Add Your Heading Text Here

Mais por descobrir...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Filter by Categories
ARTIGO
Artigo de Opinião
CRÓNICA
Crónica Narrativa
ENSAIO
Ensaio Comparado
Ensaio Crítico
Ensaio Reflexivo
ENTREVISTA
Entrevista Individual
Missão
Nas Lentes da Angola Aprende
Páginas do Saber
Vozes

DENISE CURADO

Será que as Pessoas Deixaram de ser Humanas? Uma Psicóloga em Busca de Respostas na Escola, no Consultório e nas Empresas

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Denise Curado, psicóloga clínica e especialista em Necessidades Educativas Especiais e Educação Inclusiva, pelo Instituto Português de Psicologia. Vinculada ao Colégio São Francisco de Assis em Luanda, constrói uma trajectória plural que atravessa o consultório, a escola e as empresas, movida por uma questão que não consegue ignorar: o que acontece às pessoas quando o mundo do trabalho esquece que elas são humanas.

Nesta entrevista, Denise fala sobre a saúde mental nas escolas, sobre o esgotamento emocional que vê crescer nos seus pacientes, sobre o programa de bem-estar corporativo que criou — e sobre o que significa, para ela, ser mulher que cria, cuida, intervém e empreende com objectivo firme.

És psicóloga clínica de formação e tens construído uma trajectória plural — clínica, educacional e empresarial. Em que momento percebeste que o teu percurso precisaria de atravessar diferentes contextos, em vez de se limitar a um só?

Denise Curado: Desde o início do meu percurso académico e profissional na área da psicologia, o meu interesse sempre foi vasto e diversificado. Mantive-me constantemente em busca de novos conhecimentos e rapidamente percebia as diferentes necessidades que surgiam nos variados contextos da psicologia. Essa consciência despertou em mim o desejo contínuo de actuar e contribuir de forma significativa em cada um desses cenários.

O que te trouxe especificamente para o contexto escolar e o que te mantém nele, apesar das mudanças constantes no sector educativo?

Denise Curado: Acredito que a educação é a base de todo o desenvolvimento humano — é onde tudo começa. Ao longo da minha experiência, percebi que ao identificarmos as dificuldades e os desafios enfrentados por alunos e famílias, conseguimos criar condições que favorecem não apenas o sucesso escolar, mas também o crescimento pessoal. O meu objectivo é contribuir para que estas crianças e adolescentes se tornem adultos mais resilientes, equilibrados e felizes, capazes de enfrentar os desafios da vida com confiança.

Afirmas ser movida por uma curiosidade vibrante. De que forma essa curiosidade molda a tua escuta e a tua intervenção junto de alunos, famílias e equipas?

Denise Curado: A minha curiosidade está intimamente ligada à criatividade, que considero uma ferramenta essencial no meu trabalho. Ao realizar uma escuta atenta e genuína, é possível identificar não apenas dificuldades e resistências, mas também os desafios quotidianos enfrentados por alunos e famílias. Nesse processo, a curiosidade incentiva a pesquisa e a criatividade torna-se um recurso fundamental — permitindo-me desenvolver intervenções mais eficazes, sair de padrões convencionais e alcançar resultados significativos.

Num contexto de liderança móvel, onde prioridades e orientações mudam com frequência, como essas mudanças chegam — directa ou indirectamente — ao teu trabalho como psicóloga em ambiente escolar?

Denise Curado: Procuro sempre manter o foco nos objectivos definidos e garantir que cada decisão ou ajuste realizado esteja alinhado com o objectivo do trabalho. Em simultâneo, tento sempre assegurar que nenhuma alteração comprometa o bem-estar dos alunos.

Já enfrentaste situações em que decisões institucionais entraram em tensão com aquilo que sabias ser emocionalmente necessário para um aluno ou colaborador? Como navegaste esse espaço?

Denise Curado: Sim, foi um momento bastante desafiador — é necessário conciliar os interesses de todas as partes envolvidas. No entanto, nem sempre é possível seguir exactamente o caminho que acreditamos ser o mais benéfico, já que as decisões dependem de um grupo e exigem consenso. Nessas situações, procuro manter uma postura colaborativa e construtiva, para que o processo seja o mais equilibrado possível e o bem-estar do aluno ou colaborador permaneça como prioridade.

Fala-se cada vez mais de inclusão e saúde mental nas escolas. Na prática, o que ainda falta para que esses pilares deixem de ser discurso e se tornem cultura institucional?

Denise Curado: Acredito que é urgente a implementação de políticas e práticas que promovam a inclusão no seu verdadeiro sentido. A comunidade educativa necessita de formação contínua para identificar as dificuldades e particularidades de cada aluno, tanto dentro como fora da sala de aula. É fundamental que os profissionais saibam agir de forma adequada, para garantir o desenvolvimento integral e o sucesso académico — sem esquecer que cada indivíduo é único e merece uma abordagem personalizada.

Criaste um projecto próprio voltado para saúde e bem-estar nas empresas. Que experiência concreta te levou a sentir que esse projecto precisava de existir?

Denise Curado: Durante a minha prática clínica em consultório, ao longo dos últimos cinco anos, tenho observado um número crescente de pessoas — homens e mulheres — emocionalmente esgotadas devido ao ritmo de vida que levam. Posso afirmar que, em cerca de 80% dos casos, a origem está no ambiente de trabalho: níveis de exigência extremamente elevados, metas quase impossíveis de atingir no curto prazo e uma competitividade intensa dentro das empresas. Muitos trabalham mais de oito horas por dia e sentem-se pouco ou nada valorizados. Parece ter ficado esquecido que o colaborador também necessita de tempo para si, para cuidar das suas diversas necessidades. Foi nesse contexto que comecei a questionar-me sobre o que realmente se passa dentro das organizações. Será que as pessoas deixaram de ser humanas?

O que diferencia o teu programa de bem-estar de outras abordagens corporativas — e que transformação real já conseguiste observar?

Denise Curado: O meu programa é ainda recente e, por isso, não tive oportunidade de o aplicar na íntegra. No entanto, já colaborei com algumas empresas através de palestras e consultas de psicologia dirigidas aos colaboradores. O objectivo central do programa é identificar as reais necessidades da organização — compreender o que está efectivamente a afectar a saúde emocional das pessoas. Após essa identificação, é elaborado um plano individualizado e ajustado às necessidades específicas de cada contexto.

Acreditas que a felicidade pode — e deve — habitar o mundo corporativo. Estamos a preparar os alunos para ambientes de trabalho emocionalmente saudáveis ou apenas para produtividade?

Denise Curado: Actualmente, tenho observado uma crescente preocupação a nível mundial relativamente à criação de ambientes corporativos mais saudáveis. Este movimento reflecte o desejo das pessoas se sentirem bem no local de trabalho — poderíamos até dizer felizes, uma vez que a felicidade está directamente associada ao bem-estar. Posso afirmar que estamos a caminhar no sentido de preparar e formar alunos para integrarem ambientes de trabalho emocionalmente equilibrados e saudáveis. No entanto, é importante reconhecer que se trata de um processo gradual, e qualquer mudança significativa exige tempo e dedicação.

Ao transitares entre escola e empresa, que aprendizagens de um contexto iluminam o outro?

Denise Curado: “Criamos o nosso futuro” — a escola é a semente, o futuro é o que estas crianças e alunos irão colher.

Se estivesses sentada numa mesa nacional de decisão sobre educação em Angola, que mudança defenderias como inegociável?

Denise Curado: Acredito que todas as crianças devem ter acesso ao material escolar essencial — manuais, cadernos e condições adequadas para estudar. Paralelamente, considero fundamental investir na formação contínua da equipa docente, para que os professores estejam preparados para responder às necessidades dos alunos e promover um ambiente educativo inclusivo e de qualidade.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que esta afirmação desperta em ti enquanto profissional que cria, cuida, intervém e empreende?

Denise Curado: Para mim significa criar, cuidar, intervir e empreender com objectivo firme. É assumir o compromisso de transformar vidas, reconhecer o valor humano em cada aluno e contribuir para um futuro mais justo e inclusivo.

Também acreditas na força da educação? Descobre como participar e levar esta transformação mais longe.

Continue a Inspirar-se com Ahetu que Fortalecem a Educação em Angola

Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
Inline Feedbacks
View all comments
Inspire alguém hoje — partilhe este conteúdo com a tua rede!