Mais por descobrir...
RODÉ LAURIETA LEMOS
Ser Professora em Angola: o Ensino Primário, a Reprovação e as Crianças que Não Podem Ficar Para Trás
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Rodé Laurieta Lemos, professora de Língua Portuguesa no ensino primário e fundadora do projecto Reforço Escolar — Lápis na Mão, em Benguela. Licenciada em Ciências da Educação pelo ISCED-Benguela, na especialidade de Ensino da Língua Portuguesa, trabalha há seis anos directamente com crianças em processo inicial de aprendizagem, ajudando-as a superar dificuldades através de aulas particulares, grupos de estudo e mentorias.
Nesta entrevista, Rodé Lemos fala sobre o que significa estar à frente de uma sala de aula no ensino primário, sobre a reprovação como oportunidade de aprendizagem e sobre a convicção de que nenhuma criança chega tarde demais para aprender.
És professora de Língua Portuguesa, educadora do ensino primário e trabalhas há mais de seis anos directamente com crianças em processo inicial de aprendizagem. Em que momento percebeste que educar crianças seria mais do que uma profissão — seria uma missão pessoal?
Rodé Laurieta Lemos: Quando percebi que, durante a transmissão de conhecimentos, eu não iria apenas concentrar-me em falar sobre matérias escolares, mas acabaria também por ensinar valores, por fazer com que as crianças se sentissem à vontade comigo, e que deveria ser uma presença atenta a tudo aquilo que elas manifestassem ao longo do processo de ensino-aprendizagem.
Tens destacado que trabalhar com crianças em idade pré-escolar é uma das partes mais delicadas do teu percurso. O que torna essa fase tão sensível e exigente do ponto de vista educativo e humano?
Rodé Laurieta Lemos: Olha, essa fase é exigente e sensível porque é o momento em que a criança sai do seu meio habitual — a família — e entra para um lugar totalmente desconhecido: a escola. Ela chega com medo, sem perceber muito bem o que está a acontecer. Por isso, o meu foco é equilibrar amizade e autoridade, de forma a fazer-lhe compreender que a escola é um lugar seguro e que, agora, ela não depende só dos pais.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Rodé Laurieta Lemos: Sem dúvida, é o momento em que estou à frente dos alunos. Posso fazer toda a planificação e imaginar que tudo o que escrevi vai cumprir-se, mas a prática é totalmente diferente. Cada criança aprende no seu ritmo, cada criança tem as suas necessidades — e todos os dias sou obrigada a mudar um método ou outro para conseguir alcançar os objectivos previstos para aquela aula.
Há alguma mudança de orientação que chegou ao teu trabalho e que te obrigou a repensar completamente a forma como fazias as coisas? Conta-nos essa história.
Rodé Laurieta Lemos: Sim. Há três anos, no meu projecto de Reforço Escolar, recebi um aluno de sete anos que estava na 2.ª classe. Não escrevia, não sabia copiar do livro ou do quadro para o caderno, não conhecia os números e não mostrava qualquer interesse pela aprendizagem. Quando fui perceber o historial, descobri que a criança não tinha feito o pré-escolar nem a 1.ª classe, e que, por ser filho único, havia um cuidado exagerado por parte da mãe. Tive de começar do início: apresentei-o às vogais, aos ditongos, ao abecedário, aos sons simples, à formação de palavras, aos números, às continhas — tudo por níveis. Quando dei por mim, em três meses ele já conhecia as vogais, o abecedário e dominava alguns sons.
O trabalho maior foi também trazer a mãe à realidade — fazê-la entender que ela lhe daria protecção e colo para sempre, mas que o excesso acabava por não o deixar crescer, por não o deixar ver que precisava de conhecer outras pessoas e outros sentimentos. A mãe percebeu que o tinha protegido demasiado pelo facto de serem só eles dois, e a partir daí foi só sucesso. Hoje ele está na 5.ª classe, lê, faz as contas e continua comigo. Quando chega um menino novo com as mesmas dificuldades que ele tinha, ele diz: “Eu também não sabia, mas a professora ensinou-me.” Sem dúvida que ele é um dos meus maiores testemunhos.
Num contexto de educação marcada por mudanças de liderança e constantes reajustes de orientações pedagógicas, defendes que, em determinadas situações, a reprovação pode ser necessária. Na tua visão, em que momento essa decisão deixa de ser entendida como punição e passa a representar uma verdadeira oportunidade de aprendizagem e consolidação do percurso do aluno?
Rodé Laurieta Lemos: A reprovação é necessária muitas das vezes. Durante o processo de ensino-aprendizagem, é muito importante que o professor conheça todos os seus alunos. Costuma dizer-se que é mais fácil os alunos conhecerem o professor do que o contrário — mas o que muitas vezes fica óbvio é que um professor consegue falar das qualidades e dificuldades de quarenta alunos com muito mais facilidade do que quarenta alunos conseguem fazer o mesmo sobre um único professor.
A minha abordagem centra-se no ensino primário, que é a etapa com que mais trabalho. No pré-escolar, as crianças aprendem aquilo que é a raiz de todo o seu desenvolvimento intelectual: trabalham a motricidade fina por meio dos tracejados que lhes permitirão escrever. Na 1.ª classe, conhecem os sons e começam a formar palavras. Na 2.ª classe, é muito arriscado uma criança não saber ler — na verdade, a leitura já começa a ser construída no pré-escolar, onde as crianças aprendem as consoantes P, T, M e L.
Um aluno que não lê, não consegue copiar do quadro para o caderno, não conhece os números, não faz tarefas, não tem resultados satisfatórios nas avaliações e não mostra interesse em progredir, não pode ser levado para a classe seguinte. Além de representar uma falha enorme na qualidade do ensino, aprovar esse aluno coloca também em risco a integridade de quem toma essa decisão. A reprovação existe pela necessidade de dar à criança uma oportunidade real de aprender melhor — porque a classe seguinte não é de revisão, é de conteúdo novo. E é importante que o professor tenha consciência de que a reprovação não define o potencial do aluno: é a oportunidade para ele crescer e aprender com mais solidez.
Já viveste aquele momento em que uma nova directriz te pedia algo que sabias ser impossível nas condições reais do teu trabalho? Como resolveste?
Rodé Laurieta Lemos: Sim, já vivi. E quando aconteceu, precisei de recorrer à ajuda de pessoas com mais anos de experiência, que com certeza conheciam melhor aquela matéria do que eu.
Ao longo do teu percurso, que sabedoria prática acumulaste sobre como manter qualidade e continuidade no trabalho quando tudo à volta parece mudar constantemente?
Rodé Laurieta Lemos: Sem dúvida que foi a necessidade de pedir retorno constantemente — aos pais e aos próprios alunos. Importa-me muito saber o que os encarregados têm a dizer sobre como vêem os seus filhos desde que os deixaram sob a minha responsabilidade, e também saber como os meus alunos me vêem.
Há algo que aprendeste fazendo — sobre o que funciona, sobre como os alunos aprendem, sobre como as comunidades respondem — que nenhum manual ou orientação oficial conseguiria ensinar-te?
Rodé Laurieta Lemos: Neste percurso aprendi tanto que há coisas que já ficaram esquecidas (risos). Mas penso que posso sublinhar isto: os agentes principais do processo de ensino-aprendizagem — professor e aluno — são humanos, têm sentimentos, valores e importância. Por isso, mais do que ensinar de forma mecanizada, é fundamental que o professor ensine dentro daquilo que são as capacidades e os limites de cada aluno — e, claro, que aproxime sempre os conteúdos da realidade deles.
Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?
Rodé Laurieta Lemos: Que na periferia também existem crianças que desejam estudar. Que a educação deveria ser acessível para todos. Que a inclusão é fundamental. E que as crianças aprendem melhor quando percebem que quem está à frente delas tem amor pela profissão.
Quando olhas para o sector educativo, sentes que a tua experiência e o teu conhecimento prático têm peso nas decisões que se tomam? O que te faz sentir assim?
Rodé Laurieta Lemos: Não têm peso. Hoje estamos mais concentrados em falar sobre quem está à frente das aulas e esquecemo-nos de que quem está a ser ensinado também precisa que se reveja a qualidade de vida e de ensino que lhe é oferecida.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Rodé Laurieta Lemos: Desperta um sentimento bom, grande, de uma enorme responsabilidade. O sector da educação é vasto, e hoje vê-se cada vez mais mulheres a firmarem o seu compromisso aqui. Sabemos que em quase todo o mundo se duvida muito do potencial das mulheres — há quem defenda que o lugar da mulher é em casa, há quem defenda que o lugar da mulher é onde ela quiser, desde que se sinta confortável. Até dentro da sala de aula vemos alunos que só obedecem quando é um professor a falar, e ignoram o que a professora disse. Mas com certeza que já melhorámos muito.
Imagina que uma jovem mulher inicia agora o seu percurso na educação, na área do Ensino da Língua Portuguesa, e sente-se insegura diante das constantes mudanças no sistema educativo. Que conselho lhe darias para permanecer firme, confiante e fiel à sua vocação docente?
Rodé Laurieta Lemos: Diria-lhe que não importa o quão boa ela seja — é natural e normal sentir-se insegura. O importante é saber que tem conhecimento, e permitir-se estar aberta às mudanças, porque o conhecimento e o ensino não são estáticos.
Também acreditas na força da educação? Descobre como participar e levar esta transformação mais longe.