Educadora Especializada em Educação Especial e Inclusiva | Gestora Escolar | Líder de Projectos Sociais | Escritora
A educação é, por essência, um acto de continuidade. Ensinar é um compromisso que nunca se encerra, um processo de aprendizagem constante que acompanha a vida do educador e se renova a cada geração. O professor vive entre o presente das suas práticas e o futuro que constrói nos seus alunos. Cada época desafia-o a reaprender, a adaptar-se e a reinventar-se. No contexto angolano, onde o sistema educativo se encontra em permanente reconstrução e procura consolidar o seu papel no desenvolvimento nacional, falar de educação contínua é falar da própria sobrevivência, dignidade e relevância da profissão docente.
O professor é, antes de tudo, um aprendiz. A sua missão não se limita à transmissão do saber, mas à sua constante redescoberta, ao exercício de questionar, interpretar e recriar o conhecimento. Ensinar é aprender duas vezes, e por isso a docência exige actualização permanente, sensibilidade cultural e abertura ao novo. O mundo muda rapidamente e o conhecimento expande-se a um ritmo sem precedentes. Um educador que não se actualiza corre o risco de ensinar fora do tempo, de permanecer num modelo que já não responde às necessidades dos alunos nem às exigências da sociedade. A educação contínua não é apenas uma necessidade técnica; é um dever ético e uma expressão de compromisso com o futuro do país.
Em Angola, a formação contínua dos professores representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade. Vivemos num tempo em que o acesso à educação se alargou, mas em que persistem desigualdades profundas. Muitas escolas funcionam com carência de materiais, com turmas numerosas e com professores que, embora dedicados, carecem de acompanhamento técnico e de oportunidades regulares de formação. Nestes contextos, a educação contínua é o instrumento mais eficaz para garantir a equidade e a qualidade do ensino. Permite corrigir lacunas, valorizar competências e assegurar que cada docente, independentemente do lugar onde ensina, possa desenvolver-se profissional e intelectualmente.
A Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino de Angola (Lei n.º 17/16) estabelece que a formação dos professores deve articular a formação inicial com a formação contínua. Esta orientação jurídica consagra um princípio estruturante do sistema educativo angolano: o de que ensinar implica aprender continuamente. A formação inicial, embora indispensável, não é suficiente para sustentar uma carreira docente num contexto social, científico e pedagógico em permanente transformação. A formação contínua assegura que o professor se mantenha actualizado, reflexivo e capaz de responder, com qualidade e responsabilidade, aos desafios contemporâneos da aprendizagem, da inclusão e da formação para a cidadania.
A educação contínua é também um direito profissional do professor. Nenhum educador deve ser deixado à margem do acesso à formação e ao desenvolvimento. É igualmente uma responsabilidade colectiva do Estado, das instituições e da sociedade. A docência é uma actividade que se cumpre em diálogo e cooperação, e a formação deve reflectir esse espírito. Quando investimos na formação contínua, não estamos apenas a melhorar o desempenho individual do professor; estamos a elevar o nível de qualidade do sistema educativo e a fortalecer o tecido social.
Paulo Freire ensinou-nos que “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens educam-se em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Esta afirmação exprime o sentido mais profundo da educação contínua. Ela é um processo de partilha, de reflexão conjunta, de construção colectiva do saber. Um programa de formação não se mede apenas pelos conteúdos que transmite, mas pela capacidade que tem de fazer o professor pensar, sentir e agir de forma diferente.
Nós, na Angola Aprende, acreditamos que a transformação da educação angolana depende da formação contínua e colaborativa dos educadores. Reconhecemos que cada professor é um agente de mudança, e que o seu desenvolvimento é o primeiro passo para o progresso da escola, do aluno e da comunidade. Por isso, trabalhamos para criar oportunidades reais de aprendizagem permanente, através de oficinas pedagógicas, programas de mentoria, comunidades de prática e projectos de formação interpares, tanto presenciais como digitais. Procuramos que o professor não seja apenas receptor de conteúdos, mas autor do seu próprio crescimento, partilhando saberes, experiências e soluções adaptadas à realidade local.
A nossa acção inspira-se nos princípios da UNESCO e da Agenda 2030, em especial no Objectivo de Desenvolvimento Sustentável n.º 4, que defende uma educação de qualidade, inclusiva e equitativa, com oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Sabemos que nenhum sistema educativo será verdadeiramente forte se não tiver professores motivados, valorizados e em formação contínua. Assim, a Angola Aprende posiciona-se como parceira estratégica do Estado, das escolas e das comunidades, contribuindo para o desenvolvimento profissional dos docentes e para a consolidação de uma cultura de excelência e responsabilidade educativa.
A educação contínua tem também uma dimensão humana que ultrapassa a técnica. É o processo que mantém o professor intelectualmente desperto e emocionalmente ligado à sua vocação. Num contexto em que as dificuldades materiais e a falta de reconhecimento podem desmotivar, a formação contínua é uma forma de cuidado e de valorização simbólica. Representa o reconhecimento de que o professor é o coração do sistema educativo e que a sua aprendizagem é a força motriz da mudança.
Do ponto de vista social, investir na formação contínua é investir na justiça e no desenvolvimento. Em comunidades de baixos recursos, o professor é muitas vezes a única fonte de conhecimento e o principal modelo de cidadania. Quando o educador se forma, transforma não só o seu modo de ensinar, mas também a vida dos seus alunos e o destino da sua comunidade. Cada curso, cada oficina, cada leitura partilhada multiplica o impacto social da escola e fortalece o capital humano do país.
A Constituição da República de Angola consagra o direito à educação e impõe ao Estado o dever de promover a qualificação dos cidadãos como base do desenvolvimento nacional. A educação contínua, ao fortalecer o corpo docente, concretiza este princípio constitucional. Nenhum investimento em infra-estruturas ou equipamentos será eficaz se o professor não for preparado, apoiado e valorizado. A formação contínua é o elo que liga as políticas públicas à realidade das salas de aula, o ponto de encontro entre o ideal e o possível.
O Novo Estatuto do Ministério da Educação (Decreto Presidencial n.º 193/20) reforça esta visão ao prever a valorização profissional e o aperfeiçoamento permanente dos professores. Contudo, as boas políticas só se tornam transformadoras quando são vividas no terreno. É aí que nós, Angola Aprende, procuramos actuar, como uma organização que traduz o ideal educativo em práticas concretas, construídas com as escolas, e não apenas para as escolas. Acreditamos que a qualidade da educação começa na qualidade da formação docente, e que formar o professor é preparar o futuro da nação.
A educação contínua é, portanto, muito mais do que uma política de capacitação. É uma filosofia de trabalho e de vida. Representa o reconhecimento de que o saber é dinâmico, e de que o professor é, antes de tudo, um ser em aprendizagem. Num país que busca consolidar a qualidade da sua educação, investir na formação contínua é investir na inteligência colectiva da nação e na sustentabilidade do seu desenvolvimento.
Nós, Angola Aprende, acreditamos que cada educador que continua a aprender é uma semente de futuro. É alguém que multiplica saberes, cultiva esperança e inspira transformação. O progresso de Angola começa na sala de aula, e a sala de aula começa no professor. A formação contínua é o caminho que nos permite construir escolas com alma, comunidades com propósito e um país que aprende a crescer com o conhecimento.
A escola que Angola precisa será edificada pelos professores que Angola formar. E esses professores só existirão plenamente se tiverem o direito, o tempo e o estímulo para continuar a aprender. Enquanto houver um professor disposto a aprender, haverá também uma Angola capaz de se reinventar.
Cada efeméride é um convite a escrever. Esta data inspirou o texto que acabaste de ler. De onde virá o teu?
5 DE OUTUBRO
Dia Mundial dos Professores
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.
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