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Ahetu mu Kulonga
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Juliana Felix António Calunga

Cargo é Passageiro, a Humildade é a Chave: Liderança, Propósito e os Desafios da Inovação Educativa no Nambuangongo

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Juliana Felix António Calunga, responsável pela Secção de Ciências, Tecnologias e Inovação no município do Nambuangongo, província do Bengo. Com mais de dois anos de experiência na liderança educativa, Juliana ocupa um cargo que exige gerir pessoas, expectativas e mudanças constantes — num município onde a falta de rede móvel continua a ser uma barreira real para a inovação. Mas é precisamente aí, entre o que se pede de cima e o que é possível fazer no terreno, que ela encontrou o seu propósito.

Nesta entrevista, Juliana fala sobre a conversa silenciosa que toda a líder tem consigo mesma, sobre o que a liderança lhe ensinou sobre humildade e paciência — e sobre a convicção de que ter uma posição clara é o que distingue as mulheres que chegam das que ficam pelo caminho.

Assumir uma função de liderança na educação pública implica gerir pessoas, expectativas e mudanças constantes. O que a motivou a aceitar o desafio de liderar a Secção de Ciências, Tecnologias e Inovação no município do Nambuangongo?

Juliana Calunga: É realmente um desafio — ainda mais sendo mulher. Mas nada que não se consiga.

O que me motivou foram os meus objectivos profissionais. Sempre me vi em patamares maiores dentro da educação, porque confio na minha capacidade profissional. Aceitar este desafio foi resultado de um olhar aprofundado sobre a educação no município — pensar que a minha voz e as minhas ideias poderão, nalgum momento, ser ouvidas e valorizadas.

Ao longo desse percurso de liderança, que dimensões pessoais e profissionais descobriu em si mesma que talvez não tivesse imaginado antes de ocupar este lugar?

Juliana Calunga: Ao entrar para a liderança, descobrimos mundos e sonhos. O curioso é que, até ao momento, perco-me a olhar para a dimensão em que estou ou chegarei — porque todos os dias vencemos um desafio maior do que o anterior. E é aí que falamos em silêncio: UAU, consegui? Afinal sou capaz!

Esta conversa com o silêncio não tem nada a ver com duvidar do nosso potencial — são dimensões que estavam distantes do nosso olhar. Mas, nesta jornada, várias coisas pessoais e profissionais descobri em mim.

Estar numa posição de liderança significa frequentemente viver no meio — entre o que te pedem de cima e o que é possível fazer no terreno. Como é navegar esse espaço?

Juliana Calunga: É navegar num mar cujas ondas dificilmente abrandam. É correr contra o tempo, é fazer as coisas para ontem — mesmo que já tenha passado. E o mais bonito é aprender, é profissionalizar-se todos os dias. Conseguimos manter o controlo em diversos momentos, resolver problemas e encontrar sempre o plano C e o plano D.

Enquanto líder, sentes que a tua experiência e o conhecimento que tens da realidade pesam nas decisões que se tomam a níveis superiores? O que te faz sentir assim?

Juliana Calunga: Algumas vezes sim. Porque é como tudo — nunca estamos cem por cento satisfeitas. Há algum peso, por conta de todas as dificuldades — e por vezes chegam decisões ou orientações superiores que colidem com a realidade que lidero, e as pessoas nem sempre compreendem que aquela decisão ou orientação vai além das nossas competências.

Enquanto responsável pela área de Ciências, Tecnologias e Inovação, quais têm sido os principais desafios para promover uma cultura científica nas escolas do município do Nambuangongo, especialmente em contextos com limitações estruturais e tecnológicas?

Juliana Calunga: Penso que estas dificuldades são visíveis. A principal é o acesso à rede móvel — não temos um sistema de rede adequado, tanto para chamadas como para internet. E isso constitui uma barreira enorme para as Tecnologias e para a Inovação e criatividade no município e na Secção. Porque de que adianta termos projectos que envolvem as TICs se o município carece de rede? Mas adaptamo-nos com o que temos. Quanto à ciência, a principal lacuna é a falta de algumas estruturas — como laboratórios. Em termos de pesquisa, porém, o terreno é fértil para a elaboração de artigos educacionais.

A presença feminina em cargos de decisão no sector educativo tem crescido, mas ainda representa um percurso de conquista. Que caminhos, competências e atitudes considera essenciais para que mais mulheres possam alcançar e sustentar posições de liderança na educação pública?

Juliana Calunga: A figura feminina está finalmente a tornar-se destaque e a ser aceite. Vou resumir numa única palavra: propósito. Saber a direcção que queremos tomar é essencial nesta jornada. Dentro do propósito encontramos vários elementos — identidade, objectivos, foco, metas, segurança, autoestima. Valorizo muito a identidade neste processo — porque quando temos uma marca, quando sabemos onde queremos chegar, nada nos pode deter. Tenham uma posição: é o que deixo para as mulheres que pretendem alcançar e sustentar posições de liderança. Mulheres, não olhem para qualquer canto — para não se desviarem por coisas temporárias ou banais.

No mês em que celebramos as mulheres, que figura feminina considera ter sido determinante para inspirar o seu percurso na liderança educativa — e de que forma essa influência se manifesta no seu trabalho actual?

Juliana Calunga: Hoje olho para a actual Chefe de Departamento de Desenvolvimento Integral da província, Joana Pedro. Também já exerceu a função de Chefe de Secção de Ciências, Tecnologias e Inovação — foi colega enquanto professoras em sala de aula. As palavras dela e o seu percurso até hoje motivam-me a continuar.

Ao olhar para o seu percurso até aqui, qual foi o maior ensinamento que a liderança educacional lhe proporcionou — não apenas como gestora, mas como mulher e agente de transformação social?

Juliana Calunga: Aprendi a olhar para a liderança como um campo que também promove a humildade e a paciência. Não é só liderar — é também ser humana, e por vezes olhar para as prioridades e para o conjunto.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. Para ti, o que significa ser mulher em posição de liderança na educação angolana?

Juliana Calunga: Ser mulher em posição de liderança na educação angolana é ser única, autêntica e guerreira. É saber que cada decisão que tomamos tem peso — não apenas para nós, mas para todas as mulheres que vêm a seguir. É provar, todos os dias, que a nossa voz tem lugar e que o nosso conhecimento tem valor. E é fazer isso com humildade, sem perder a identidade que nos trouxe até aqui.

Que conselho darias a outras mulheres que ocupam ou aspiram ocupar funções de liderança na educação, sabendo que vão liderar em contextos de constante mudança?

Juliana Calunga: O conselho que deixo é: não se acomodem na posição em que estão — procurem desafios e saibam um pouco de tudo. O cargo é passageiro; a humildade é a chave de tudo. Valorizem o trabalho de quem muito vos apoia e está disposto a estar convosco até na lama.

Também acreditas na força da educação? Clica no botão e descobre como participar na campanha e levar esta transformação mais longe.

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