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ANTÓNIA SUZANA BADI SEGUNDA
Liderar no Meio: uma Economista que Constrói Pontes entre as Orientações do Topo e a Realidade do Terreno
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Antónia Suzana Badi Segunda, licenciada em Economia na especialidade de Gestão de Empresas pela Universidade José Eduardo dos Santos e Chefe da Secção Pedagógica da Faculdade de Medicina do Huambo, onde trabalha há mais de dez anos. O seu percurso é singular: é uma economista a liderar pedagogia numa faculdade de medicina — e é precisamente nessa posição de mediação, entre o que se decide no topo e o que é possível fazer no terreno, que encontrou o seu papel.
Nesta entrevista, Antónia fala sobre o que a liderança lhe revelou sobre si mesma, sobre os momentos de hesitação que se tornaram oportunidades de autoconhecimento — e sobre a convicção de que liderar é, acima de tudo, um compromisso com o desenvolvimento das pessoas.
Antes de assumir a Chefia da Secção Pedagógica na Faculdade de Medicina, houve certamente um percurso marcado por experiências e aprendizagens. Que etapas desse caminho considera terem sido mais determinantes para chegar até aqui — e o que essa função lhe permitiu descobrir sobre si mesma enquanto líder pedagógica?
Antónia Segunda: Antes de assumir a Chefia da Secção Pedagógica, o meu percurso foi marcado por experiências que fortaleceram a minha preparação: a gestão de equipas, a participação em projectos institucionais, a aprendizagem contínua e a colaboração com colegas e estudantes. Cada etapa permitiu compreender melhor os desafios do ensino superior e a dinâmica da instituição.
Esta função revelou-me que liderar exige equilíbrio, empatia, escuta activa e tomada de decisões responsáveis. Descobri também que é possível conciliar as exigências institucionais com o que é viável no terreno, sempre com o foco na melhoria da qualidade do ensino e no bem-estar da comunidade académica. Liderar tornou-se assim um compromisso com o desenvolvimento das pessoas e da instituição — mais do que apenas gerir tarefas.
Sabemos que cargos de elevada responsabilidade académica ainda são ocupados, em menor número, por mulheres. Em algum momento, o peso dessa responsabilidade ou as expectativas associadas à função fizeram-na questionar-se ou hesitar antes de assumir este papel?
Antónia Segunda: Assumir uma posição de elevada responsabilidade académica implica, muitas vezes, enfrentar momentos de hesitação. É normal questionar-se diante do peso das decisões, das expectativas institucionais e da visibilidade que acompanha o cargo. Para mim, esses momentos serviram como oportunidades de autoconhecimento — ajudando-me a avaliar a minha capacidade de liderança, a reforçar competências e a compreender que o verdadeiro papel de um líder pedagógico é equilibrar responsabilidades com empatia, escuta e apoio à comunidade académica.
Ao longo do seu percurso académico e profissional, houve alguma mulher — líder académica, professora, gestora ou médica — que tenha influenciado a sua forma de pensar a liderança feminina no ambiente profissional?
Antónia Segunda: Ao longo do meu percurso, algumas mulheres líderes e profissionais inspiradoras influenciaram a minha forma de ver a liderança feminina. Elas mostraram que é possível ser firme, ética e empática ao mesmo tempo — ouvir a equipa, tomar decisões responsáveis e, acima de tudo, inspirar e apoiar o crescimento das pessoas à nossa volta.
Estar numa posição de liderança significa frequentemente viver no meio — entre o que te pedem de cima e o que é possível fazer no terreno. Como é navegar esse espaço?
Antónia Segunda: Estar numa posição de liderança implica, muitas vezes, ocupar um lugar de mediação entre as orientações institucionais e a realidade vivida no terreno. Esse espaço exige do líder capacidade de negociação, escuta activa e discernimento — pois nem sempre aquilo que é definido a nível superior corresponde integralmente às condições existentes nas instituições.
Navegar esse contexto significa procurar construir pontes: compreender as orientações estratégicas, mas também valorizar a experiência de quem está directamente envolvido no processo educativo. Assim, a liderança torna-se um exercício de equilíbrio, diálogo e adaptação — procurando transformar desafios em oportunidades de melhoria para a instituição e para a comunidade académica.
Na sua visão, que sensibilidades ou perspectivas as mulheres podem acrescentar aos espaços de liderança pedagógica no ensino superior, particularmente num contexto tão exigente como o da formação médica?
Antónia Segunda: Na minha opinião, as mulheres podem acrescentar aos espaços de liderança pedagógica perspectivas mais inclusivas, colaborativas e sensíveis às dimensões humanas do processo educativo. No contexto da formação médica — particularmente exigente — a liderança feminina pode contribuir para a promoção de ambientes de aprendizagem mais empáticos, valorizando a escuta, o diálogo e o bem-estar dos estudantes. Além disso, pode reforçar a integração entre competência científica, ética profissional e cuidado humano — aspectos essenciais para a formação de médicos mais conscientes das necessidades dos pacientes e da sociedade.
A formação médica exige não apenas conhecimento científico, mas também sensibilidade humana e responsabilidade ética. Como o trabalho pedagógico pode contribuir para desenvolver essas dimensões nos estudantes de medicina?
Antónia Segunda: O trabalho pedagógico desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da sensibilidade humana e da responsabilidade ética nos estudantes de medicina. Para além da transmissão de conhecimentos científicos, é importante promover metodologias de ensino que incentivem a reflexão crítica, a empatia e o contacto consciente com a realidade dos pacientes. Através de discussões de casos clínicos, formação em bioética, práticas supervisionadas e valorização da comunicação médico-paciente, os estudantes podem desenvolver não apenas competências técnicas, mas também atitudes humanas e éticas essenciais para uma prática médica responsável e centrada na pessoa.
Se pudesses redesenhar o processo de tomada de decisões no sector educativo angolano para que a experiência de quem está no terreno fosse verdadeiramente ouvida, o que mudarias?
Antónia Segunda: Reconhecendo que a gestão do sector educativo envolve muitos desafios e responsabilidades, com toda a humildade procuraria reforçar a participação de quem trabalha directamente nas instituições de ensino no processo de tomada de decisões. Incentivaria mecanismos mais regulares de escuta — consultas, fóruns de diálogo e partilha de experiências entre decisores e profissionais do terreno. Acredito que essa aproximação poderia contribuir para decisões mais ajustadas à realidade das instituições e para o fortalecimento da qualidade do ensino em Angola.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. Para ti, o que significa ser mulher em posição de liderança na educação angolana?
Antónia Segunda: Para mim, ser mulher em posição de liderança na educação angolana significa assumir um compromisso de responsabilidade com a formação de novas gerações e com o desenvolvimento do país. Significa também demonstrar que a mulher tem capacidade de orientar, decidir e contribuir para a melhoria do sistema educativo. Ao mesmo tempo, representa um exemplo para outras mulheres e meninas — mostrando que é possível ocupar espaços de decisão e participar activamente na construção de uma educação mais justa, inclusiva e de qualidade em Angola.
Imagina que uma jovem docente, iniciando o seu percurso no ensino superior, sonha um dia ocupar funções de liderança pedagógica. Diante das exigências académicas e das mudanças institucionais, que orientações lhe daria para construir um percurso sólido?
Antónia Segunda: A uma jovem docente que inicia o seu percurso no ensino superior e aspira exercer liderança pedagógica no futuro, recomendaria que construísse o seu caminho com base em três pilares fundamentais: formação sólida, compromisso ético e participação institucional.
Em primeiro lugar, é essencial investir continuamente na formação académica, na investigação e na actualização científica — pois a credibilidade de um líder universitário nasce do conhecimento e da competência. Em segundo lugar, é importante cultivar valores como responsabilidade, humildade, capacidade de escuta e respeito pela diversidade de ideias — elementos fundamentais para uma liderança pedagógica equilibrada e participativa. Por fim, aconselharia a envolver-se activamente nas actividades académicas e institucionais, colaborando com colegas e contribuindo para a melhoria das práticas educativas.
Desta forma, a liderança universitária não surge apenas de um cargo formal, mas de um percurso construído com dedicação, aprendizagem contínua e compromisso com a qualidade da educação.
Também acreditas na força da educação? Descobre como participar e levar esta transformação mais longe.
Uma economista a liderar pedagogia numa faculdade de medicina. À primeira vista, parece um paradoxo. Mas é precisamente essa posição — fora do lugar esperado — que torna a perspectiva da Antónia tão interessante. Ela ocupa o meio: entre o que se decide no topo e o que é possível fazer no terreno. E é nesse meio, que muitos evitam, que ela encontrou o seu papel. O que me ficou desta conversa foi a forma como ela descreve a hesitação — não como fraqueza, mas como ponto de partida para o autoconhecimento. Numa cultura que ainda associa liderança à ausência de dúvida, isso é uma posição corajosa. Construir pontes entre a decisão e a realidade não é tarefa menor. É, muitas vezes, o trabalho mais difícil de todos.