratar.
Enquanto estudante de Psicologia, como interpreta hoje situações vividas em sala de aula que, na altura, talvez não compreendesse totalmente?
Adelaide Dibaia: A Psicologia é um espaço de compreensão — e é uma parte de mim que muito amo. Hoje interpreto as situações vividas na sala de aula como encontros de pessoas com feridas emocionais e crenças. Uma sala de aula é um conjunto de indivíduos que vêm de famílias diferentes, com hábitos, costumes e traumas distintos — e que devem aprender a conviver e a respeitar-se. Esse mesmo indivíduo tem um orientador que também tem os seus traumas e que, com base neles, criou as suas próprias crenças.
Hoje, quando entro numa sala de aula, é esta interpretação que faço. Compreender que somos diferentes é uma condição essencial para criar um ambiente saudável — saber que se eu penso B, o meu colega pode pensar A, e isso é normal. Devemos respeitar essas diferenças e entender que nem todo o ambiente é para toda a gente.
Actualmente, como gestora financeira, tem uma visão diferente sobre a gestão de recursos. Qual é, na sua perspectiva, o papel da gestão financeira na qualidade da educação e no funcionamento das instituições?
Adelaide Dibaia: A gestão financeira é hoje a base para o desenvolvimento de qualquer instituição — porque sem dinheiro não é possível adquirir materiais. Para a educação, tem um papel fundamental na qualidade do ensino: um ambiente em bom estado favorece a aprendizagem dos alunos e a qualidade do ensino dos professores. Precisamos de melhorar as nossas escolas — as casas de banho, as carteiras, os quadros, a pintura. Sem gestão financeira eficaz, nada disso é possível. Ela serve de coordenação para todas as áreas e garante o funcionamento delas.
Tendo passado por funções pedagógicas e administrativas, como analisa hoje os principais desafios do sistema educativo a partir dessa visão mais ampla?
Adelaide Dibaia: Tenho uma frase que sempre digo: “A educação é a chave para a evolução de uma sociedade.” Quando a educação de um país entra em falência, a sociedade não evolui.
Os principais desafios que identifico em Angola são dois: a necessidade de boa gestão e a mudança do sistema curricular. A gestão escolar vela pela estrutura e garante o bom funcionamento das instituições. O sistema curricular garante que o professor cumpra os objectivos da educação e que os alunos aprendam. O nosso sistema curricular precisa de uma avaliação profunda, desde a base até ao primeiro ciclo.
A nossa educação não precisa, por agora, de novas instituições nem de mais professores — precisa de moldar o que existe com uma boa gestão, rever o currículo e capacitar os professores.
Ao longo do teu percurso, que sabedoria prática acumulaste sobre como manter qualidade e continuidade no trabalho quando tudo à volta parece mudar constantemente?
Adelaide Dibaia: Existe uma única palavra para responder a esta pergunta: resiliência. Ser resiliente todos os dias. Uma pessoa resiliente não desiste — está sempre firme, acreditando que as coisas vão mudar. É a definição que carrego comigo: a pessoa resiliente nunca desiste.
Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?
Adelaide Dibaia: Não gostaria que compreendessem a minha vida — gostaria que entendessem a importância da educação em Angola e que apresentassem soluções para mudar o paradigma educacional. Aproveitaria a oportunidade para apresentar projectos educacionais e a realidade da necessidade de mudança no sistema curricular. Porque os estudantes de hoje serão os futuros educadores de amanhã — e se não melhorarmos a educação agora, será difícil termos professores brilhantes no futuro.
Enquanto líder, sentes que a tua experiência e o conhecimento que tens da realidade pesam nas decisões que se tomam a níveis superiores? O que te faz sentir assim?
Adelaide Dibaia: A resiliência que tenho é a resposta a esta pergunta. Continuo a acreditar que a experiência do terreno tem valor e que, com determinação, é possível fazer com que essa voz seja ouvida.
Ao longo do seu percurso, houve alguma mulher ou referência que tenha influenciado a sua forma de pensar a educação, a liderança ou o desenvolvimento pessoal?
Adelaide Dibaia: Sou cristã e cresci a ler a Bíblia — a minha maior referência é a história de Rute, uma mulher resiliente. Na sociedade de hoje, a mulher que é uma referência e inspiração para mim é a apresentadora Zuleica Wilson — admiro muito a sua capacidade intelectual e a forma como é e está. Desde 2014 que a acompanho e ela tem-me inspirado bastante.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Adelaide Dibaia: Esta frase é muito forte e também muito cultural. Desperta em mim um sentido de responsabilidade e dever. Em palavras simples, diria que a mulher é a educação. A mulher já nasce educadora — Deus fez-nos assim. Por isso é que a mulher, mesmo pequena, já consegue tomar conta de casa quando os pais a deixam com os irmãos. Esta afirmação desperta em mim a responsabilidade que tenho de contribuir para uma educação de qualidade para todos.
Imagina que uma jovem mulher está a construir o seu percurso entre diferentes áreas, com interesse pela educação mas também aberta a novas oportunidades. Que orientação lhe darias?
Adelaide Dibaia: A minha orientação seria: saber ser, saber estar e saber fazer. O mundo é exigente — por isso é importante termos domínio daquilo que estamos a fazer. Não basta falar: é importante ser, saber estar e saber fazer. Em tudo que estiver ao vosso alcance, fazei — mas fazei com amor, determinação e resiliência. E acima de tudo: que tenham Deus como pilar da vossa vida. Nada acontece por acaso — tudo tem um propósito. Entregai sempre os vossos caminhos a Deus.
Também acreditas na força da educação? Clica no botão e descobre como participar na campanha e levar esta transformação mais longe.
A Adelaide atravessa três áreas — docência, gestão financeira e psicologia — e em nenhuma delas se perdeu. O que me ficou desta entrevista foi a forma como ela descreve a sala de aula depois de começar a estudar psicologia: passou a ver feridas emocionais onde antes via comportamentos, passou a ver crenças onde antes via resistência. Essa mudança de lente não é pequena — é o que separa quem gere uma turma de quem realmente a compreende. Mas o que me surpreendeu foi o diagnóstico que faz ao sistema: Angola não precisa de mais escolas nem de mais professores — precisa de boa gestão e de um currículo revisto. É uma posição clara, fundamentada em experiência real de dentro e de fora da sala de aula. E é exactamente o tipo de voz que devia estar sentada à mesa onde se tomam decisões.