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ELIZABETE JANETE AGOSTINHO DUZENTOS

Do Jardim-de-Infância ao Consultório: uma Psicóloga que Acredita que Intervir Cedo Muda uma Vida

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Elizabete Janete Agostinho Duzentos, licenciada em Psicologia Geral com actuação na área da psicologia da criança e do adolescente. O seu percurso começa antes da licenciatura: o primeiro contacto com a educação foi como educadora infantil no Centro Jardim da Celeste — experiência que moldou a sua convicção de que intervir cedo transforma vidas. Actualmente, trabalha como psicóloga clínica no Centro de Psicologia Integral Carl Jung, onde acompanha crianças, adolescentes e famílias. Nesta entrevista, Elizabete fala sobre o que o comportamento diz quando a criança não fala, sobre o papel indispensável da colaboração entre família, escola e psicólogo — e sobre Anna Freud, a referência que a ensinou a olhar cada aluno individualmente.

O seu percurso combina formação académica em Psicologia Geral com área de actuação em psicologia infantil e do adolescente. O que a motivou a escolher esta área e de que forma a paixão por compreender e apoiar crianças e jovens se articula com a sua actuação profissional?

Elizabete Duzentos: O meu percurso académico iniciou-se com o interesse de estudar a espécie humana desde o ensino de base. Quando adolescente, o meu primeiro trabalho foi como educadora infantil — e a formação em Psicologia Geral proporcionou-me uma base sólida sobre o comportamento humano e os processos psicológicos ao longo da vida. Durante a formação, desenvolvi um interesse particular pela psicologia infantil e do adolescente, sobretudo pela importância que as primeiras fases do desenvolvimento têm na construção da personalidade, das emoções e das relações sociais.

A escolha por esta área surgiu também da motivação em compreender melhor as necessidades emocionais e comportamentais das crianças e dos jovens, e em contribuir para o seu bem-estar e desenvolvimento saudável. Acredito que a intervenção precoce pode ter um impacto muito significativo na vida das crianças — ajudando-as a lidar com desafios, a desenvolver competências emocionais e a fortalecer a sua autoestima.

Na minha actuação profissional, procuro aplicar este interesse através de uma abordagem sensível, empática e centrada na criança ou no adolescente, envolvendo sempre que possível a família e o contexto escolar. Procuro não apenas compreender as dificuldades apresentadas, mas também promover estratégias que favoreçam o desenvolvimento emocional, social e psicológico dos jovens com quem trabalho.

Houve alguma mulher — psicóloga, educadora ou referência na área da psicologia infantil e do adolescente — que tenha influenciado a sua forma de pensar a educação e o acompanhamento emocional dos alunos?

Elizabete Duzentos: Sim. Por ser apaixonada também pela Psicanálise, durante os anos universitários tive o privilégio de conhecer e ler vários artigos e livros dos percursores da psicologia. Uma das referências que mais me inspira é Anna Freud. O trabalho dela com a observação do comportamento infantil e a compreensão das necessidades emocionais ensina-me a olhar cada aluno individualmente, criando um ambiente seguro e acolhedor. Na prática, isso significa promover a escuta activa, apoiar o bem-estar emocional e equilibrar a aprendizagem académica com o desenvolvimento social.

Na sua experiência, como a compreensão do desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças e adolescentes pode influenciar práticas pedagógicas mais eficazes e uma aprendizagem mais significativa?

Elizabete Duzentos: Na minha experiência, compreender o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças e dos adolescentes é fundamental para tornar o processo de ensino mais eficaz. Cada fase do desenvolvimento apresenta características próprias na forma como os alunos pensam, sentem e interagem com o mundo.

Quando o professor compreende essas etapas, consegue adaptar as estratégias pedagógicas de acordo com a idade, os interesses e as necessidades dos alunos. Crianças mais novas aprendem melhor por meio de actividades lúdicas, jogos e experiências concretas, enquanto os adolescentes já conseguem trabalhar com pensamento mais abstracto, debates e resolução de problemas. Além disso, considerar o desenvolvimento emocional ajuda o professor a criar um ambiente seguro, motivador e respeitoso, onde os alunos se sintam valorizados e confiantes para participar — o que contribui para um maior envolvimento nas actividades e para uma aprendizagem mais significativa.

Observa que o isolamento infantil nem sempre indica um problema, mas quando persistente ou repentino pode ser um sinal de alerta. Na sua experiência, como professores e educadores podem identificar esses sinais e agir de forma preventiva sem comprometer o bem-estar emocional da criança?

Elizabete Duzentos: O isolamento infantil nem sempre significa um problema, pois algumas crianças são naturalmente mais reservadas. Quando esse comportamento se torna persistente ou surge de forma repentina, porém, pode ser um sinal de alerta. Como educadores, é importante observar mudanças no comportamento da criança — afastamento constante dos colegas, falta de interesse nas actividades ou alterações emocionais. A partir dessa observação, devemos agir de forma cuidadosa e preventiva: criar um ambiente acolhedor, incentivar a participação da criança sem pressão e promover actividades que estimulem a interacção. É também fundamental dialogar com a criança de forma sensível e, quando necessário, comunicar à família para compreender melhor a situação. Desta forma, conseguimos apoiar a criança de maneira respeitosa, preservando o seu bem-estar emocional e contribuindo para o seu desenvolvimento social e escolar.

Crianças muitas vezes comunicam sentimentos através do comportamento — afastamento social, irritabilidade ou queda no rendimento escolar. Que estratégias pedagógicas considera eficazes para que professores interpretem correctamente esses sinais e promovam intervenções adequadas?

Elizabete Duzentos: As crianças muitas vezes expressam os seus sentimentos através do comportamento. Uma das estratégias mais eficazes é a observação — uma das ferramentas mais poderosas na área da psicologia escolar: a atenção contínua por parte dos professores e educadores para identificar mudanças no comportamento ou no envolvimento da criança nas actividades.

Outra estratégia é promover um ambiente de confiança e diálogo, onde a criança se sinta segura para se expressar. O uso de actividades lúdicas, conversas individuais e momentos de escuta activa também ajuda o professor a compreender melhor o que a criança está a sentir.

Além disso, é fundamental manter comunicação com a família e com a equipa pedagógica — partilhar observações e encontrar formas adequadas de apoio. Desta forma, o professor consegue interpretar melhor os sinais e promover uma intervenção sensível que respeite o bem-estar e o desenvolvimento da criança.

Qual o papel de pais, professores e psicólogos na observação e acompanhamento do desenvolvimento emocional infantil e adolescente, e como essa colaboração pode ser fortalecida no dia a dia da escola?

Elizabete Duzentos: O acompanhamento do desenvolvimento emocional das crianças e adolescentes é uma responsabilidade partilhada entre pais, professores, educadores e psicólogos. Os pais têm um papel fundamental por estarem mais próximos do dia a dia da criança, observando mudanças de comportamento, emoções e dificuldades. Os professores e educadores contribuem através da observação no contexto escolar, identificando sinais como mudanças no comportamento, dificuldades de interacção ou queda no rendimento. Os psicólogos oferecem apoio especializado, ajudando a compreender melhor as emoções da criança e orientando estratégias de intervenção.

Esta colaboração pode ser fortalecida através de comunicação regular, reuniões entre escola e família, partilha de observações e trabalho em equipa. Quando todos trabalham juntos, torna-se mais fácil identificar dificuldades precocemente e promover um desenvolvimento emocional saudável.

Num contexto de constantes mudanças nas políticas educativas e na liderança escolar, que práticas psicológicas e pedagógicas devem ser priorizadas para garantir estabilidade e continuidade no processo de aprendizagem?

Elizabete Duzentos: Num contexto de constantes mudanças, é importante que os professores priorizem práticas pedagógicas centradas no aluno e na qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Estratégias como o planeamento organizado das aulas, metodologias activas, avaliação contínua e acompanhamento individual dos alunos ajudam a garantir estabilidade no processo de aprendizagem. Além disso, é fundamental manter colaboração entre professores, partilha de experiências pedagógicas e comunicação com a equipa escolar, para assegurar continuidade nas práticas educativas. Mesmo diante das mudanças institucionais, quando o professor mantém o foco no desenvolvimento do aluno e na adaptação às necessidades da turma, é possível garantir um processo de aprendizagem consistente e significativo.

Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?

Elizabete Duzentos: Gostaria que os responsáveis compreendessem a realidade quotidiana das escolas e das crianças — especialmente no ensino especial: as dificuldades de acesso a materiais pedagógicos, as disparidades entre regiões, a sobrecarga dos professores e a importância de valorizar o desenvolvimento emocional e social dos alunos, além do académico.

Também gostaria que reconhecessem que os professores precisam de apoio contínuo e formação prática — e que as políticas educativas só são eficazes quando reflectem a realidade do dia a dia da sala de aula. Com isso, seria possível criar estratégias mais justas, mais inclusivas e que realmente promovam aprendizagem significativa para todas as crianças.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?

Elizabete Duzentos: Esta afirmação desperta em mim orgulho e responsabilidade. Ser uma mulher na educação significa contribuir para a aprendizagem e o desenvolvimento emocional dos alunos, inspirando-os e oferecendo apoio com empatia e dedicação. É a oportunidade de transformar vidas através da educação.

Imagina que uma jovem professora, iniciando-se na educação, se sente pressionada pelas constantes mudanças no sector e insegura sobre como lidar com os desafios emocionais dos alunos. Que conselho lhe darias?

Elizabete Duzentos: Diria que é natural sentir-se pressionada no início da carreira, especialmente diante de mudanças constantes no sector. O meu conselho seria priorizar o equilíbrio entre organização e empatia — planear bem as aulas e manter métodos claros ajuda a reduzir a ansiedade, enquanto a atenção às emoções dos alunos exige escuta activa, observação cuidadosa e sensibilidade.

É também importante procurar apoio da equipa pedagógica e da família, trocar experiências com colegas e recordar que cada desafio é uma oportunidade de aprendizagem. Com prática, paciência e reflexão, é possível oferecer um ensino de qualidade sem descuidar do desenvolvimento emocional das crianças e adolescentes.

Também acreditas na força da educação? Descobre como participar e levar esta transformação mais longe.

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