MOANY PANDA MACUNDI
Catalisadora de Mudanças: uma Jovem que une Oratória, Educação e a Convicção de que Ensinar é Transformar Vidas
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Moany Panda Macundi, estudante do 4.º ano de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa na Escola Superior Pedagógica do Bengo. Com 23 anos, o seu percurso já combina a sala de aula com o microfone — é professora em formação, mestre de cerimónias, formadora de oratória e pastelaria e secretária-geral do projecto Juventude Consciente. Para Moany, educar e comunicar são duas formas do mesmo gesto: fazer com que as pessoas se sintam incluídas, inspiradas e capazes.
Nesta entrevista, Monay fala sobre o momento em que percebeu que o seu trabalho era uma missão, sobre a distância entre o que se aprende e o que se encontra nas escolas angolanas — e sobre a convicção de que ser uma catalisadora de mudanças começa por acreditar em cada pessoa que tem à frente.
És professora em formação e mestre de cerimónias, construindo uma trajectória sólida na educação e na comunicação. Em que momento percebeste que o teu percurso deixaria de ser apenas profissional para se tornar uma missão educativa?
Moany Macundi: Para mim foi um processo gradual — mas se tivesse de apontar um momento específico, diria que foi quando percebi que a educação não é só sobre transmitir conhecimento, mas sobre transformar vidas.
A trabalhar como professora, via os meus alunos a crescer, a superar desafios e a acreditar em si mesmos. E como mestre de cerimónias, sentia a energia das pessoas a mudar quando conseguia fazer com que se sentissem incluídas e inspiradas. Foi aí que entendi: não estava só a fazer um trabalho — estava a fazer diferença.
O que despertou em ti o interesse pela educação — e de que forma essa escolha continua a influenciar quem és hoje?
Moany Macundi: A educação sempre foi uma coisa natural para mim. Cresci a ver a diferença que um bom professor fazia na vida das pessoas — e acho que isso me inspirou a querer ser parte do processo docente-educativo. O que me fisgou mesmo foi a capacidade de ajudar as pessoas a descobrir o seu potencial, de ser uma espécie de catalisadora de mudanças positivas. Hoje isso influencia tudo — desde a forma como me aproximo das pessoas até como planeio as minhas acções. Trata-se de criar oportunidades, inspirar e, acima de tudo, aprender constantemente.
Ao longo do seu percurso académico, houve experiências ou desafios específicos que a ajudaram a compreender melhor o tipo de professora que deseja ser?
Moany Macundi: Durante o meu percurso académico, várias experiências contribuíram para moldar a minha visão sobre o tipo de professora que desejo ser. Os momentos mais marcantes foram as aulas interactivas e participativas que incentivam o pensamento crítico, o contacto com professores que conseguem adaptar o ensino às necessidades individuais dos alunos e a descoberta de como as tecnologias educacionais podem tornar as aulas mais dinâmicas. Cada uma dessas experiências foi construindo, aos poucos, a visão pedagógica que quero levar para a sala de aula.
Há momentos em que percebes uma distância entre o que aprendes sobre educação e o que realmente acontece nas escolas angolanas? Podes partilhar um exemplo?
Moany Macundi: Sim, isso acontece com alguma frequência. Aprendemos sobre métodos de ensino inovadores e inclusivos — mas na prática, as escolas enfrentam falta de recursos, salas superlotadas e necessidades básicas por satisfazer. É como se a teoria e a prática vivessem em mundos diferentes. Essa distância tornou-se ainda mais concreta quando cheguei a uma escola e vi a falta de acessibilidade para alunos com deficiência — percebi que ainda há muito por fazer. Foi esse momento que me fez querer trabalhar em soluções práticas e adaptáveis à realidade local.
Quando pensas em trabalhar um dia numa escola angolana, o que mais te entusiasma — e o que mais te preocupa?
Moany Macundi: O que me entusiasma é a oportunidade de fazer a diferença na educação dos jovens angolanos e de contribuir para um futuro mais sólido para o país. Acredito que a educação é a chave para o desenvolvimento — e poder ser parte disso é extraordinário.
O que me preocupa é o desafio de trabalhar com recursos limitados e a necessidade de adaptar métodos às necessidades específicas dos alunos angolanos. Mas é também um desafio que me motiva a procurar soluções criativas e inovadoras.
Sentes que a tua formação actual te está a preparar para trabalhar num sistema educativo onde as políticas e lideranças mudam constantemente?
Moany Macundi: Acho que a minha formação me deu uma boa base — mas o sistema educativo é dinâmico, as políticas e lideranças mudam, e é preciso adaptar-se. O que me ajuda é a flexibilidade e a capacidade de aprender constantemente. Entender o contexto e as necessidades dos alunos é fundamental, independentemente das mudanças.
Para ser honesta: é um desafio. E acredito que a formação contínua e a construção de redes de apoio são essenciais para estar preparada para esse caminho.
Se pudesses influenciar a forma como se formam professores em Angola, o que farias diferente?
Moany Macundi: Focaria em tornar a formação de professores mais prática e contextualizada à realidade angolana. Isso incluiria mais estágios e experiências de campo desde o início da formação, maior ênfase em competências como resolução de problemas e adaptabilidade, mais espaço para a cultura e a história de Angola nos currículos, e a promoção da investigação-acção nas escolas — para que os professores sejam também investigadores da sua própria prática. E, claro, investimento em formação contínua e apoio aos professores em exercício.
Como jovem mulher que constrói a sua trajectória docente, que desafios encontrou — e que caminhos recomendaria a outras mulheres que desejam seguir a docência?
Moany Macundi: É um desafio ser uma jovem mulher na educação. Encontrei dificuldades como a falta de representatividade, a pressão para provar a minha competência, os desafios na gestão da sala de aula e a conciliação da vida pessoal e profissional. Para outras mulheres que desejam seguir este caminho, diria: que sejam confiantes e autênticas, que procurem mentoras e apoio, que aprendam a gerir o tempo e a estabelecer prioridades, que não tenham medo de pedir ajuda — e que, acima de tudo, acreditem em si mesmas.
Ao longo do seu percurso, houve alguma mulher — educadora, líder ou referência — que tenha marcado a sua forma de pensar sobre ensino, comunicação ou liderança?
Moany Macundi: Sim — houve uma professora do ensino médio que me marcou profundamente. Era uma mulher cheia de energia e paixão pelo ensino, com uma forma de comunicar simplesmente contagiante. Conseguia explicar conceitos complexos de maneira simples e envolvente.
O que mais me inspirou foi a forma como valorizava cada aluno, independentemente das dificuldades. Acreditava em nós — e fazia-nos acreditar em nós mesmos. Isso ensinou-me a importância de criar um ambiente de aprendizagem acolhedor e inclusivo. É o exemplo de como a educação pode transformar vidas — e inspirou-me a querer ser uma professora como ela.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que ressoa em ti quando dizes esta afirmação?
Moany Macundi: É uma afirmação poderosa. Quando digo “Eme ngui muhatu wa Kulonga”, sinto uma ligação forte de identidade e propósito. Ressoa em mim a força e a resiliência das mulheres angolanas na educação — é um lembrete de que somos agentes de mudança e que o nosso trabalho tem impacto na vida das pessoas. Sinto também orgulho e responsabilidade — como se fosse um chamado para continuar a trabalhar com paixão e dedicação.
Que mensagem deixaria a outras jovens mulheres que estão a considerar seguir um caminho na educação?
Moany Macundi: Deixaria a mensagem de que são capazes e poderosas. A educação é um campo extraordinário, cheio de oportunidades para fazer a diferença na vida das pessoas. Não tenham medo de seguir os vossos sonhos — acreditem em si mesmas e no impacto que podem ter.
E lembrem-se: a educação é um caminho de crescimento constante, tanto para vós quanto para os vossos alunos. Não estejam sozinhas — procurem apoio, mentoria e façam parte de uma comunidade de mulheres fortes na educação. Vocês podem.
Também acreditas na força da educação? Clica no botão e descobre como participar na campanha e levar esta transformação mais longe.
A Moany ainda está em formação — e já sabe exactamente o que quer ser. Não como ideia abstracta, mas como posição construída por dentro: uma catalisadora de mudanças que acredita em cada pessoa que tem à frente. O que me ficou desta entrevista foi a lucidez com que ela descreve a distância entre o que se aprende e o que se encontra nas escolas angolanas — sem cinismo, sem desistência. Com a clareza de quem ainda não entrou no sistema e por isso ainda consegue ver com nitidez o que quem já está dentro às vezes deixa de notar.
Essa frescura de olhar é um recurso. Escrevi em O Custo Invisível de Ensinar por Amor que o que nunca faltou foi amor — o que falta é tudo o resto. A Moany tem o amor. Espero que o sistema lhe dê o resto. E que não gaste a sua clareza antes de a aproveitar.