Add Your Heading Text Here

Mais por descobrir...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Filter by Categories
ARTIGO
Artigo de Opinião
CRÓNICA
Crónica Narrativa
ENSAIO
Ensaio Comparado
Ensaio Crítico
Ensaio Reflexivo
ENTREVISTA
Entrevista Individual
Missão
Nas Lentes da Angola Aprende
Páginas do Saber
Vozes

DEUSA’H OLIVER

Do Luto à Missão: Uma Docente e Autora que Transformou a Dor em Propósito ao Servir as Crianças

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Deusa’h Oliver, docente de Educação Especial e Inclusiva, psicopedagoga e autora de seis obras sobre saúde mental no contexto familiar, social e de relacionamentos, a actuar em Luanda. Trabalha com terapia da fala, psicopedagogia, terapia ocupacional, terapia comportamental e escritoterapia — e está a concluir a licenciatura em Psicologia Clínica. Cria também conteúdo sobre saúde mental nas redes sociais.

Nesta entrevista, Deusa’h fala sobre a perda do pai que a levou ao hospital e, mais tarde, à Psicologia, sobre a paciente autista não verbal que a obrigou a reinventar-se — e sobre a convicção de que uma criança bem formada e bem amada é, inevitavelmente, um adulto de excelência.

O que a inspirou a escolher a formação em Psicologia e, mais tarde, a aprofundar os seus estudos em Pedagogia e Didáctica?

Deusa’h Oliver: Quando era mais nova, após a perda do meu pai, adoecia com frequência — e via muitas crianças e adolescentes no hospital e pensava: “Elas devem sentir-se tão sozinhas, tão incompreendidas. Gostaria tanto de poder dizer-lhes que não estão sozinhas.”

Depois de algum tempo, comecei a desenvolver luto patológico pela perda do meu pai. Os meus irmãos arranjaram-me duas psicólogas e uma psiquiatra — e isso mudou a minha vida. Foi nesse momento que decidi estudar Psicologia: para ajudar as pessoas como elas me ajudaram.

De que forma essa formação influenciou a sua decisão de trabalhar directamente com crianças?

Deusa’h Oliver: As crianças são a base da sociedade. Só se chegam a bons adultos quando se trabalha numa boa infância e adolescência — é aí que se molda a personalidade do futuro adulto. A Psicologia ensinou-me isso.

Ao longo da sua experiência como psicopedagoga e terapeuta, quais foram os maiores desafios encontrados no acompanhamento infantil?

Deusa’h Oliver: Inicialmente tive muitas dificuldades em trabalhar com crianças, por já estar muito habituada a trabalhar com adultos e por ter uma postura naturalmente mais séria. Não era muito de brincar — e não se trabalha com crianças sem aprender a sorrir e a brincar. Tive de aprender. Deixei para trás quem eu era e fui à procura da minha melhor versão para as minhas crianças.

Outra dificuldade que encontrei é a falta de continuidade das regras terapêuticas no seio familiar. Infelizmente, nem sempre os pais e os irmãos têm o mesmo cuidado — e enquanto damos dois passos para a frente na terapia, em casa a criança dá dois para trás, o que afecta o progresso.

Há alguma mudança de orientação que chegou ao teu trabalho e que te obrigou a repensar completamente a forma como fazias as coisas? Conta-nos essa história.

Deusa’h Oliver: Um dia recebi uma paciente de quatro anos — autista não verbal. E percebi que precisava de me capacitar muito mais do que pensava saber. Não por mim, mas pelas crianças. Desde então, estudo sobre fala e autismo sempre que posso — e desenvolvi um apreço especial pela terapia da fala.

Há algo que aprendeste fazendo — sobre o que funciona, sobre como os alunos aprendem, sobre como as comunidades respondem — que nenhum manual ou orientação oficial conseguiria ensinar-te?

Deusa’h Oliver: Aprendi que cada criança é uma criança. Umas aprendem com música, outras com desenho, outras com texto, outras com histórias e outras copiando. Nenhum manual consegue ensinar isso com a profundidade que o contacto directo ensina — porque o manual fala de crianças em geral, e eu trabalho com esta criança, neste momento, com esta história.

Ao longo do teu percurso, que sabedoria prática acumulaste sobre como manter qualidade e continuidade no trabalho quando tudo à volta parece mudar constantemente?

Deusa’h Oliver: Estudar todos os dias. Todos os santos dias. Os desafios são constantes e novos — e quanto mais estudamos, mais preparados estamos para responder. Foi o estudo diário que me permitiu receber uma criança autista não verbal sem a abandonar ao desconhecimento.

Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?

Deusa’h Oliver: O momento dos abraços com as crianças. Representa acolhimento e educação com amor.

Quando a liderança muda no topo e novas prioridades chegam, como é que isso se reflecte concretamente no teu trabalho com os alunos, famílias ou comunidade?

Deusa’h Oliver: Sinto que actualmente a liderança tem tantas coisas por fazer que não consegue dar a devida supervisão às terapeutas e professoras — e isso coloca em causa o desempenho da criança e a satisfação dos pais. Infelizmente, nem todas têm a mesma dedicação que colocam no currículo dentro da sala de aula ou da terapia.

Já viveste aquele momento em que uma nova directriz te pedia algo que sabias ser impossível nas condições reais do teu trabalho? Como resolveste?

Deusa’h Oliver: Já. Foi-me dada a orientação de não usar lápis com uma criança que estava a aprender a escrever — e de trabalhar uma competência para a qual eu ainda não tinha capacidade académica. Dei o meu melhor para conseguir, mas no final expliquei que seria extremamente difícil e que seria necessário encontrar outra pessoa. Nem sempre podemos fazer tudo — e reconhecer isso também é responsabilidade profissional.

Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação especial em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?

Deusa’h Oliver: Que não importa o quanto se teorize que a inclusão é necessária — tem de se implementar acção. Devemos olhar para os alunos como se fossem nossos filhos, e não apenas como fonte de renda.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?

Deusa’h Oliver: Propósito. Lembra-me que tenho um papel importantíssimo na formação da sociedade — e que esse papel começa muito antes de qualquer política ou directriz. Começa no momento em que abraço uma criança e lhe digo, sem palavras, que não está sozinha.

Imagina que uma jovem mulher te procura porque está a começar na Psicoeducação e sente-se esmagada pela instabilidade e pelas mudanças constantes. O que lhe dirias?

Deusa’h Oliver: Não pares. Capacita-te e ganha o teu espaço. Por mais desfavoráveis que sejam as oportunidades, se tiveres conhecimento, consegues criar oportunidades.

E mais: não basta ter conhecimento — sabe usá-lo e mostrá-lo. Cria conteúdos, escreve, dá psicoterapias voluntárias, cobra valores simbólicos para começar. Constrói prova social da tua qualidade. E aprende a comunicar — fala e escreve bem, porque isso reflecte a imagem que as pessoas terão de ti e, consequentemente, o respeito que terão pelo teu trabalho. Não devia ser assim — mas é.

Também acreditas na força da educação? Descobre como participar e levar esta transformação mais longe.

Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
Inline Feedbacks
View all comments
Inspire alguém hoje — partilhe este conteúdo com a tua rede!