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Cecília Paulo Pacheco Severiano
Políticas Pensadas na Terceira Pessoa: uma Professora que se Recusa a ser Passiva nas Decisões sobre Educação
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Cecília Paulo Pacheco Severiano, licenciada em Ciências da Educação na especialidade de Ensino da História pela Escola Superior Pedagógica do Bengo, professora em Luanda com mais de dois anos de experiência. Formada no ensino angolano, enfrentou o desafio de trabalhar num sistema de currículo europeu — e transformou essa ruptura numa oportunidade: em menos de um ano, leu mais de 50 livros e reinventou a forma como elabora as suas aulas.
Nesta entrevista, Cecília fala sobre o que a mantém na educação por paixão e não por obrigação, sobre a diferença entre políticas pensadas para agentes activos e para agentes passivos — e sobre a convicção de que a voz do professor precisa de ocupar o espaço que lhe é devido nas decisões sobre educação em Angola.
O que te trouxe ao trabalho que fazes na educação, e o que te mantém nele, apesar de tudo?
Cecília Severiano: A formação que fiz no ensino médio pareceu-me, num primeiro momento, uma saída estratégica — atendendo ao contexto social que se vivia, não havia muitas opções. Vi na educação uma oportunidade para desenvolver habilidades que já possuía, neste caso a de ensinar. O que me mantém, com maior realce no professorado, é a paixão que fui ganhando ao longo do tempo de partilhar o que sei com aqueles que estão ao meu redor — e saber que, desta forma, estou a contribuir significativamente para o desenvolvimento da nossa comunidade.
Ao olhar para o teu percurso na educação, que transformações no sistema testemunhaste que marcaram profundamente a forma como trabalhas hoje?
Cecília Severiano: As transformações que mais me marcaram são as metodologias que antes eram aplicadas de forma dogmática e que actualmente estão a ser melhoradas em algumas instituições. Falo das voltadas ao ensino da história — uma disciplina que durante muito tempo foi vista como irrelevante, cheia de conteúdos sem aplicação prática. A minha forma de actuar tem sido diferente: procuro fazer uma ruptura nessa forma de pensar, utilizando métodos e técnicas eficazes para esclarecer as pessoas sobre a importância do estudo da história para o desenvolvimento das sociedades.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Cecília Severiano: Se eu tivesse que escolher um momento no meu dia a dia que melhor representa o meu trabalho, é quando noto que os meus alunos perceberam o que eu queria transmitir e conseguem apresentar abordagens sustentáveis relacionadas ao assunto que tratou-se na sala de aula. É tão satisfatório que dá uma sensação de dever cumprido.
Há alguma mudança de orientação que chegou ao teu trabalho e que te obrigou a repensar completamente a forma como fazias as coisas? Conta-nos essa história.
Cecília Severiano: Sim. A modalidade de ensino. Toda a minha formação foi no ensino angolano e nunca antes tinha entrado em contacto com o currículo europeu — entretanto, no meu trabalho a modalidade é europeia. Tive que procurar mecanismos de adaptação e enquadramento, e tive muitas dificuldades com a linguagem e o hábito de leitura: mensalmente temos sugestões de leitura e depois fazemos a verificação da obra, algo que no ensino angolano não acontece. Foi muito difícil enquadrar-me — mas consegui. E hoje conto essa experiência com um sorriso. Confesso que nunca tinha lido tanto: em menos de um ano já li mais de 50 livros, e com isso tenho melhorado muito a forma como elaboro as minhas aulas.
Quando a liderança muda no topo e novas prioridades chegam, como é que isso se reflecte concretamente no teu trabalho com os alunos, famílias ou comunidade?
Cecília Severiano: Quando há mudanças no topo, os desafios são maiores — a nossa acção deve enquadrar-se no que se pretende com os novos desafios. Mas há uma série de factores que podem estar na base das mudanças, e quando não são bem analisados podem comprometer o alcance dos objectivos. Nem toda a mudança traz consigo benefícios. No meu trabalho, não é aconselhável fazer alterações a todo o tempo — salvo se o professor não estiver a corresponder às exigências dos alunos. A medida mais sensata nestas situações é capacitar o professor para facilitar o desenvolvimento dos seus alunos.
Já viveste aquele momento em que uma nova directriz te pedia algo que sabias ser impossível nas condições reais do teu trabalho? Como resolveste?
Cecília Severiano: Sim. Tinha que fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para que os meus alunos tirassem 100% nos testes — algo que não dependia apenas de mim, mas deles também. Utilizei métodos e técnicas que valorizassem mais o aluno, estimulando-os a mostrar mais interesse nos conteúdos. Valorizei os pequenos esforços que apresentavam em cada aula, praticámos dois a três exercícios diários e cada estudante fez uma análise de tudo o que realizou ao longo do período. No final, conseguiram uma média de 95% — e alguns até 100%.
Ao longo do teu percurso, que sabedoria prática acumulaste sobre como manter qualidade e continuidade no trabalho quando tudo à volta parece mudar constantemente?
Cecília Severiano: Aprendi que o equilíbrio é muito importante na nossa área — nem sempre as coisas saem do nosso jeito. É preciso manter a calma e pensar com sabedoria para não responder aos problemas de forma precipitada. É preciso também procurar mecanismos que promovam paz psicológica e entender que a vida é feita de desafios — cada erro é uma oportunidade para o próximo acerto. Resiliência, foco, determinação e auto-capacitação constante.
Há algo que aprendeste fazendo — sobre o que funciona, sobre como os alunos aprendem, sobre como as comunidades respondem — que nenhum manual ou orientação oficial conseguiria ensinar-te?
Cecília Severiano: Sim. A minha experiência na educação ensinou-me que o processo educativo é uma entrega mútua — do professor e do aluno — porque os dois precisam de caminhar juntos para alcançar os objectivos de cada unidade temática. Para que isso aconteça, é importante mobilizar recursos e técnicas que permitam ao aluno identificar-se com os conteúdos, estabelecendo pontes entre questões científicas, quotidianas e sociais.
Quando os objectivos são bem trabalhados em sala de aula, o aluno consegue responder de forma positiva aos desafios da comunidade. Quando não são, as coisas tomam um rumo diferente. É nesta linha de pensamento que se centra a reacção das comunidades — farão o juízo do valor que o indivíduo tem em função da sua capacidade de ler, compreender e interpretar os factos sociais.
Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?
Cecília Severiano: Abordaria questões ligadas à criação, execução e enquadramento contextual das políticas educativas. Há uma série de factores que deviam ser repensados no nosso sistema — as políticas educativas visam responder aos problemas da educação de forma prática e contextual. Olharia para as medidas de fazer políticas para agentes activos e não passivos, porque a maior dificuldade está na inserção de uma política pensada na terceira pessoa, enquanto que aqueles que actuam directamente não têm muito espaço nas horas das decisões.
Quando olhas para o sector educativo, sentes que a tua experiência e o teu conhecimento prático têm peso nas decisões que se tomam? O que te faz sentir assim?
Cecília Severiano: Não. O que me leva a pensar assim é a realidade que vivo. Diz-se que se deve valorizar a voz do professor — mas é apenas discurso, porque a realidade é completamente diferente. O professor é aquele que recebe as políticas educativas traçadas por pessoas supostamente autorizadas, que fizeram formações em escolas especializadas em educação, mas cujas ideias parecem não ter enquadramento contextual quando confrontadas com a realidade. Por isso, sinto-me desvalorizada como professora ao não ter espaço para apresentar o meu contributo quanto às decisões sobre educação — principalmente no que respeita às metodologias e à sua aplicabilidade.
Que mulher considera uma referência inspiradora no seu caminho educativo e que aprendizagens leva dessa influência?
Cecília Severiano: A mulher que considero uma referência na educação é a professora, historiadora e investigadora portuguesa Maria Cândida Proença — uma mulher forte, determinada e muito inteligente. Dizia ela que a didáctica é uma disciplina onde se adquire a preparação teórica para depois aplicar no contexto de sala de aula, e que o professor deve saber que é uma ponte entre o aluno e o conhecimento. A aprendizagem que tiro dos seus escritos é a de considerar sempre a forma como faço para que os meus alunos percebam o que pretendo — um dos principais objectivos que devo ter em conta em cada autoavaliação.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Cecília Severiano: Desperta em mim coragem, força, motivação, respeito, resiliência e perseverança. Actualmente é um desafio muito grande fazer parte da educação — falo no verdadeiro sentido de ensinar por paixão e não por mera satisfação ou, como vulgarmente se diz, “ganha-pão”. É para mim desafiador ser uma mulher na educação, porque isso leva-me a crer que é a partir do que faço que a sociedade irá formar as bases de sustentabilidade e desenvolvimento.
Imagina que uma jovem mulher te procura porque está a começar na educação e sente-se esmagada pela instabilidade e pelas mudanças constantes. O que lhe dirias?
Cecília Severiano: Desejaria a ela força, coragem e determinação — porque nenhum trabalho é fácil, e ainda mais na educação. A cada dia poderás deparar-te com situações diferentes, umas mais difíceis do que outras. Mas não as olhes como um impedimento — olha para elas como uma oportunidade para crescer e desenvolver habilidades que parecem escondidas dentro de ti. Influencias todos os alunos que estão na tua turma — cabe a ti permitir que tenham uma visão de vencedora ou de perdedora sobre a tua pessoa. Como mulher e professora, já és vencedora — porque o título de professora é lembrado por gerações. Este é o teu dom. Só precisas de continuar a inspirar, com erros e acertos.
Também acreditas na força da educação? Descobre como participar e levar esta transformação mais longe.
A Cecília ensina História — e talvez por isso saiba melhor do que ninguém o que acontece quando as decisões são tomadas sem quem as vai viver. Chama-lhe “políticas pensadas na terceira pessoa“: orientações construídas longe da sala de aula, por pessoas supostamente autorizadas, que chegam ao professor como facto consumado. É uma crítica precisa, dita sem amargura — o que a torna ainda mais difícil de ignorar. O que me ficou desta conversa foi a forma como ela descreve o professor como ponte entre o aluno e o conhecimento — e como essa ponte só funciona quando quem a constrói tem voz no processo. A Cecília não se queixa do sistema em abstracto. Identifica onde falha, nomeia o que falta e recusa ocupar o lugar passivo que lhe foi “destinado“. Isso, por si só, já é uma forma de liderança.