Antónia Tiago Gonçalves
Cada Aluno é Único e com Realidades Diferentes: uma Jovem Docente sobre o que os Decisores Precisam de Compreender
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Antónia Tiago Gonçalves, docente do ensino primário numa instituição comunitária de ensino em Luanda, com menos de dois anos de experiência. O seu percurso está ainda no início — mas já é marcado pela descoberta de que ensinar é muito mais do que transmitir conteúdos, e de que cada aluno que finalmente compreende algo é razão suficiente para continuar.
Nesta entrevista, Antónia fala sobre o que os primeiros meses de sala de aula lhe ensinaram, sobre os desafios de lidar com ritmos de aprendizagem diferentes, e sobre a convicção de que professores novatos precisam de apoio, formação contínua e recursos — para que possam ensinar da melhor forma possível.
A escolha pela docência muitas vezes começa antes da prática, mas ganha novos significados quando se entra em sala de aula. O que a motivou a seguir a carreira docente — e como tem sido esse primeiro contacto com a realidade do ensino?
Antónia Tiago Gonçalves: Escolhi a docência por gostar da educação e, principalmente, de ensinar. Sempre tive vontade de ajudar as pessoas a aprender. O primeiro contacto com a sala de aula tem sido desafiante, mas também muito bom. Estou a aprender muito — sobretudo a lidar com diferentes alunos. Apesar das dificuldades, tem sido uma experiência que me motiva cada vez mais.
Nos seus primeiros meses de actuação, quais as experiências que mais a marcaram — e o que revelam, na prática, sobre o que significa ser professora?
Antónia Tiago Gonçalves: O que mais me marcou foi lidar com diferentes ritmos de aprendizagem e perceber que cada aluno aprende de forma diferente. Perceber também a alegria que sinto quando um aluno consegue entender algo pela primeira vez é algo que me marca até hoje. Essas experiências mostram, na prática, que ser professora é ter paciência, dedicação e saber adaptar-se aos alunos — ajudando cada um no seu próprio ritmo.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Antónia Tiago Gonçalves: Quando estou a explicar um conteúdo e percebo que os alunos começam a compreender — principalmente quando vejo a expressão de quem finalmente entendeu. Escolho esse momento porque mostra que o meu trabalho vai muito além de ensinar: é ajudar os alunos a aprender para a vida e a sentirem-se capazes.
Ao iniciar a sua prática docente, houve alguma descoberta sobre si mesma — enquanto profissional ou pessoa — que não esperava?
Antónia Tiago Gonçalves: Até ao momento, não houve nenhuma descoberta que não esperasse. Ainda estou a conhecer-me neste percurso.
Como tem sido a sua relação com os alunos neste início de percurso — e que aprendizagens essa convivência lhe tem proporcionado?
Antónia Tiago Gonçalves: A minha relação com os alunos neste início de percurso tem sido muito boa. Em pouco tempo, consegui criar laços com eles e estabelecer uma relação saudável. A convivência tem-me ensinado a ser mais dinâmica, criativa e muito paciente.
Quais têm sido os principais desafios neste início de percurso — e de que forma tem lidado com as exigências do contexto educativo em constante mudança?
Antónia Tiago Gonçalves: Os principais desafios estão em manter a disciplina em sala de aula, ao mesmo tempo que procuro atender às necessidades individuais de cada aluno. Para lidar com estas exigências, procuro adaptar as minhas estratégias de ensino e aprender com cada experiência.
Mesmo no início da carreira, começa-se a construir uma identidade profissional. Que tipo de educadora deseja tornar-se — e que valores procura aplicar desde já?
Antónia Tiago Gonçalves: Desejo tornar-me uma educadora dedicada e facilitadora — no sentido de inspirar confiança nos alunos. Procuro aplicar valores como respeito, empatia, responsabilidade e entusiasmo pelo ensino, de forma a ajudar no desenvolvimento de cada criança de forma plena.
Ao transitar da formação para a prática, que diferenças mais sentiu entre o que aprendeu e a realidade encontrada em sala de aula?
Antónia Tiago Gonçalves: Até ao momento, não encontrei nenhuma diferença significativa entre o que aprendi e a realidade da sala de aula. O que a formação me ensinou tem-se revelado útil no terreno.
Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?
Antónia Tiago Gonçalves: Gostaria que compreendessem que a sala de aula é muito mais do que transmitir conteúdos. Cada aluno é único e com realidades diferentes — e os professores, especialmente os novatos, precisam de apoio, formação contínua e recursos adequados para poderem ensinar da melhor forma possível.
Existe alguma mulher — professora ou outra referência — que tenha influenciado a sua forma de encarar este início de carreira? De que forma essa inspiração se reflecte na sua prática?
Antónia Tiago Gonçalves: Sim — a única professora que tenho no quarto ano. Ver de perto uma mulher capaz, que vai atrás dos seus objectivos, motiva-me a melhorar sempre e a não desistir do caminho que escolhi.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Antónia Tiago Gonçalves: Esta afirmação desperta em mim orgulho e uma enorme responsabilidade. Ser mulher na educação significa contribuir para a formação das futuras gerações e mostrar que podemos ocupar espaços de influência e liderança na construção de uma sociedade melhor.
Se tivesse de aconselhar uma jovem que está prestes a iniciar a prática docente e se sente insegura, o que lhe diria com base na sua experiência recente?
Antónia Tiago Gonçalves: Aconselharia, por um lado, a fazer uma reflexão profunda — pois ensinar é uma grande responsabilidade. Por outro lado, diria para acreditar em si mesma, ter paciência e estar aberta a aprender todos os dias. A insegurança é normal no princípio — mas com dedicação e vontade de crescer, vai descobrir que ensinar é tão gratificante quanto desafiante.
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A Antónia está no início — e tem a honestidade de o dizer sem disfarce. Não há grandes revelações nesta entrevista, nem histórias dramáticas. Há algo mais raro: a descrição simples e verdadeira de quem está a aprender a ser professora em tempo real. O que me ficou foi a forma como ela descreve o momento em que um aluno finalmente entende algo — e como isso, por si só, já chega para continuar. Há uma integridade nessa resposta que muitos anos de carreira às vezes apagam. A Antónia ainda a tem. E isso também é um ponto de partida.