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LU KYESE

Sentámos no Chão e Recusámo-nos a Desistir: a História do Clube de Leitura que Nasceu de uma Indignação

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Lu Kyese, estudante de Letras — Língua e Literaturas em Língua Portuguesa na Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto — e fundadora do CLEMA, Clube de Leitura do Malweka, em Luanda. Criado em Setembro de 2024, o CLEMA nasceu da indignação com o abandono das periferias e da convicção de que o bairro onde se cresce não pode determinar o futuro de uma criança. Lu Kyese começou a ensinar antes de ter um projecto — primeiro na igreja, depois no bairro, sempre com os recursos que tinha.

Nesta entrevista, Lu fala sobre a teimosia que a move, sobre as crianças que chegam sem condições mas com vontade, sobre a menina tímida que se tornou poetisa — e sobre o que significa recusar-se a desistir quando se senta no chão para ensinar.

Dizes que a “teimosia” é o que mais te distingue. O que é que essa teimosia já te custou — e o que é que ela já te deu?

Lu Kyese: A teimosia custou-me tempo, dinheiro, sacrifícios. Mas deu-me muita coisa boa. Deu-me a oportunidade de enfrentar o público, de entender as crianças, de ver o meu lado humano — e, o mais importante, deu-me alegrias. Ver uma criança a aprender é muito gratificante para mim.

Começaste a trabalhar com crianças na igreja, nos cultos dominicais. O que aprendeste nesse espaço sobre como as crianças aprendem — antes mesmo de pensares em criar um projecto como o CLEMA?

Lu Kyese: Ao longo da minha caminhada nos cultos dominicais, aprendi que as crianças precisam de se sentir seguras e confiantes para aprender. Com isso, é preciso cativá-las e mostrar-lhes que a palavra não é uma coisa chata — e que podemos aprender muito com elas.

O que te trouxe a começar a ensinar crianças no teu próprio bairro — e o que encontraste quando começaste?

Lu Kyese: A pobreza educacional foi um dos maiores factores que me fez começar a dar aulas às crianças do meu bairro. Encontrei uma grande dificuldade no decorrer do ensino, mas graças à minha teimosia, fui tentando melhorar e preencher as lacunas da aprendizagem.

Como nasceu concretamente o CLEMA — Clube de Leitura do Malweka — qual foi o momento em que disseste “vou fazer isto”?

Lu Kyese: O Clube de Leitura do Malweka nasceu por intermédio de uma sede de mudança. O bullying do bairro — marginalizado e ignorado por todos — deixou-me indignada e com vontade de fazer algo diferente. Por que um clube de leitura? Sou estudante de Letras, Língua e Literaturas em Língua Portuguesa, e participo sempre das actividades literárias e clubes de leitura. Percebi que não havia nada do género no meu bairro — e sendo algo que agrega valor, criei o meu próprio projecto comunitário. O projecto entrou em vigor no dia 1 de Setembro de 2024.

Que crianças chegam até ti? Quem são, de onde vêm, o que trazem?

Lu Kyese: Chegam muitas crianças — crianças fora do ensino, crianças com dificuldades de aprendizagem. São crianças do bairro com vontade de aprender, crianças que não estudam por falta de condições financeiras. Trazem consigo apenas os seus lápis e cadernos — e algumas vezes somos nós a oferecer os materiais escolares.

Há um momento específico com uma criança — uma conquista, uma dificuldade, uma surpresa — que nunca mais esqueceste? Conta-nos essa história.

Lu Kyese: Uma menina chegou ao clube muito tímida, sem vontade de aprender. Mas desde o momento em que começou a frequentar o clube, começou a gostar de estudar — e hoje já é poetisa, já declama nas nossas actividades. Quando a vi a declamar no meio de pessoas importantes, sem medo de errar, enchi-me de orgulho. Vejo os meus meninos que estudam no clube e que não querem parar — é algo muito marcante para mim.

Ensinar a ler e a escrever fora de uma sala de aula formal é diferente. O que é que o bairro, a rua, a comunidade ensinam que uma escola convencional não ensina?

Lu Kyese: Ensinamos a sobreviver. No meio das dificuldades, no chão, no sol, ensinamos que viver num bairro marginalizado não limita as nossas capacidades — e que a sobrevivência é a nossa arma de alcance.

Quais são as maiores dificuldades concretas do dia a dia — recursos, famílias, espaço, motivação das crianças?

Lu Kyese: As maiores dificuldades concretas do nosso dia a dia são recursos e espaço.

Há crianças que chegam ao teu projecto e depois conseguem entrar no ensino formal? Como é esse processo?

Lu Kyese: Por causa da falta de recursos, ainda não conseguimos com que uma criança fora do ensino formal fosse integrada. 

Se pudesses sentar-te à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola e falar sobre o que vives no Bairro Malweka, o que dirias — e o que gostarias que as pessoas nessa mesa compreendessem sobre as crianças que estão fora do sistema formal de ensino?

Lu Kyese: Que olhassem para o bairro como olham para as zonas urbanas. Que fizessem uma visita para conhecer a população de lá — porque aqui, infelizmente, temos muitas pessoas fora do ensino. Olhem para o futuro de cada criança e sintam o peso do seu presente. As periferias também merecem uma educação de qualidade.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?

Lu Kyese: Desperta comprometimento com a minha comunidade. Cresci sem muitas oportunidades — e recuso-me a deixar outras crianças a passarem por isso.

Que mensagem deixarias a uma jovem que quer fazer algo pelo bairro onde vive, mas sente que não tem recursos, formação ou autoridade suficientes para começar?

Lu Kyese: Comece. O mundo está cheio de pessoas carentes — não esperes ter muito dinheiro ou muito conhecimento para começar. Deixa a vontade mover-te. Eu não tinha nada, apenas livros. Sentámos no chão, mas recusámo-nos a desistir. Então, não desistas — faz o que tiveres no coração, pede orientação a Deus para te guiar, molda a ignorância e traz o conhecimento para os que precisam.

Também acreditas na força da educação? Clica no botão e descobre como participar na campanha e levar esta transformação mais longe.

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