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Ahetu mu Kulonga
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Sandra Muinga

O Polvo e os seus Tentáculos: Ciências Criminais, Educação Comunitária e a Convicção de que Toda a Criança tem Tudo para ser Quadro

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Sandra Manuel Muinga, licenciada em Ciências Criminais pelo Instituto Superior Politécnico de Ciências e Tecnologia e professora comunitária na Associação Clube de Leitura Umoxi, em Luanda, onde acompanha crianças em alfabetização e reforço escolar. O seu percurso é singular: formada numa área que investiga crimes e comportamentos, escolheu dedicar o seu tempo a crianças de lares desestruturados, num bairro onde a superlotação das salas nas escolas públicas e a elevada taxa de mensalidade nas escolas privadas se têm tornado um desafio crescente no processo de ensino e aprendizagem.

Nesta entrevista, Sandra fala sobre o que é ensinar quando os recursos são escassos mas a vontade não — sobre a criança que não sabia copiar e passou a soletrar, sobre o cineUMOXI às sextas-feiras, e sobre a convicção de que toda a criança tem tudo para ser quadro, longe dos estigmas e das influências negativas.

Trabalhas como professora comunitária na Associação Clube de Leitura Umoxi, acompanhando crianças em alfabetização e reforço escolar. O que te levou a assumir esse compromisso com a educação na tua comunidade?

Sandra Muinga: A princípio comecei por iniciativa da Isabel — minha irmã e presidente da Associação Clube de Leitura Umoxi — mas fui ganhando gosto pela profissão e satisfação em ver o desenvolvimento das crianças que noutro tempo apresentavam dificuldades em transcrever as matérias do quadro para o caderno e a soletrar o que lhes era leccionado.

Conduzir diariamente grupos mistos com cerca de 40 alunos durante duas horas exige muita energia e organização. Como estruturas a tua rotina para conseguir dar atenção a tantos alunos ao mesmo tempo?

Sandra Muinga: Para conseguir dar atenção a todos, reparto as turmas em dois turnos e separo-as de acordo com o grau de entendimento. No primeiro turno temos os alunos da iniciação até à 2.ª classe; no segundo turno, os alunos da 3.ª e 4.ª classe.

Num grupo com níveis diferentes de aprendizagem, qual é o maior desafio que enfrentas no dia a dia?

Sandra Muinga: O maior desafio está em desdobrar-me nas matérias — principalmente no primeiro turno. Tenho de transcrever as matérias para as crianças da iniciação no caderno, colocar a matéria no quadro para os meninos da 1.ª classe e, posteriormente, para os da 2.ª classe. Depois explicar as mesmas tem sido uma coisa doida.

Quando tens crianças que ainda estão a dar os primeiros passos na leitura ao lado de outras que já leem com mais fluidez, como equilibras o acompanhamento de todas?

Sandra Muinga: Quando tenho crianças em níveis diferentes na mesma sala, equilibro o acompanhamento separando-as de acordo com o nível de entendimento de cada uma.

Na tua prática, o que consideras essencial para que uma criança consolide verdadeiramente a leitura e a escrita?

Sandra Muinga: O essencial está no conhecimento dos sons — porque é a base de tudo. As palavras são formadas pelos sons, as frases são formadas pelas palavras. Então, tudo está centralizado no conhecimento dos sons.

Há algum momento em sala que te tenha feito perceber que o esforço diário está realmente a transformar a vida de uma criança?

Sandra Muinga: Há sim — quando a criança mostra desenvolvimento. Quando aquela que noutro tempo não sabia copiar começa a copiar, quando aquela que não sabia ler começa a soletrar, isso enche-me de satisfação e vejo que realmente vale a pena todo o meu esforço.

Muitas das crianças que frequentam o reforço escolar já passaram pelo ensino regular. O que observas sobre as dificuldades que elas trazem consigo?

Sandra Muinga: As maiores dificuldades que observo nas crianças que já passaram pelo ensino regular centram-se sobretudo na leitura — mais especificamente na soletração dos sons e das palavras.

Que características do trabalho comunitário consideras mais determinantes para que a aprendizagem aconteça de forma consistente?

Sandra Muinga: A característica que considero mais determinante para que a aprendizagem aconteça de forma consistente no trabalho comunitário é a cooperação dos encarregados de educação com o professor.

O trabalho comunitário muitas vezes acontece com recursos limitados. Como manténs a motivação e a qualidade do ensino mesmo nessas condições?

Sandra Muinga: Empregamos actividades lúdicas para sairmos da rotina e motivar as crianças, empregamos oficinas infantis — e agora empregamos o cineUMOXI, sessões de cinema todas as sextas-feiras.

Ao longo do tempo, o que este contacto directo com as crianças te ensinou sobre a realidade da educação no teu bairro ou na tua comunidade?

Sandra Muinga: Este percurso revelou-me muito. Aprendi — e isso é valioso — que a educação na minha comunidade constantemente se mostra incapaz de realizar na sua plenitude um plano de escolarização eficiente. Infelizmente, tomei também conhecimento de que a superlotação das salas nas escolas públicas e a elevada taxa de mensalidade nas escolas privadas dificultam o acesso de muitas crianças ao ensino — o que contribui para que diversos alunos não sejam devidamente acompanhados.

Se pudesses partilhar uma mensagem com quem define políticas educativas no país, o que gostarias que compreendessem sobre o que acontece nas salas comunitárias como a tua?

Sandra Muinga: Que as crianças possuem imenso potencial. É necessário, mais do que nunca, que se comece a virar a atenção para o ensino primário — em especial em zonas precárias e de baixo acesso escolar.

Alguns dos meus alunos vêm de lares desestruturados ou disfuncionais, o que se torna um desafio permanente — pois além de educadora sou igualmente mãe, melhor amiga e até assessora de psicologia. Nas nossas salas decorrem queixas, brigas e conflitos entre os meninos — alguns como se fosse normal — porque já trazem de casa problemas de todo o tipo e tendem a descontá-los nos colegas.

Contudo, sou ainda capaz de ver que eles têm tudo para ser quadros, longe de estigmas e influências negativas.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que esta afirmação significa para ti enquanto professora comunitária?

Sandra Muinga: Significa que possuo um papel crucial na vida das minhas crianças. Às vezes imagino que sou um enorme polvo e que os meus alunos representam cada tentáculo que possuo — temos uma relação de interdependência e aprendizagem que nos une e nos torna especiais, símbolo de pragmatismo.

Sou mulher na educação porque vejo dentro dos meus petizes o que mais ninguém vê. Amo-os por igual e interesso-me pelas suas vidas tão frágeis e susceptíveis a tudo. Se sou mulher, mãe, tia e educadora por possuir um coração capaz de albergar cada menino? Sim. Sou a perfeita combinação entre ensino, afecto, amor e amizade. Como dizia São Marcelino Champagnat: “Para educar uma criança devemos, antes de tudo, amá-la.”

Enfim, sou UMOXI — única.

Também acreditas na força da educação? Clica no botão e descobre como participar na campanha e levar esta transformação mais longe.

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Belza Getsêmani
Belza Getsêmani
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16 de Março, 2026 16:38

Amei a entrevista! 👏👏👏 Nossa professora! 📚🇦🇴✨

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