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ALDA KASSUMBA

De Paraquedas na Educação — e Sem Vontade de Sair

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Alda Kassumba, voluntária no projecto de Alfabetização do PMI Angola. Licenciada em Contabilidade e Finanças, entrou na educação no último ano da licenciatura, quase por acaso, e descobriu que ensinar é também aprender — sobre paciência, liderança, gestão de projectos e o valor de respeitar o ritmo de cada criança.

Nesta entrevista, Alda fala sobre o que encontrou nas salas de aula onde nenhum manual a preparou para entrar, sobre a aluna que quase não conseguia escrever e que aprendeu a ler, e sobre a convicção de que é com bases sólidas que se constrói o futuro da educação.

A tua formação é em Contabilidade e Finanças, mas hoje tens uma presença activa em projectos educativos e de alfabetização. Como aconteceu essa aproximação à educação?

Alda Kassumba: Foi como cair de paraquedas neste campo (risos). Na verdade, não aconteceu de forma premeditada: estava no último ano da licenciatura, à espera da data de defesa, e sempre tive vontade de fazer voluntariado em alguma área. Um dia, surgiu no LinkedIn uma oportunidade como professora de alfabetização. Não tinha experiência, nem uma paixão especial por leccionar, mas quando soube que seria para ensinar um grupo de crianças vulneráveis, interessei-me de imediato. A ideia de poder ajudar quem realmente precisava encheu o meu coração.

Desde então, aproximei-me da educação e percebi que, mais do que ensinar, aprendi muito com aquelas crianças. Vi-me reflectida em algumas delas e aprendi a gerir uma sala de aula com poucos recursos, muitas vezes na base do improviso, já que não tinha conhecimento de metodologias de ensino ou didáctica. Com o tempo, fui adquirindo experiência e continuo a aprender — não só sobre como ensinar, mas também sobre paciência, resolução de conflitos, liderança e crescimento pessoal. Reconheço que, por vezes, sou severa, mas ser professora voluntária numa comunidade com tantas necessidades exige, em certos momentos, ter pulso firme.

No trabalho com crianças em processo de alfabetização, que dificuldades concretas tens encontrado — e o que essas dificuldades revelam sobre o percurso escolar anterior dessas crianças?

Alda Kassumba: Trabalho com crianças que nunca foram à escola e vivem em situação de extrema vulnerabilidade. Muitas têm dificuldade nas coisas mais básicas — reconhecer letras, segurar correctamente o lápis ou manter a atenção por muito tempo. Algumas demonstram insegurança, medo de errar ou dificuldade em seguir pequenas rotinas.

Acredito que isso revela que não tiveram muito contacto com livros, histórias ou actividades educativas, e que muitas vezes também não tiveram uma rotina estruturada. Dá para perceber que não é falta de capacidade — é falta de oportunidade e estímulo.

Como voluntária, trabalho muito com histórias simples. Ainda estou a aprender sobre metodologias, mas procuro observar cada criança e adaptar as actividades conforme o que percebo que funciona melhor para ela.

Houve algum momento específico em que percebeste que uma criança estava a superar uma dificuldade que parecia persistente? O que aconteceu e como te sentiste nesse processo?

Alda Kassumba: Sim, houve um caso que me marcou bastante. Era uma aluna mais velha do que as outras, com muitas dificuldades motoras — as mãos tremiam muito e ela quase não conseguia escrever. Não sei exactamente qual era a condição de saúde dela, mas era visível que era algo que a limitava bastante.

A família já tinha procurado outras alternativas sem resultados. Ela acabou por integrar o projecto e, no início, parecia um desafio muito grande. A escrita era muito difícil para ela, e isso afectava também a sua confiança.

Com muita paciência, com o apoio de todos os professores envolvidos e, sobretudo, com o esforço e a persistência dela, foi evoluindo aos poucos. No final, conseguiu aprender a ler — o que foi uma conquista enorme.

Para mim, foi um momento muito emocionante. Percebi que, mesmo quando as dificuldades parecem grandes, com apoio, inclusão e perseverança é possível alcançar resultados. Foi uma experiência que reforçou a minha crença na importância de não desistir das pessoas.

O que aprendeste, na prática, sobre como as crianças realmente aprendem a ler e escrever — algo que não se compreende apenas através da teoria?

Alda Kassumba: Na prática, aprendi que aprender a ler e escrever vai muito além de juntar letras. Antes desta experiência, pensava que era sobretudo uma questão de explicar bem e treinar bastante. Mas percebi que cada criança tem o seu próprio ritmo e que o processo envolve também confiança, segurança e motivação.

Aprendi que muitas vezes a maior barreira não é a dificuldade em si, mas o medo de errar ou a sensação de “não sou capaz”. Quando a criança começa a acreditar que consegue, o progresso acontece de forma mais natural.

Também percebi que repetir da mesma forma nem sempre funciona. Às vezes é preciso mudar a abordagem — usar jogos, histórias, músicas ou até conversas simples — e, de repente, algo faz sentido para ela.

Foi na prática que entendi que ensinar a ler e escrever é muito sobre paciência, vínculo e persistência. A teoria é importante, mas é no contacto directo com a criança que percebemos que aprender é um processo muito humano e individual.

Sendo a educação uma área diferente da tua formação inicial, como procuras actualizar-te, acompanhar novas metodologias e garantir que o teu trabalho continua a evoluir?

Alda Kassumba: Por não ter formação inicial em educação, procuro sempre aprender na prática e com professores mais experientes. A minha primeira escola foram as próprias crianças: observar como reagem, compreender as suas dificuldades e perceber quais os métodos que funcionam melhor ajudou-me a crescer muito. Antes de iniciar cada nova fase do projecto, participo em formações conduzidas por profissionais especializados em metodologias de ensino, o que me dá bases mais sólidas. Além disso, procuro individualmente respostas para as minhas dúvidas através de pesquisa e estudo. Para mim, actualizar-me significa estar sempre aberta a aprender — seja pela experiência directa, pela partilha com outros educadores ou pelos recursos disponíveis.

Que competências da tua formação em Contabilidade e Finanças acabaram por revelar-se úteis no trabalho educativo que desenvolves?

Alda Kassumba: Algumas coisas que aprendi em Contabilidade e Finanças acabaram por ser úteis no trabalho educativo. Quando fiquei responsável pela logística, usei esses conhecimentos para organizar a recepção dos materiais didácticos doados, fazer a distribuição para os alunos e criar uma base de dados para controlar a entrada e saída dos materiais. Isso ajudou a manter tudo mais organizado e transparente. Além disso, a noção de planeamento e organização que trouxe da minha formação também me apoia no dia a dia, mesmo que de forma simples.

Ao trabalhar com crianças que apresentam lacunas na aprendizagem, como equilibras a exigência com a paciência e o incentivo?

Alda Kassumba: Procuramos respeitar o ritmo de cada criança. Como este é um projecto social, não existe uma exigência rígida de cumprir calendário. Temos metas, sim, mas é importante reconhecer as dificuldades individuais e dar espaço para que cada criança avance no seu tempo. É verdade que algumas não conseguem atingir a meta de ler e escrever até ao fim do projecto — mas para essas existe uma fase seguinte, onde continuam a receber apoio numa nova edição. Tentamos equilibrar a exigência com paciência e incentivo, sem deixar ninguém para trás.

Tendo trabalhado directamente na Angola Aprende, que aprendizagens levas dessa experiência sobre o impacto que iniciativas independentes podem ter na educação?

Alda Kassumba: Trabalhando directamente na Angola Aprende, percebi que iniciativas independentes podem ter um impacto muito forte na educação. Mesmo sem muitos recursos, conseguimos criar oportunidades para quem nunca teve acesso à escola. Cada pequena conquista — aprender a escrever o próprio nome, ler uma frase — mostra que a dedicação faz diferença. Estas iniciativas chegam onde o sistema formal muitas vezes não consegue, e ajudam a transformar vidas de forma próxima da comunidade.

O que é mais desafiante no dia a dia da alfabetização: manter a motivação das crianças, lidar com limitações de recursos ou acompanhar ritmos de aprendizagem diferentes?

Alda Kassumba: O mais desafiante é acompanhar os ritmos diferentes de cada criança e, ao mesmo tempo, manter a motivação. Como cada uma aprende no seu tempo, é preciso ter paciência e dar incentivo constante. Muitas vezes, algumas acabam por desistir — e isso mostra como é importante criar um ambiente de apoio, onde se sintam valorizadas e motivadas a continuar. O equilíbrio está em respeitar as dificuldades sem deixar de acreditar no potencial de cada uma.

O contacto directo com estas realidades mudou a forma como olhas para o sistema educativo angolano? Em que sentido?

Alda Kassumba: Sim, alterou profundamente a forma como compreendo o sistema educativo angolano. Percebi que, apesar dos esforços existentes, ainda há muitas crianças e adultos excluídos que precisam de apoio adicional. Esta experiência mostrou-me que o sistema formal, por si só, não consegue alcançar todos — e que iniciativas independentes e comunitárias desempenham um papel essencial ao complementar e expandir o acesso à educação. Hoje, encaro a educação com maior consciência das dificuldades estruturais, mas também com a convicção de que pequenas acções, realizadas com dedicação, podem gerar impactos significativos e transformar vidas.

Se pudesses partilhar uma reflexão com quem define políticas educativas no país, o que gostarias que compreendessem melhor sobre as primeiras etapas da aprendizagem?

Alda Kassumba: Gostaria que compreendessem que as primeiras etapas da aprendizagem exigem tempo, paciência e respeito pelo ritmo de cada criança. Nem todas avançam da mesma forma, e muitas vezes pequenas conquistas — aprender a escrever o próprio nome, reconhecer palavras simples — já representam grandes passos. É fundamental que as políticas valorizem esse processo inicial, sem pressão excessiva de calendário, e que garantam apoio contínuo para que nenhuma criança fique para trás. Tal como numa construção, é com um bom alicerce que se define o acabamento — na educação, são as bases sólidas da aprendizagem que determinam a qualidade e a consistência de todo o percurso educativo.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que esta afirmação significa para ti, considerando o teu percurso e o trabalho que desenvolves?

Alda Kassumba: O meu percurso mostrou-me que, mesmo em contextos com limitações, é possível criar oportunidades e abrir caminhos. Tal como numa estrutura, é com um bom alicerce que se define o acabamento — na educação, esse alicerce são as bases sólidas que nós, mulheres, ajudamos a construir com cada gesto e cada conquista.

Ser mulher na educação é assumir responsabilidades que exigem paciência, dedicação e resiliência — mas também trazer sensibilidade e proximidade às crianças.

Também acreditas na força da educação? Descobre como participar e levar esta transformação mais longe.

Continue a Inspirar-se com Ahetu que Fortalecem a Educação em Angola

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