JUREMA FRANCISCO DA CUNHA
Comece, não Importam as Circunstâncias — Comece: o Clube de Leitura que Nasceu das Cinzas e está a Mudar Malanje
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Jurema Francisco da Cunha, professora, activista educacional e fundadora do Clube de Leituras de Malanje. Formada na Escola de Formação de Professores e estudante de Engenharia Agrária, começou a dar aulas em 2022 como professora auxiliar — e desde então não parou. O Clube de Leituras nasceu no quintal da sua casa, das cinzas de uma biblioteca comunitária que fechou — e já está a transformar a relação das crianças e adultos de Malanje com a leitura.
Nesta entrevista, Jurema fala sobre o que a fez recomeçar depois de fechar, sobre a aluna de cinco anos cujo processo de aprendizagem a surpreendeu, sobre o que os decisores precisam de compreender sobre as comunidades que acompanha — e sobre o conselho mais simples e mais poderoso que tem para dar: comece.
A sua trajectória integra duas dimensões importantes: a de professora e a de fundadora de um projecto educativo comunitário. Como nasceu concretamente o Clube de Leitura — e qual foi o momento em que disseste “vou fazer isto”?
Jurema Cunha: O clube não nasceu do nada. Eu e um amigo, Osvaldo Quitutu, tínhamos uma biblioteca comunitária — a Ler Ritondo. Por algumas incongruências, vimo-nos obrigados a fechar. Passou um ano — e senti a necessidade de renascer o projecto. Faltava espaço, mas ao longo do tempo fui estruturando o plano de como o clube iria funcionar: os métodos, as técnicas, as programações. Foi então que no dia 31 de Janeiro de 2026 decidi dar vida ao projecto — tirar a ideia do papel e materializá-la. Pedi ajuda ao meu amigo José da Silva e juntos abrimos o clube.
Num contexto em que ainda existem poucas iniciativas femininas com visibilidade no campo educativo e comunitário, quais foram os principais desafios que enfrentou na construção e consolidação do seu projecto?
Jurema Cunha: Os maiores desafios foram financeiros — o projecto precisa de ser sustentado no que diz respeito à compra de materiais didácticos e não só. Este foi o principal obstáculo desde o início.
Há alguma mudança de orientação que chegou ao teu trabalho e que te obrigou a repensar completamente a forma como fazias as coisas?
Jurema Cunha: Não tanto. Diria simplesmente que cada dia é um dia — e que o professor deve ser dinâmico. Surgem sempre novas ideias para melhorar o trabalho, e é isso que me move.
O Clube de Leituras atende diferentes faixas etárias. Como adapta as suas práticas pedagógicas para responder às necessidades específicas de crianças e adultos no mesmo espaço de aprendizagem?
Jurema Cunha: Adapto separando os espaços. Felizmente o quintal da minha casa é muito espaçoso — divido entre sala dos adultos e sala das crianças. Como somos dois professores, facilita e não interfere em nada.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Jurema Cunha: O melhor momento é quando estou com as crianças. Elas fazem-me rir muito, deixam-me alegre e confortável — e é nesse momento que sinto, com mais clareza, que o trabalho que faço tem sentido.
Há um momento específico com uma criança — uma conquista, uma dificuldade, uma surpresa — que nunca mais esqueceste? Conta-nos essa história.
Jurema Cunha: Sim. Uma das alunas, de cinco anos de idade, começou a ler em tão pouco tempo — o seu processo de aprendizagem é muito acelerado. E a surpresa maior foi quando a minha sobrinha de oito anos começou a reproduzir tudo o que eu lhe ensinei em pouco tempo. São momentos que mostram que o trabalho vale a pena.
Que impacto acredita que o Clube de Leituras tem na comunidade de Malanje — e de que forma este tipo de iniciativa pode contribuir para transformar a realidade educativa local?
Jurema Cunha: O impacto é positivo. O clube contribui para reduzir o índice de analfabetismo, motiva e ensina os jovens a cultivarem o hábito de leitura — que é uma coisa rara nos dias de hoje. Já está a contribuir para transformar a realidade educativa de Malanje e a desfazer o tabu de que somos preguiçosos a nível académico.
Se estivesse numa mesa onde se tomam decisões sobre a educação em Angola, enquanto professora e fundadora do Clube de Leituras em Malanje, o que gostaria que os decisores compreendessem sobre a realidade concreta dos alunos e das comunidades que acompanha?
Jurema Cunha: Para melhorar o acesso e a qualidade do ensino, há necessidade de melhorar os nossos subsistemas de ensino — é aí onde existem diversas lacunas que precisam de ser preenchidas. Diria também que muitos alunos só precisam de apoio e de que alguém acredite neles. Não há quem não aceite a correcção quando é dada com cuidado.
Ao longo da sua trajectória, que figuras ou referências — em especial femininas — têm inspirado a sua forma de ensinar, liderar e intervir na comunidade?
Jurema Cunha: Já tive muitas experiências e poucas referências formais. Mas se for falar de uma inspiração como líder comunitária, falaria da moçambicana Paulina Chiziane — a quem nutro admiração e respeito pela sua coragem, dedicação e por se ter afirmado como mulher forte num mundo em que o machismo sempre predominou. Nas minhas práticas pedagógicas, essa inspiração traduz-se no desejo de ser uma pedagoga melhor dia após dia.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Jurema Cunha: Esta afirmação desperta em mim a consciência de que nós, mulheres, somos uma peça fundamental para a mudança e transformação das sociedades. Como dizia um escritor moçambicano: “Se quer mudar a sociedade, eduque primeiro as mulheres.”
Imagina que uma jovem mulher, em início de carreira na educação, manifesta o desejo de criar um projecto com impacto na sua comunidade, mas sente-se desafiada pelas exigências e pela incerteza. Que orientação lhe darias?
Jurema Cunha: Diria-lhe: “Comece. Não importam as circunstâncias — comece.”
Também acreditas na força da educação? Clica no botão e descobre como participar na campanha e levar esta transformação mais longe.
A Jurema fechou uma biblioteca comunitária — e um ano depois abriu um clube de leitura no quintal da sua casa. Não esperou por melhores condições. Não esperou por financiamento. Estruturou o plano, pediu ajuda a quem confiava, e começou. Essa sequência diz mais sobre liderança comunitária do que muitos discursos sobre o tema. O que me ficou desta entrevista, Jurema, foi a clareza com que mostras que o problema não é a falta de vontade nas comunidades — é a falta de apoio a quem já está a agir. O conselho que deixas no final — “Comece. Não importam as circunstâncias — comece” — é o mais simples e o mais difícil ao mesmo tempo. E tu já o provaste com o teu próprio percurso.