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ISABEL MUINGA
Ser Médica em Angola: o Percurso, a Prática e a Aprendizagem Contínua
No contexto do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, assinalado a 11 de Fevereiro, a Angola Aprende conversou com Isabel Muinga, médica interna de especialidade em Medicina de Urgência na Clínica Sagrada Esperança, em Luanda. Pós-graduada em Tuberculose, Doenças Infecciosas e Infecção por VIH e Terapêutica Antirretrovírica, é também formadora convidada no Centro de Formação da Clínica Sagrada Esperança e membro do Núcleo de Investigação Científica dos Estudantes de Saúde de Angola (NICESA) e do Projecto Nacional de Iniciação Científica (UniPRONIC).
Nesta entrevista, Isabel Muinga fala sobre o percurso até à Medicina, os desafios da urgência, o autocuidado e o que significa ser mulher na ciência médica em Angola.
Quem é a Isabel Muinga para além da profissão?
Isabel Muinga: Para além da profissão, sou mulher, cristã, leitora, voluntária nas áreas da educação e da saúde, e presidente da Associação Clube de Leitura Umoxi.
Recorda-se do momento ou da fase da vida em que percebeu que queria seguir Medicina? O que pesou nessa decisão?
Isabel Muinga: Sim, recordo-me. Não foi um momento ou uma fase única. Os meus pais criaram-me num “mundo” onde era permitido sonhar livremente, e cresci amando o conhecimento, questionando tudo e dando o meu melhor em todas as áreas do saber com que tinha contacto. Isso, na verdade, fez com que eu não conseguisse enxergar o que queria ser quando crescesse — não havia orientação profissional.
No final do IIº Ciclo do Ensino Secundário, precisava de tomar uma decisão e escolhi Engenharia Informática. Já tinha cogitado, em algum momento, ser médica, mas acabei escolhendo engenharia pela qualidade de vida. Porém o destino não quis: quando chegou a altura dos testes na Universidade Agostinho Neto, a minha mãe deu-me 2.000 kzs e aconselhou-me a seguir o seu sonho — inscrever-me em Medicina. Assim o fiz, e aqui estou.
Como descreveria o seu dia-a-dia enquanto médica de urgência?
Isabel Muinga: O meu dia-a-dia enquanto médica de urgência é imprevisível, dinâmico e desafiador. Costuma dizer-se que “a Medicina de Urgência constitui os 15 minutos mais interessantes de todas as outras especialidades” — e é verdade.
Na urgência, experimento um misto de emoções. É um local flutuante — ora calmo, ora agitado, ora caos — onde procuro sempre manter a imperturbabilidade. Sou quebrada, mas também regenerada. É um local de responsabilidade, onde se lida com a vida humana e não há rascunhos. Entendo o verdadeiro poder das minhas decisões e a importância do trabalho em equipa. Lá não existe apenas “eu”, mas “nós”.
Que aspectos da prática médica mais a desafiam como pessoa, para além do conhecimento técnico e científico?
Isabel Muinga: Para além do conhecimento técnico e científico, os aspectos da prática médica que mais me desafiam como pessoa são a comunicação eficaz a todos os níveis, os dilemas éticos — que exigem escuta activa, empatia e tomada de decisões complexas, muitas vezes desafiando crenças, costumes e normas — e o autocuidado.
Fala-se cada vez mais do bem-estar e da saúde mental dos profissionais. Ao longo do seu percurso como médica, que estratégias pessoais tem encontrado para cuidar de si e manter-se bem no exercício da profissão?
Isabel Muinga: Com o aumento da incidência de esgotamento profissional entre profissionais de saúde — principalmente dos que trabalham em urgências e emergências — fala-se cada vez mais no assunto. O foco da nossa missão é o paciente, o ser humano, e a formação contínua de excelência. Em contrapartida, precisamos ter estabilidade financeira e manter-nos saudáveis para cuidar dos outros, o que torna difícil delimitar a linha entre o trabalho e o autocuidado.
Ao longo do meu percurso como médica, as estratégias pessoais que tenho encontrado são:
Há experiências na Medicina que a marcaram profundamente ou que mudaram a forma como vê a vida e as pessoas?
Isabel Muinga: Certamente. Trabalhando numa urgência diariamente, sou continuamente exposta aos momentos mais tristes e agoniantes da vida das pessoas. Todos os dias disputamos com a morte — às vezes é tarde demais e não há nada que possamos fazer para vencer; outras vezes, por mais que demos tudo de nós, perdemos a batalha.
Mas felizmente, na maior parte das vezes, saímos vitoriosos. E é incrível ver alguém novamente saudável, testemunhar em primeira mão uma pessoa sendo grata à vida e saber que fizemos parte desse feito — sentir que as nossas acções fizeram real diferença.
No final de cada turno, aprendemos a ser gratos por cada minuto do dia. Agora vivo mais!
Ao longo do percurso médico, há diferentes etapas de formação e aprendizagem. Como descreveria esse processo de crescimento profissional, desde a licenciatura até à prática clínica mais madura?
Isabel Muinga: Sinceramente, ainda não cheguei “à prática clínica mais madura” — estou em formação (risos). Todos os dias aprendo. Estou em construção; é um processo contínuo de aprendizagem e desenvolvimento profissional.
Da faculdade de Medicina trazemos o conhecimento, e durante a prática médica precisamos permitir-nos ser moldados, aprofundar esses conhecimentos e transformá-los em habilidades e práticas — ou seja, aplicar o “saber fazer”.
Em Angola, o termo “doutor” é muitas vezes usado como forma de respeito para médicos logo após a licenciatura, apesar de, do ponto de vista académico, o doutoramento ser um grau distinto e posterior. Enquanto médica, como explica esta diferença à sociedade e como ajuda a reforçar a ideia de que a formação em Medicina é um percurso feito de várias etapas de estudo, prática e aprendizagem contínua?
Isabel Muinga: O termo não é usado apenas em Angola para esse fim — em Portugal, Brasil e outras partes do mundo também, inclusive entre médicos, outros profissionais de saúde e advogados.
No dia-a-dia, já não explico mais à sociedade. Não dá certo (risos). Pude perceber que muitos até sabem a diferença, mas usam o termo “doutor” por questão de hábito, o que não causa danos. Porém, em conferências, palestras, ou sempre que alguém questiona directamente, elucido sobre o assunto.
Apesar do aumento do número de pessoas a formarem-se em Medicina em Angola, ainda é comum que muitos pacientes prefiram procurar cuidados de saúde fora do país ou junto de médicos estrangeiros. Na sua opinião, que factores influenciam esta percepção e que papel a formação contínua, a prática clínica e a ciência podem ter no fortalecimento da confiança nos médicos angolanos?
Isabel Muinga: Apesar do número crescente de médicos formados em Angola, ainda não são suficientes para dar resposta à demanda. Segundo a literatura, até 2024 Angola tinha apenas 2,48 médicos por cada 10.000 habitantes, ficando abaixo do recomendado pela Organização Mundial de Saúde, que é de dez médicos por cada 10.000 habitantes.
Não obstante, existem outros factores que concorrem directamente para esta prática: o défice organizacional do sistema nacional de saúde, deficiências na gestão de financiamento e na criação de um modelo eficaz e sustentável tendo em conta a nossa realidade, desigualdades no acesso aos serviços de saúde, e lacunas na capacitação contínua dos profissionais face às novas actualizações.
É importante investir na formação contínua dos médicos, garantir condições de trabalho e crescimento profissional — isto dá confiança e torna-os capazes de dar resposta aos desafios. Mas toda a cadeia anteriormente mencionada deve funcionar, e é preciso também fornecer educação para a saúde à população.
De que forma a sua experiência enquanto mulher influencia o modo como vive e exerce a Medicina?
Isabel Muinga: Creio que se foca essencialmente em assumir o protagonismo da minha vida e no autocuidado. Ser influência positiva para outras mulheres — e também para homens, principalmente os que são responsáveis pela educação de mulheres. Prestar suporte emocional durante o processo de cura, alívio do sofrimento ou reabilitação. Ensinar a não se submeterem a situações que prejudiquem a sua saúde física, mental, social e espiritual — porque as decisões médicas são tomadas com base em evidências científicas.
Sente que ser mulher na área médica traz desafios específicos? Se sim, como lida com eles no seu percurso profissional?
Isabel Muinga: Sim, ser mulher na área médica traz desafios específicos. Lido com eles desconstruindo o “imaginário colectivo” e ideias pré-estabelecidas erroneamente, pregadas de geração a geração como verdades absolutas — com educação baseada em evidências. E insistindo em políticas institucionais que garantam a redução destes desafios.
Quando pensa em meninas e jovens mulheres que desejam seguir Medicina, o que gostaria que elas compreendessem sobre esta profissão desde o início?
Isabel Muinga: O que todos os interessados deveriam compreender é que é uma profissão com seis anos de graduação, de rotina intensa e desafiadora, que exige estudo contínuo, dedicação, empatia, trabalho em equipa, resiliência emocional e disciplina. Mas é maravilhosa — e se é isso que queres, então devias fazer, pois poucas profissões proporcionam momentos puros de transformar vidas.
Que qualidades pessoais considera essenciais para quem deseja construir um percurso sólido e humano na Medicina?
Isabel Muinga: Creio que, a esta altura da entrevista, já devem conhecer algumas. Como estou neste processo, apoio-me na literatura, e as qualidades essenciais são: competência, empatia, experiência, disponibilidade, saber comunicar, resiliência, integridade e disciplina.
No contexto do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o que significa para si fazer parte da ciência médica em Angola?
Isabel Muinga: Sinto-me feliz e grata pela oportunidade de poder contribuir para o desenvolvimento da ciência em Angola — na prática clínica e, ao mesmo tempo, marcando passos iniciais na investigação em saúde. Ser agente que provoca mudanças.
Ao longo do seu percurso na Medicina, houve profissionais — com quem trabalhou de perto ou que acompanha à distância — que marcaram a sua forma de exercer? Que aprendizagens retira dessas referências?
Isabel Muinga: Certamente. Medicina faz-se em equipa. São vários os aprendizados, que se reflectem diariamente na forma de abordar os pacientes, na escrita científica e na maneira de ver e ler o mundo.
Na sua visão pessoal, o que distingue uma boa médica, para além da formação académica?
Isabel Muinga: A forma como aplicamos o conhecimento aprendido e as habilidades desenvolvidas em benefício da pessoa doente. Em suma: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana” — Carl Jung.
Que mensagem deixaria a uma menina que hoje sonha ser médica, mas sente receio da exigência e da responsabilidade do caminho?
Isabel Muinga: Tens o poder de sonhar com liberdade e de realizar o seu sonho. Ser médica exige sacrifícios, mas não é uma corrida directa e exaustiva até à meta — é uma jornada. Podes estabelecer uma equipa de apoio, descansar quando necessário, recarregar, às vezes apenas caminhar, e saber que cada dia que passa estarás mais perto de realizar o teu sonho.
Foca no que te move: amor por vidas.
11 DE FEVEREIRO
Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência
Admiro e respeito muito os médicos que se doam e desempenham com zelo e amor a profissão que escolheram.
Cá em Angola, as boas experiências com médicos e profissionais da saúde são tão raras que quando encontramos um que ao menos escuta ativamente as nossas preocupações, sentimos que estamos aque o médico é de facto gentil e muitos se sentem obrigados a dar algum reconhecimento monetário.
Felizmente, ainda temos profissionais que sabem o que fazem e gostam do que fazem. Esta é a Isabel Muinga. Uma mulher que além de buscar conhecimento para si, faz questão de o partilhar com o máximo de pessoas que ela encontrar e faz isto com leveza, com cuidado e com muita responsabilidade.
Por mais profissionais da saúde que mantêm acesa a chama inicial: viver livremente o sonho de ser o que quiser.