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CAFUCHI MANUELA CAPASSO
Quando o Comportamento é um Pedido de Ajuda: Psicologia, Terapia da Fala e a Urgência de Equipar as Escolas
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Cafuchi Manuela Capasso, psicóloga clínica e terapeuta da fala, a actuar em Luanda. Com uma abordagem humanizada, centrada na escuta activa e no respeito pela singularidade de cada pessoa, dedica a sua prática ao acompanhamento de crianças, adolescentes e famílias — com particular atenção às dificuldades emocionais, comportamentais e comunicativas que interferem no percurso escolar.
Nesta entrevista, Cafuchi fala sobre o que se esconde por trás do comportamento “difícil”, sobre o que acontece quando o apoio chega tarde demais, e sobre a mudança estrutural que considera inegociável: equipas permanentes de apoio psicológico e terapêutico em todas as escolas.
No acompanhamento clínico de crianças e adolescentes, que dificuldades emocionais ou de comunicação aparecem com maior frequência e acabam por interferir directamente no percurso escolar?
Cafuchi Capasso: As dificuldades mais frequentes são de natureza emocional, comportamental e comunicacional. Destacam-se a ansiedade, a baixa autoestima, as dificuldades de atenção e regulação emocional, bem como os problemas de linguagem e de competências sociais. Estas questões podem comprometer a concentração, a participação em sala de aula e o relacionamento com colegas e professores — e, consequentemente, o processo de aprendizagem. Por isso, é fundamental uma intervenção integrada entre família, escola e acompanhamento clínico, visando o desenvolvimento global da criança.
Quando uma criança chega até si com queixas de baixo rendimento ou comportamento considerado “difícil”, o que costuma descobrir ao aprofundar a escuta? Que sinais lhe indicam que o problema pode não ser apenas académico?
Cafuchi Capasso: Ao aprofundar a escuta, surgem frequentemente factores emocionais, familiares ou sociais — ansiedade, insegurança, dificuldades de adaptação, conflitos em casa ou experiências de rejeição entre pares. Os sinais de alerta incluem alterações de humor, isolamento, irritabilidade, baixa autoestima, dificuldade em expressar emoções, regressões comportamentais ou sintomas físicos sem causa médica aparente. Esses indicadores revelam que o comportamento é, muitas vezes, uma forma de comunicar sofrimento — e não apenas um problema de aprendizagem.
Há indicadores subtis — na forma como fala, no silêncio que mantém, na postura ou na forma como reage à autoridade — que lhe revelam que aquela criança não se sente emocionalmente segura no ambiente escolar?
Cafuchi Capasso: Sim. A forma como fala — com receio, insegurança ou medo de errar — ou, pelo contrário, um silêncio excessivo e dificuldade em expressar-se, são sinais reveladores. A postura corporal também comunica: crianças muito tensas, retraídas, inquietas ou constantemente em alerta podem estar em sofrimento emocional. As reacções à autoridade — seja por submissão excessiva ou oposição intensa — podem igualmente indicar insegurança ou experiências negativas no ambiente escolar.
Na prática, existe um processo estruturado de identificação e encaminhamento dessas crianças dentro das escolas, ou tudo depende da sensibilidade individual de um professor ou da percepção da família?
Cafuchi Capasso: Na prática, isso varia bastante de escola para escola. Algumas instituições possuem mecanismos mais estruturados de observação, registo e encaminhamento, envolvendo equipas pedagógicas e comunicação com a família. No entanto, em muitos contextos, a identificação ainda depende muito da sensibilidade e experiência individual do professor ou da percepção dos cuidadores. Isso significa que algumas crianças são encaminhadas precocemente, enquanto outras só recebem apoio quando as dificuldades já estão mais evidentes — o que reforça a importância da formação dos profissionais da educação e da parceria activa entre escola e família.
Pensando no percurso até ao seu consultório: como geralmente se inicia o caminho de uma criança até à terapia da fala ou ao acompanhamento psicológico? A escola identifica e encaminha, ou a iniciativa parte sobretudo da família?
Cafuchi Capasso: O percurso pode iniciar-se de formas diferentes. Em muitos casos, a escola é a primeira a identificar dificuldades de aprendizagem, comunicação ou comportamento e orienta a família a procurar avaliação especializada. No entanto, é também comum que seja a própria família a perceber os sinais no dia a dia — atrasos na fala, dificuldades de socialização, alterações emocionais ou baixo rendimento escolar — e a tomar a iniciativa de procurar ajuda.
Já acompanhou situações em que a necessidade de intervenção era evidente, mas não existia um mecanismo institucional capaz de garantir esse apoio? Como essas histórias costumam terminar?
Cafuchi Capasso: Sim, infelizmente já acompanhei essas situações. O percurso torna-se mais desafiante: algumas famílias conseguem mobilizar recursos e procurar apoio externo, o que permite uma intervenção eficaz, ainda que com atraso. Noutras situações, a ausência de suporte adequado leva à intensificação das dificuldades, com impacto no rendimento escolar, na autoestima e no bem-estar emocional da criança.
Quando o acompanhamento começa apenas depois de meses — ou anos — de dificuldades não resolvidas, que impactos observa no desenvolvimento emocional e na aprendizagem da criança?
Cafuchi Capasso: É comum observar impactos mais profundos: sentimentos de frustração, baixa autoestima, desmotivação e, em alguns casos, ansiedade ou rejeição ao contexto escolar. Do ponto de vista académico, podem consolidar-se lacunas na aprendizagem, tornando o processo de recuperação mais lento e exigente. A criança pode também desenvolver crenças negativas sobre si própria — a ideia de que “não é capaz” ou “não consegue aprender”.
Em contextos escolares marcados por mudanças frequentes — de professores, regras ou direcções — como se manifesta a ansiedade nas crianças? Isso aparece no comportamento? Na comunicação? No rendimento?
Cafuchi Capasso: A ansiedade pode manifestar-se de várias formas. No comportamento, é comum observar maior irritabilidade, inquietação, dificuldade em adaptar-se a novas rotinas ou regressões — como dependência excessiva de adultos. Na comunicação, algumas crianças tornam-se mais silenciosas e inseguras para participar, enquanto outras expressam frustração de forma mais impulsiva. No rendimento escolar, a ansiedade afecta a concentração, a memória e a motivação, resultando em queda no desempenho académico.
E quando a escola não dispõe de apoio psicológico ou terapêutico contínuo, que efeitos isso tem não apenas na criança, mas também no professor e no ambiente da sala de aula?
Cafuchi Capasso: Os impactos vão além da criança e reflectem-se em todo o ambiente escolar. A criança pode permanecer com dificuldades sem o suporte necessário, agravando o sofrimento e comprometendo o seu percurso académico e social. Para o professor, a ausência de apoio especializado gera sobrecarga, frustração e sensação de impotência — sobretudo quando precisa gerir situações complexas sem formação específica. Isso afecta a dinâmica da sala de aula e reduz o tempo disponível para o ensino.
Sente que os professores estão suficientemente preparados para identificar sinais precoces de dificuldades emocionais ou de comunicação? Onde percebe maior fragilidade?
Cafuchi Capasso: Muitos professores demonstram grande sensibilidade e dedicação, mas a preparação formal para identificar sinais precoces é, em geral, limitada. A maior fragilidade está na detecção de sinais subtis — alterações emocionais discretas, retraimento, ansiedade silenciosa ou dificuldades de expressão — e na articulação com recursos especializados. Sem apoio contínuo de psicólogos ou terapeutas, o professor fica sobrecarregado e sem instrumentos claros para agir de forma eficaz.
Se pudesse propor uma mudança concreta ao sistema educativo angolano para proteger melhor crianças com necessidades emocionais e comunicacionais, qual seria a primeira estrutura que deveria existir?
Cafuchi Capasso: A primeira estrutura essencial seria a criação de equipas de apoio psicológico e terapêutico permanentes nas escolas — compostas por psicólogos, terapeutas da fala e outros especialistas em desenvolvimento infantil. Estas equipas teriam a função de apoiar professores, identificar precocemente sinais de dificuldades, fornecer intervenções dirigidas e colaborar com as famílias, criando um sistema integrado de protecção e acompanhamento. Uma estrutura deste tipo garantiria intervenção atempada, reduziria impactos negativos no desenvolvimento da criança e fortaleceria o ambiente escolar como um todo.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que esta afirmação desperta em si enquanto profissional que acompanha, diariamente, as consequências dessas lacunas estruturais?
Cafuchi Capasso: Esta afirmação evidencia a coragem, o compromisso e a resiliência de quem actua na educação, muitas vezes enfrentando lacunas estruturais significativas. Desperta-me a consciência de que, embora haja dedicação e vontade de apoiar, a ausência de formação específica e de mecanismos de suporte limita a intervenção precoce. É um lembrete da importância de equipar os educadores com ferramentas, formação e recursos para que possam proteger e apoiar de forma efectiva as crianças — sobretudo aquelas com necessidades emocionais ou comunicacionais.
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