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Finanças Sem Literacia: As Lições que o Governo Ainda Não Aprendeu Depois de 50 Anos na Mesma Sala de Aulas

CINQUENTA ANOS NA MESMA SALA DE AULAS
Existem países que aprendem com os erros. E existem países que apenas os repetem, geração após geração, como se a História não ensinasse nada. Angola celebra em 2025 os 50 anos da sua independência, e seria natural esperar que meio século fosse tempo suficiente para amadurecer, para consolidar saberes, para transformar experiência em sabedoria. Mas quando olhamos para a gestão das finanças públicas, o que vemos é um país que continua na mesma sala de aulas, com o mesmo professor, a repetir os mesmos erros, como se a repetição fosse um método e não um sintoma.
Hoje, 14 de Novembro, o mundo celebra o Dia Mundial da Alfabetização Financeira. É uma data que nos convida a pensar sobre literacia — essa competência tão básica e tão essencial que distingue quem gere de quem desperdiça, quem planeia de quem improvisa, quem constrói futuro de quem apenas consome presente. Mas o que significa literacia financeira quando aplicada a um país? Significa a capacidade colectiva de compreender que dinheiro público não é infinito, que cada escolha tem um custo de oportunidade, que gastar 12 milhões de euros em 90 minutos de futebol enquanto milhões de crianças estudam com fome não é apenas má gestão — é ausência de literacia.
Este texto não é um tratado de economia. É uma reflexão sobre educação. Sobre o que acontece quando um país, durante 50 anos, se recusa a aprender as lições mais elementares da gestão financeira. Sobre a diferença entre saber contar e saber o que conta. Sobre a distância entre ter recursos e saber usá-los.
A metáfora da sala de aulas não é acidental. É intencional. Porque gerir um país é, no fundo, um acto pedagógico: aprende-se com os acertos e, sobretudo, com os erros. Mas Angola parece ter faltado a todas as aulas de literacia financeira. E agora, 50 anos depois, com o mesmo professor à frente da turma, continua a reprovar nas mesmas disciplinas.

CINQUENTA ANOS SEM FAZER OS TRABALHOS DE CASA
Quando Angola nasceu como país independente em 1975, nasceu em guerra. E a guerra, como sabemos, não é a melhor professora de gestão financeira. A guerra ensina urgência, não planeamento. Ensina sobrevivência, não sustentabilidade. Ensina a gastar tudo hoje porque amanhã pode não chegar.
Durante 27 anos — de 1975 a 2002 — Angola viveu em guerra civil. É compreensível, portanto, que durante mais de metade da sua existência como país independente a literacia financeira não fosse prioridade. Mas o problema não foi a ausência de literacia naqueles anos de sobrevivência. O problema foi que, mesmo depois da paz em 2002, Angola nunca parou para dizer: agora vamos aprender a fazer diferente. O professor continuou o mesmo. O método continuou o mesmo. E os resultados também.
Mesmo em contexto de guerra, Angola tinha petróleo. Tinha receitas. E a forma como essas receitas foram geridas — ou não geridas — revela um padrão que se repetiria nas décadas seguintes: a ilusão de que abundância dispensa planeamento. Como se o dinheiro que entra hoje garantisse o dinheiro de amanhã. Como se recursos não renováveis fossem eternos. Como se não fosse preciso poupar nos tempos de fartura para sobreviver nos tempos de escassez.
A literacia financeira ensina o óbvio: que nenhuma fonte de receita dura para sempre. Que é nos tempos bons que se preparam os tempos maus. Que riqueza não é quanto se ganha, mas quanto se consegue preservar e multiplicar. Angola não aprendeu nenhuma destas lições durante a guerra. E depois da guerra, continuou sem aprender. Quando os tempos maus chegaram — e chegaram sempre — o país descobriu que não tinha feito os trabalhos de casa. O professor tinha passado a matéria. Mas ninguém tinha estudado.

CINQUENTA ANOS COM O MESMO CADERNO VAZIO
Se os primeiros 27 anos de independência foram de guerra, os anos seguintes foram de abundância. Entre o fim da guerra civil em 2002 e o pico do preço do petróleo em 2014, Angola viveu apenas 12 anos de prosperidade — mas foram anos de prosperidade sem precedentes. O PIB cresceu a taxas impressionantes. Luanda transformou-se num gigantesco canteiro de obras. O dinheiro entrava aos milhões, aos milhares de milhões.
E o que Angola fez com essa abundância? Gastou. Gastou tudo. E gastou mal.
Não se trata apenas de ter gasto muito — isso pode acontecer. Trata-se de ter gasto sem critério, sem planeamento, sem pensar no dia seguinte. Construíram-se estádios que raramente são usados. Edificaram-se cidades inteiras que ficaram vazias. Importou-se tudo, desenvolveu-se pouco. O petróleo continuou a ser a única fonte de receita, como se a diversificação económica fosse uma opção e não uma necessidade vital.
O caderno ficou vazio. Nenhuma lição foi registada. Nenhum erro foi analisado. Nenhuma alternativa foi pensada. O professor continuou a dar as mesmas aulas, a usar os mesmos métodos, a repetir as mesmas fórmulas. E quando o preço do petróleo caiu em 2014 — apenas 12 anos depois do fim da guerra — Angola descobriu que tinha desperdiçado a maior oportunidade económica da sua história. Tinha tido uma década de fartura e saiu dela mais pobre, mais endividada, mais dependente do petróleo do que quando entrou.
Há algo de trágico nesta história. Porque não foi por falta de avisos. Economistas, organizações internacionais, analistas — todos repetiram, durante anos, a mesma mensagem: diversifiquem a economia, invistam na agricultura, desenvolvam a indústria, criem um fundo soberano para as gerações futuras. Mas Angola não ouviu. Ou ouviu e ignorou. Porque literacia financeira não é apenas ter acesso à informação. É ter a humildade de aprender com ela. É ter a coragem de questionar o professor quando a matéria não está a resultar.

CINQUENTA ANOS REPETINDO OS MESMOS ERROS
Em 2017, Angola prometeu mudança. Falou-se de um novo método, de novas práticas, de uma forma diferente de fazer as coisas. Falou-se de combate à corrupção, de reforma económica, de diversificação. E houve sinais positivos. Houve investigações. Houve recuperação de activos. Houve, pela primeira vez em muitos anos, a sensação de que algo podia mudar.
Mas 8 anos depois, em 2025, o que mudou realmente?
A dívida pública continua insustentável — acima de 120% do PIB. O serviço da dívida consome quase metade das receitas do Estado. A dependência do petróleo continua quase total. E as prioridades orçamentais continuam invertidas: milhões para espectáculos, migalhas para a merenda escolar; investimento em visibilidade, desinvestimento em dignidade.
O que isto revela não é incompetência. É algo mais profundo: é a ausência de uma cultura de literacia financeira. É a perpetuação de um modelo mental que vê o dinheiro público como recurso infinito, que confunde despesa com investimento, que prioriza o espectacular sobre o essencial. É o resultado de 50 anos na mesma sala de aulas, a seguir o mesmo programa, sem nunca questionar se o método está a funcionar.
E talvez o mais inquietante seja isto: não estamos a falar de erros novos. Estamos a falar dos mesmos erros de há 50 anos, repetidos com ligeiras variações. A dependência do petróleo dos anos 70 é a mesma de hoje. O endividamento excessivo dos anos 90 e 2000 é o mesmo de hoje. A opacidade na gestão dos fundos públicos persiste. As prioridades invertidas repetem-se.
Cinquenta anos na mesma sala de aulas. Cinquenta anos com o mesmo professor. Cinquenta anos a copiar do mesmo caderno errado. E ainda não percebemos que repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes não é estratégia — é insanidade.

CINQUENTA ANOS SEM ENSINAR A LIÇÃO MAIS IMPORTANTE
Mas talvez o problema mais profundo seja este: Angola nunca ensinou literacia financeira ao seu povo.
Não se pode exigir de um governo aquilo que a população não sabe exigir de si mesma. Um país onde a maioria não sabe fazer um orçamento doméstico, não compreende o que é uma taxa de juro, não distingue poupança de despesa — esse país não tem ferramentas para cobrar responsabilidade fiscal dos seus governantes.
A literacia financeira não é um conhecimento técnico. É uma competência cívica. É tão fundamental quanto saber ler e escrever. Porque numa democracia, os cidadãos não votam apenas em pessoas — votam em orçamentos, em prioridades, em visões de futuro. E como se vota bem se não se sabe ler um orçamento? Como se cobram contas se não se sabe fazer contas? Como se questiona o professor se não se compreende a matéria?
Angola passou 50 anos sem colocar a literacia financeira no centro da educação. Não há uma disciplina sobre gestão do dinheiro nas escolas. Não há programas de educação financeira acessíveis. Não há uma cultura de planeamento, de poupança, de pensamento a longo prazo. E o resultado está à vista: uma população que não sabe cobrar, e um governo que não sabe prestar contas.
Se queremos mudar a forma como o Estado gere o dinheiro público, temos de começar por mudar a forma como ensinamos o valor do dinheiro. Temos de fazer da literacia financeira uma missão nacional. Temos de criar uma geração de cidadãos que saibam ler um orçamento, que compreendam a diferença entre investimento e despesa, que exijam transparência e racionalidade nas decisões públicas.
Porque a mudança não virá de cima. Virá de baixo, de uma população educada, informada, capaz de dizer: não, isto não faz sentido. Não, não podemos gastar 12 milhões em 90 minutos de futebol quando milhões de crianças não têm merenda. Não, não podemos continuar a fazer as mesmas escolhas e esperar resultados diferentes. E, talvez o mais importante: não, não podemos continuar 50 anos com o mesmo professor sem nunca questionar os métodos.

CINQUENTA ANOS DEVENDO A MESMA LIÇÃO
Há dívidas que se pagam com dinheiro. E há dívidas que se pagam com conhecimento.
Angola tem uma dívida financeira que todos conhecem: 70 mil milhões de dólares devidos a credores de todo o mundo. Mas tem também uma dívida pedagógica — uma dívida de aprendizagem, uma dívida de literacia, uma dívida que se acumulou ao longo de 50 anos de escolhas erradas e lições ignoradas.
Cinquenta anos é muito tempo. É tempo suficiente para aprender. É tempo suficiente para amadurecer. É tempo suficiente para transformar erros em sabedoria. Mas só se houver vontade de aprender. Só se houver humildade para reconhecer os erros. Só se houver coragem para fazer diferente. E, às vezes, só se houver coragem para trocar de professor.
A literacia financeira não é apenas uma questão técnica. É uma questão moral. É a capacidade de olhar para o Orçamento do Estado e perguntar: estas escolhas fazem sentido? Servem o bem comum? Privilegiam o essencial? Ou estamos apenas a repetir, mais uma vez, os mesmos erros que repetimos há 50 anos, na mesma sala de aulas, com o mesmo professor, usando o mesmo método que nunca funcionou?
No Dia Mundial da Alfabetização Financeira, Angola devia parar e reflectir. Não sobre o que conquistou — isso já sabemos. Mas sobre o que ainda não aprendeu. Sobre as lições que continua a ignorar. Sobre os erros que continua a repetir. Sobre o tempo que passou na mesma sala de aulas sem nunca passar de ano.
Porque a verdadeira independência não se mede por celebrações. Mede-se por escolhas. E as nossas escolhas, durante 50 anos, mostram que ainda estamos na mesma sala de aulas, a seguir o mesmo programa, a repetir os mesmos erros.
Mas há esperança. Porque enquanto houver consciência do erro, há possibilidade de mudança. Enquanto houver vontade de aprender, há caminho para o acerto. Enquanto houver quem questione, quem exija, quem cobre — há futuro. E enquanto houver cidadãos que compreendem que têm o direito de escolher o professor, há democracia.
A sala de aulas está aberta. O quadro está limpo. A lição está escrita.
Agora só falta uma coisa: querer aprender. E ter a coragem de exigir melhores professores.

Angola: Não Há Pão para 9 Milhões de Crianças, Mas Há 12 Milhões de Euros para 90 Minutos de Messi

I. O CONTRASTE DRAMÁTICO
Num país onde milhões de crianças estudam com fome, o Estado encontra 12 milhões de euros para pagar 90 minutos de glória. Esta frase não é retórica. É aritmética. É a descrição exacta de uma escolha que Angola celebra hoje.

Hoje, 14 de Novembro de 2025, Angola recebe a selecção argentina de futebol, comandada por Lionel Messi, num jogo amistoso no Estádio 11 de Novembro, em Luanda. O evento marca as celebrações dos 50 anos da independência nacional, celebrados há três dias. Segundo a imprensa desportiva internacional, particularmente o portal Sport News Africa, o governo angolano pagou 12 milhões de euros à Associação de Futebol da Argentina para garantir a presença do plantel campeão mundial.
Enquanto isso, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) 2025-2027 — desenhado para alimentar 5,4 milhões de crianças angolanas durante o ano lectivo — começou a ser implementado apenas em outubro de 2025, nos municípios com maiores dificuldades alimentares. Aprovado por decreto presidencial em Abril de 2025, o programa tem um orçamento anual de 450 mil milhões de kwanzas (cerca de 436 milhões de euros) para cobrir 6.926 escolas públicas em todo o país.
A fome escolar não é um problema invisível em Angola. É uma realidade diária nas salas de aula. Professores assistem ao cansaço de alunos que chegam sem pequeno-almoço, ao esforço de quem tenta aprender com o estômago vazio, à desistência silenciosa de quem não tem forças para continuar. A merenda escolar não é apenas comida. É combustível para a mente, é dignidade, é futuro.

Angola vive uma contradição profunda: entre o discurso de compromisso social e a prática de investimento simbólico. Entre os 50 anos de independência que se celebram com um jogo de futebol e as milhões de crianças que esperam pela refeição que nunca chega.

II. A PROMESSA QUE AINDA NÃO CHEGOU A TODOS
O Programa Nacional de Alimentação Escolar não é uma novidade nem uma promessa vazia. É um compromisso assumido pelo Estado angolano, fundamentado em lei e em obrigações constitucionais.
Aprovado em Abril de 2025 por decreto presidencial, o PNAE 2025-2027 pretende assegurar alimentação escolar a 5,4 milhões de crianças matriculadas na educação pré-escolar e no ensino primário. O custo diário por criança é de 376,82 kwanzas (aproximadamente 0,36 cêntimos de euro), distribuídos ao longo de cinco dias por semana, durante dez meses do ano lectivo.
O programa tem um orçamento trienal de 1,3 biliões de kwanzas (1,2 mil milhões de euros), divididos em parcelas anuais de 450 mil milhões de kwanzas (436 milhões de euros). A gestão é descentralizada, ficando a cargo das administrações municipais, numa tentativa de garantir maior eficiência e proximidade às necessidades locais.
Em Outubro de 2025, o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, anunciou que o PNAE começou a ser implementado nos municípios que apresentam maiores dificuldades alimentares. “Começamos já com ensino de base e começamos com os municípios que apresentam as maiores dificuldades”, afirmou Massano, sem especificar quais. Os municípios das categorias A e B — que incluem os centros urbanos mais desenvolvidos — não fazem parte do início do programa.
O ministro classificou o PNAE como “despesa obrigatória” do Estado, ao lado dos salários, pensões de reforma, dívida e projectos estruturantes. Reconheceu também que o programa terá de ser consolidado progressivamente, à medida que se aprende com o processo e se mobilizam os recursos necessários.

Mas o que significa, na prática, esta implementação gradual? Significa que, neste momento, há milhões de crianças angolanas que continuam a estudar com fome. Significa que, enquanto se espera pela expansão do programa, há salas de aula onde a concentração é roubada pela fome, onde o cansaço vence a vontade de aprender, onde a desistência é uma questão de sobrevivência.

A fundamentação legal do PNAE é sólida. A Constituição da República de Angola, no n.º 6 do artigo 35.º, estabelece que “a protecção dos direitos da criança, nomeadamente a sua educação integral e harmoniosa, a protecção da sua saúde, condições de vida e ensino constituem absoluta prioridade da família, do Estado e da sociedade.” O artigo 79.º determina que “o Estado promove o acesso de todos à alfabetização, ao ensino, à cultura e ao desporto.” E o artigo 80.º reforça que “a criança tem direito à atenção especial da família, da sociedade e do Estado, os quais, em estreita colaboração, devem assegurar a sua ampla protecção.”
A Lei n.º 25/12, de 22 de Agosto — Lei sobre a Protecção e Desenvolvimento Integral da Criança — obriga o Estado a assegurar “a sobrevivência, a saúde e o desenvolvimento da criança em Angola desde os primeiros anos da vida”, nomeadamente através de “serviços e acções em prol da criança na área de nutrição.”

O direito à merenda escolar não é, portanto, um favor. É um direito fundamental. A merenda que não chega não é apenas comida que falta. É um direito negado. É uma promessa constitucional incumprida. É o futuro que se adia, uma criança de cada vez.

III. 12 MILHÕES PARA 90 MINUTOS
Enquanto a implementação do PNAE avança de forma gradual e selectiva, Angola decidiu investir 12 milhões de euros num jogo de futebol que acontece hoje.
Segundo o portal Sport News Africa, o governo angolano pagou este valor à Associação de Futebol da Argentina (AFA) para garantir a presença da selecção campeã do mundo em Luanda, neste 14 de Novembro de 2025. O jogo insere-se nas comemorações dos 50 anos da independência de Angola, celebrados há três dias, a 11 de novembro.
A imprensa internacional reporta valores diferentes. A agência Deutsche Welle (DW) aponta para um montante entre 5 e 12 milhões de euros. Mas o valor mais citado — e o que foi confirmado por múltiplas fontes desportivas — é de 12 milhões de euros. Este foi também o valor que afastou outras selecções africanas, como Marrocos, que manifestaram interesse em receber a Argentina mas consideraram o custo proibitivo.
O valor elevado deve-se sobretudo à presença de Lionel Messi, considerado um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. O jogo de hoje é o único compromisso da Argentina na data FIFA de Novembro, e o seleccionador Lionel Scaloni deverá aproveitar para testar novos jogadores visando o Mundial de 2026. Ainda assim, a presença de Messi é vista como essencial para atrair o público e dar visibilidade ao evento.

Este não é, contudo, o único custo associado ao evento de hoje. O Estádio 11 de Novembro, construído em 2010 para o Campeonato Africano das Nações (CAN), apresentava sinais avançados de degradação. Para preparar o recinto para este jogo, o Presidente João Lourenço autorizou, através do Despacho Presidencial n.º 224/25, de 5 de Setembro, a segunda fase das obras de requalificação do estádio, com um investimento de 13,6 milhões de dólares (aproximadamente 11,75 milhões de euros).
Esta segunda fase junta-se à primeira fase de obras, realizada em 2023, que custou 23,7 milhões de dólares. No total, a requalificação do Estádio 11 de Novembro para receber o jogo de hoje custou 37,3 milhões de dólares.

Em Novembro de 2025, quatro organizações da sociedade civil angolana — Associação Luterana para o Desenvolvimento de Angola (ALDA), Organização pelo Observatório para a Coesão Social e Justiça (OCSJ), Friends of Angola (FOA), Associação Omungo — divulgaram uma carta aberta manifestando “profunda indignação e séria preocupação” com os gastos associados ao jogo. Segundo estas organizações, “o Estado angolano terá gasto entre 10 e 12 milhões de dólares para assegurar a presença da selecção argentina em Luanda, somados a aproximadamente 13,6 milhões de dólares investidos na segunda fase das obras de requalificação do estádio.” O montante total estimado — superior a 25 milhões de dólares (cerca de 21,6 milhões de euros) — “esbarra de forma flagrante com a grave realidade socioeconómica que o país enfrenta.”
O jogo foi também criticado pela UNITA, o principal partido da oposição, que estimou os custos totais em 20 milhões de dólares (cerca de 18,5 milhões de euros) e denunciou que “a população está a morrer de malária e de fome.”

Em Agosto de 2025, grupos de activistas angolanos apelaram à Associação de Futebol Argentino e a Lionel Messi para cancelarem o jogo, num pedido que surgiu após a morte de 30 pessoas durante tumultos na capital. Os activistas sublinharam que o apelo “representa um grito de consciência diante da dolorosa realidade vivida por milhões de angolanos, que contrasta com a ostentação e os gastos milionários na organização do evento.”
O governo angolano defende que o jogo é um “investimento em visibilidade” e um “símbolo de reconhecimento internacional” que promoverá o futebol angolano. Mas as questões que ficam são simples: visibilidade para quem? Reconhecimento de quê?

O país que adia a merenda das crianças não pode celebrar o futuro. Hoje não.

IV. FAZER AS CONTAS
Hoje, enquanto Angola se prepara para receber Messi, vale a pena fazer as contas.
Os números não mentem. E, neste caso, os números são devastadores.
Segundo o PNAE, o custo diário de uma refeição escolar é de 376,82 kwanzas por criança. Considerando um ano lectivo de 200 dias (5 dias por semana, durante 10 meses), o custo anual por criança é de 75.364 kwanzas. À taxa de câmbio actual (aproximadamente 1.032 kwanzas por euro), isto equivale a cerca de 73 euros por criança/ano.
Os 12 milhões de euros gastos no jogo com a Argentina equivalem, portanto, a alimentar 164.383 crianças durante um ano lectivo completo.
Se considerarmos apenas os 13,6 milhões de dólares (aproximadamente 11,75 milhões de euros) da segunda fase das obras do estádio, este valor seria suficiente para alimentar 160.959 crianças durante um ano lectivo.
Se somarmos o custo total das obras do estádio (37,3 milhões de dólares, aproximadamente 32,2 milhões de euros) ao custo do jogo (12 milhões de euros), chegamos a 44,2 milhões de euros. Este valor seria suficiente para alimentar 605.479 crianças durante um ano lectivo completo — ou seja, mais de 11% das 5,4 milhões de crianças que o PNAE pretende abranger.
Mas há outra forma de fazer as contas. Uma forma mais dramática. Uma forma que nos obriga a pensar no que acontece hoje, neste preciso momento.
O jogo tem 90 minutos de duração. Dividindo os 12 milhões de euros pelos 90 minutos, chegamos a 133.333 euros por minuto. Com este valor, seria possível alimentar 1.826 crianças durante um ano lectivo completo.
Por cada minuto que Messi passar hoje em campo, 1.826 crianças poderiam ter comido durante 200 dias.
Por cada segundo do jogo desta noite — 13,33 euros por segundo — seria possível alimentar uma criança durante três meses e meio.
Estas não são apenas estatísticas. São vidas. São crianças reais, com nomes, com sonhos, com fome. São alunos que chegam à escola às sete da manhã sem ter tomado pequeno-almoço e passam cinco ou seis horas sem comer. São professores que vêem a concentração dos alunos desaparecer a meio da manhã, substituída pelo cansaço e pela distracção que a fome traz. São pais que enviam os filhos para a escola sabendo que eles não terão o que comer até regressarem a casa.
O problema não é celebrar os 50 anos da independência. O problema não é gostar de futebol. O problema não é mesmo querer trazer Messi a Angola.
O problema é a escolha. É decidir que 90 minutos de glória valem mais do que 164.383 crianças alimentadas durante um ano. É decidir que a visibilidade internacional vale mais do que a dignidade nacional. É decidir que o espectáculo vale mais do que a educação.
Estas são escolhas. E escolhas revelam prioridades.

V. AS ESCOLHAS QUE REVELAM PRIORIDADES
As políticas públicas são espelhos das prioridades de um Estado. Cada linha do Orçamento Geral do Estado conta uma história sobre aquilo que um país valoriza. Cada decisão de investimento é também uma mensagem para as gerações presentes e futuras sobre o que importa, sobre o que é prioritário, sobre o que define uma nação.
Angola decidiu gastar mais num jogo de futebol do que alimentaria 164.383 crianças durante um ano. Esta não é uma crítica ao futebol, nem uma crítica ao entretenimento, nem sequer uma crítica à celebração dos 50 anos da independência. É uma crítica à inversão de prioridades. É uma crítica à escolha de investir na aparência em vez de investir na essência. É uma crítica ao que Angola celebra hoje.
A Constituição da República de Angola é clara. O artigo 21.º, sobre as tarefas fundamentais do Estado, determina na alínea i) que cabe ao Estado “efectuar investimentos estratégicos, massivos e permanentes no capital humano, com destaque para o desenvolvimento integral das crianças e dos jovens, bem como na educação, na saúde, na economia primária e secundária e noutros sectores estruturantes para o desenvolvimento auto-sustentável.”
Massivos e permanentes. Estas são as palavras da Constituição. Não ocasionais. Não graduais. Não selectivos. Massivos e permanentes.
A educação não é caridade. É dever constitucional. A alimentação escolar não é um favor. É um direito fundamental. Cada decisão orçamental é também uma lição para as novas gerações. E a lição que Angola dá hoje é devastadora: a aparência vale mais do que a substância; o espectáculo vale mais do que a dignidade; 90 minutos de glória valem mais do que 9 milhões de crianças com fome.
As organizações da sociedade civil que se manifestaram contra os gastos com o jogo sublinharam que “esta situação entra em conflito com normas jurídicas nacionais e internacionais às quais Angola aderiu.” Citaram a Lei n.º 13/25, de 7 de outubro de 2025, que determina que “os fundos públicos só podem ser criados por despacho do Presidente da República, acompanhado de relatório justificativo de necessidade e de viabilidade técnica e económica.” Argumentaram que os custos do jogo contrariam “normas positivas de boa governação e obrigações de priorização de recursos para direitos fundamentais.”
O Programa Alimentar Mundial estima que metade dos angolanos vive com menos de 3,65 dólares por dia. O Índice Global da Fome 2025 coloca Angola entre os 13 países com maior nível de fome no mundo — o pior índice entre os países lusófonos. Dados do Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde (IIMS) de 2015-2016 indicavam que 38% das crianças angolanas sofriam de desnutrição crónica.
Não faltam dados. Não falta informação. Não falta conhecimento sobre a gravidade da situação. O que falta é prioridade. O que falta é vontade política. O que falta é a coragem de dizer: as crianças primeiro.
A merenda escolar negada hoje não é apenas uma refeição perdida. É capacidade cognitiva comprometida. É rendimento escolar reduzido. É abandono escolar facilitado. É potencial humano desperdiçado. É futuro roubado.
O futuro de Angola não se constrói com jogos de futebol. Constrói-se com crianças bem alimentadas, bem educadas, bem cuidadas. Constrói-se com investimento massivo e permanente na educação. Constrói-se com escolhas coerentes entre o discurso e a prática.

VI. A PERGUNTA QUE FICA
Quando um país escolhe 90 minutos de aplausos em vez de 9 meses de merenda, o que ensina aos seus filhos?
Ensina que o espectáculo vale mais do que a educação. Ensina que a visibilidade internacional vale mais do que a dignidade nacional. Ensina que 164.383 crianças alimentadas durante um ano valem menos do que um jogo de futebol. Ensina que os 50 anos de independência se celebram com símbolos vazios em vez de políticas concretas. Ensina que o futuro pode esperar, porque o presente é um espectáculo.
Angola está às vésperas de celebrar meio século de independência. Cinquenta anos de soberania, de construção nacional, de afirmação no mundo. Mas a verdadeira independência de um país não se mede pelos jogos que consegue organizar. Mede-se pelas crianças que consegue alimentar. Mede-se pela educação que consegue garantir. Mede-se pela dignidade que consegue assegurar a todos os seus cidadãos.
O futuro de Angola não depende de vitórias no relvado. Depende da dignidade nas escolas. Depende de crianças bem alimentadas, bem ensinadas, bem cuidadas. Depende de escolhas que privilegiem a essência em vez da aparência. Depende de políticas que coloquem as crianças em primeiro lugar — não no discurso, mas na prática. Não nas promessas, mas no Orçamento.
Às vésperas dos 50 anos de independência, Angola enfrentou uma escolha: celebrar o passado ou alimentar o futuro. Comemorar com espectáculos ou investir em substância. Gastar 12 milhões de euros em 90 minutos de glória ou alimentar 164.383 crianças durante um ano.
A escolha foi feita. E hoje, Angola celebra essa escolha.
A merenda das crianças não é negociável. Não é um luxo. Não é uma despesa que se adia. É a medalha mais valiosa que uma Nação pode exibir. É o investimento mais estratégico que um Estado pode fazer. É a prova mais real de compromisso com o futuro.
Não há pão — não há merenda — para 9 milhões de crianças. Mas hoje há 12 milhões de euros para 90 minutos de Messi.
Esta é a escolha que Angola celebra hoje.
E esta escolha diz tudo sobre as prioridades de quem governa o nosso país.

O Papel Da Escola Na Construção Da Consciência Africana

1. Introdução: A escola como espelho da identidade africana
A escola africana é, mais do que um espaço físico de ensino, um lugar simbólico de construção de identidades e um espelho da consciência colectiva do continente. Ao longo da história, o sistema educativo em África foi moldado por duas forças opostas: a imposição de modelos coloniais que visavam dominar e uniformizar, e o esforço de libertação cultural que procurou devolver aos africanos a sua voz e autonomia. Reflectir sobre o papel da escola na construção da consciência africana é, portanto, compreender esta tensão histórica entre alienação e emancipação.
Nesta Perspectiva Comparada, analisam-se políticas e práticas educativas em três países africanos — Angola, Tanzânia e Moçambique — que, apesar de partilharem uma herança colonial semelhante, seguiram trajectos distintos no processo de africanização da escola. O objectivo é extrair aprendizagens úteis para Angola, fortalecendo o papel da educação como ferramenta de afirmação cultural e desenvolvimento humano.

2. A herança da educação comunitária africana
Antes da colonização, as sociedades africanas possuíam sistemas educativos próprios, profundamente ligados à vida social, moral e espiritual das comunidades. A educação era essencialmente oral, participativa e prática: as crianças aprendiam observando, imitando e participando activamente nas actividades comunitárias. O saber era transmitido pelos anciãos, pelas famílias e pelos líderes tradicionais, que formavam o carácter e inculcavam valores de solidariedade, respeito, entreajuda e pertença.
Em Angola, nas regiões do Kongo, do Planalto Central ou do Leste, o processo educativo incluía histórias, provérbios, rituais e ofícios, unindo o saber à experiência da vida. A escola tradicional africana não separava o aprender do viver, nem o conhecimento da ética. A aprendizagem era colectiva e contínua, e o seu propósito era assegurar a harmonia da comunidade. Esta pedagogia ancestral, apesar de não institucionalizada, continua a ser referência de uma educação integral, que forma o ser humano de forma completa — espírito, mente e corpo.

3. A escola colonial: o apagamento da consciência africana
Com o domínio europeu, o modelo de escola implantado em África passou a servir interesses de controlo e aculturação. Em Angola, o Decreto n.º 12 533, de 23 de Outubro de 1926, instituiu o Estatuto do Indigenato, criando uma hierarquia jurídica e social entre “indígenas” e “assimilados”. Posteriormente, o Decreto-Lei n.º 39 666, de 20 de Maio de 1954, consolidou esse regime, restringindo o acesso dos africanos à educação formal e subordinando o ensino às finalidades coloniais.
A oferta educativa foi entregue, em grande parte, às missões religiosas, que seguiam orientações do Estado português. A língua portuguesa tornou-se obrigatória, e o currículo escolar centrava-se na religião e na história europeia, omitindo quase totalmente o património cultural africano. Aprender significava, assim, afastar-se da própria identidade.
Em outras colónias africanas verificou-se o mesmo fenómeno. No Senegal, o modelo francês da Escola Colinial (École coloniale) produzia “negros de cultura europeia”; no Quénia e no Gana, o sistema britânico formava burocratas coloniais; em Moçambique e em Angola, a escola portuguesa funcionava como instrumento de evangelização e disciplina social. Este processo de alienação sistemática reduziu a escola a um meio de domesticação cultural, rompendo a ligação entre o africano e a sua própria memória colectiva.

4. A descolonização educativa: a escola como instrumento de libertação
Com as independências africanas, a escola ganhou novo significado. Passou de espaço de dominação a ferramenta de emancipação. Líderes como Julius Nyerere, Kwame Nkrumah, Samora Machel e Agostinho Neto compreenderam que a independência política só seria plena com a independência mental e cultural.
Na Tanzânia, Nyerere apresentou em 1967 a política Educação para a Auto-Suficiência (Education for Self-Reliance), propondo uma escola enraizada na vida comunitária, onde o trabalho, a cooperação e a ética substituíssem o elitismo colonial. O swahili foi promovido a língua de instrução, tornando-se um dos maiores símbolos de unidade africana.
Em Moçambique, a FRELIMO organizou durante a luta as chamadas “escolas do mato”, alfabetizando populações nas zonas libertadas. Após a independência, essas experiências originaram uma política nacional de alfabetização e, mais tarde, de ensino bilingue.
Em Angola, após 1975, o novo Estado assumiu a missão de construir uma escola nacional, gratuita e universal, com base nos valores de unidade e solidariedade. A educação tornou-se pilar da reconstrução e do orgulho de ser angolano. Contudo, os anos de conflito e as limitações de recursos dificultaram a plena concretização deste ideal.

A Crise do Pensamento Num Mundo que Grita Informação

Vivemos tempos em que a informação se multiplica a uma velocidade vertiginosa, mas o pensamento parece mover-se em sentido contrário. Nunca se falou tanto, nunca se escreveu tanto e, paradoxalmente, nunca se compreendeu tão pouco. O mundo transformou-se num imenso altifalante onde todos têm voz, mas poucos têm escuta. Produzimos opiniões como se fossem ecos automáticos, reagimos antes de reflectir e confundimos ruído com conhecimento. É a era em que se lê apressadamente, se ouve com distração e se pensa quase por instinto.

Em Angola, essa realidade tem o seu próprio rosto. O país tem feito avanços notáveis na alfabetização e no acesso à escola, mas ler e escrever já não bastam. Falta-nos a capacidade de interpretar e analisar criticamente o que se lê e o que se ouve. Decifrar palavras é apenas o início; compreender o seu significado, questionar intenções e discernir contextos é o que verdadeiramente liberta. Quando a leitura não conduz à compreensão e a escuta não conduz à reflexão, o conhecimento torna-se uma sucessão de frases memorizadas, e não uma construção de sentido.

A Semana Global de Alfabetização e Informação Midiática convida-nos, todos os anos, a revisitar esse debate. A questão central já não é o acesso à informação, mas a capacidade de pensar sobre a informação. Vivemos imersos num fluxo constante de textos, vozes e imagens que competem pela nossa atenção, e é nesse excesso que o pensamento se perde. Talvez o verdadeiro analfabeto do nosso tempo seja aquele que, embora saiba ler, já não lê com profundidade — aquele que ouve, mas não escuta.

Confesso que, como autora, vivo esta inquietação de perto. Quando escrevo um texto ou um livro, sinto, muitas vezes, o impulso de encurtar cada parágrafo. Faço-o por receio de que as pessoas já não estejam disponíveis para a leitura demorada, para o encontro paciente com as ideias. Pergunto-me, às vezes, se as pessoas deixaram de ler — ou se deixaram de ler bem. Talvez o problema não seja apenas a falta de leitura, mas a falta de atenção, de entrega e de tempo interior para compreender o que se lê. Hoje, mal terminamos de ler um conteúdo, mal formamos uma opinião, e já partilhamos. Partilha-se antes de pensar, comenta-se antes de entender, julga-se antes de escutar.

A interpretação é o primeiro passo para recuperar essa profundidade perdida. Interpretar é compreender para além das palavras e dos sons; é perceber o contexto, a intenção e o silêncio entre as linhas. É o acto de ligar o texto à realidade e a fala à verdade. Um leitor que lê sem interpretar e um ouvinte que escuta sem compreender tornam-se reféns da superfície. A interpretação exige pausa, sensibilidade e curiosidade — virtudes cada vez mais raras num tempo que premia a pressa e a distração.

A análise crítica é o segundo passo — e talvez o mais urgente. É ela que transforma o conhecimento em consciência. Analisar é duvidar com lucidez, perguntar “quem diz?”, “porquê?”, “a quem serve?”. É reconhecer que toda a mensagem — seja escrita, dita ou transmitida — carrega uma intenção. Um cidadão que não analisa o que lê e o que ouve não é livre: é conduzido. E quando as sociedades perdem a capacidade de análise, perdem também a capacidade de decidir por si mesmas.

A Angola Aprende tem procurado, com determinação, responder a este desafio. Educar é, antes de tudo, ensinar a pensar. É ajudar o aluno a interpretar e a questionar, a ler com profundidade e a ouvir com discernimento. É isso que faz a diferença entre uma educação que forma executores e uma educação que forma cidadãos. A Angola Aprende acredita que cada sala de aula pode ser um espaço de pensamento livre — um laboratório de ideias, de escuta e de diálogo.

A alfabetização midiática é, hoje, o grande instrumento dessa libertação. Num país em desenvolvimento, onde o acesso à internet cresce de forma exponencial, é urgente formar cidadãos que saibam navegar com consciência nesse oceano de informação. Precisamos de leitores e ouvintes que compreendam as entrelinhas, que filtrem os discursos e que saibam distinguir o que é conhecimento do que é manipulação. A literacia crítica é uma nova forma de soberania.

A Constituição da República de Angola afirma que a educação deve promover o desenvolvimento integral da pessoa humana e o exercício da cidadania consciente. Mas essa missão só se cumpre quando a escola volta a valorizar a escuta e a reflexão. Quando o acto de ler e de ouvir recupera o seu sentido humano e o seu poder transformador.

A crise do pensamento não se vence com mais palavras, mas com melhores ideias. Não é a abundância de informação que nos fará evoluir, mas a qualidade da compreensão que somos capazes de alcançar. Num mundo que grita informação, pensar é o acto mais silencioso — e o mais revolucionário — que existe.

A Angola Aprende acredita que esse é o caminho: cultivar leitores e ouvintes atentos, formar mentes críticas e corações reflexivos. Porque compreender é o início da liberdade — e quem aprende a pensar, aprende a ser livre.

As Substâncias Imprescindíveis para uma Boa Alimentação Cerebral

O cérebro é a sede invisível do pensamento e o motor silencioso de tudo o que somos. É nele que se formam as ideias, a memória, o raciocínio e a imaginação. Mas, tal como o corpo, também ele precisa de alimento, descanso e estímulo para funcionar em plenitude. Um cérebro fragilizado não pensa bem, não aprende bem e não cria bem. Alimentar o cérebro é, por isso, uma tarefa essencial — e o modo como o fazemos define a qualidade da nossa educação e do nosso desenvolvimento colectivo.
A ciência tem demonstrado que a actividade cerebral depende de substâncias concretas: glicose, proteínas, ácidos gordos, ferro, iodo, zinco, vitaminas do complexo B, entre outras. Sem elas, o cérebro perde vitalidade, a concentração diminui e o raciocínio abranda. A boa alimentação é o primeiro passo da inteligência. É o que permite que as sinapses — as ligações que criam o pensamento — se formem e se mantenham activas. Comer bem não é luxo, é pré-condição para aprender.
Em Angola, essa constatação ganha contornos urgentes. Muitas crianças chegam à escola sem pequeno-almoço; muitas estudam em comunidades onde o alimento é escasso e o cansaço é regra. O professor esforça-se, mas o cérebro do aluno está a lutar contra a fome, e o corpo não lhe oferece energia para pensar. É por isso que o investimento em alimentação escolar é também investimento em aprendizagem. Uma refeição servida na escola não é apenas um gesto humanitário — é uma acção pedagógica. É o combustível da concentração, da memória e da persistência.
A Constituição da República de Angola garante, no artigo 79.º, o direito à educação e à formação, enquanto a Lei de Bases do Sistema de Educação reforça que o ensino deve promover o desenvolvimento integral do indivíduo. A Lei sobre o Desenvolvimento Integral da Criança (Lei n.º 25/12) acrescenta que a criança tem direito à saúde, à nutrição e ao crescimento harmonioso. Esses três instrumentos convergem num princípio simples e inquestionável: a aprendizagem é inseparável da saúde e do bem-estar.
Mas as substâncias que fortalecem o cérebro não são apenas químicas. Há também nutrientes simbólicos, emocionais e intelectuais, que alimentam a mente e definem o sucesso académico. A ciência explica o funcionamento das sinapses; a pedagogia explica o que as desperta.
A primeira dessas substâncias é o sono. Dormir é essencial para a consolidação da memória e o equilíbrio emocional. Um aluno que não descansa, que chega à escola exausto, não tem espaço mental para aprender. A segunda é o afecto. Relações positivas e ambientes acolhedores libertam dopamina e oxitocina, substâncias que estimulam o prazer de aprender e reduzem o medo de errar. O cérebro aprende melhor quando se sente seguro.
A terceira substância é a curiosidade — a energia interna que move o pensamento. Quando o ensino é monótono e repetitivo, o cérebro entra em modo automático; quando é desafiado, desperta. A curiosidade é o oxigénio da inteligência. É ela que transforma o conteúdo em descoberta e o esforço em prazer. É por isso que a qualidade de uma escola não se mede apenas pelo número de aulas, mas pela quantidade de perguntas que ela inspira.
A quarta substância é a autonomia intelectual. O cérebro não cresce com respostas prontas, mas com oportunidades de pensar. Estimular a autonomia é fortalecer a musculatura cognitiva da mente. O aluno que é convidado a formular hipóteses, a experimentar, a duvidar e a criar, desenvolve um cérebro mais flexível, crítico e resiliente. A sala de aula deve ser um laboratório de pensamento, não um corredor de obediência.
A quinta substância é a alimentação emocional — o sentimento de pertença e de propósito. Um aluno aprende melhor quando percebe que aquilo que estuda tem sentido, que o conhecimento serve para algo maior do que o exame. A educação que alimenta o cérebro é a que liga o saber à vida, o conteúdo à comunidade, o indivíduo ao colectivo.

Estas substâncias invisíveis — o descanso, o afecto, a curiosidade, a autonomia e o sentido — são tão vitais quanto o ferro ou a glicose. São elas que determinam a qualidade da aprendizagem e, consequentemente, a possibilidade de sucesso académico. Um sistema educativo que ignora essas dimensões é um sistema anémico, que ensina, mas não forma; que instrui, mas não desperta.
A Angola Aprende tem procurado intervir precisamente nesse ponto. Nos nossos programas de formação e consultoria, insiste na ideia de que educar é cuidar, e que o cuidado é uma forma de ensinar. CompreendeMOS que um professor informado sobre nutrição, motivação e bem-estar mental está mais preparado para compreender o aluno como um ser inteiro. O corpo e o cérebro não são entidades separadas — são parceiros inseparáveis no processo de aprender.
É urgente, portanto, pensar a educação e a alimentação como políticas complementares e inseparáveis. Onde há fome, o raciocínio trava; onde há pobreza nutricional, o potencial cognitivo diminui. Mas o inverso também é verdadeiro: um aluno bem alimentado, mental e fisicamente, tem maior probabilidade de compreender, de persistir e de alcançar sucesso académico. A educação que Angola precisa de consolidar é aquela que reconhece a biologia do conhecimento — a interdependência entre o corpo, a mente e a sociedade.
Fortalecer o cérebro é, no fundo, uma metáfora do que significa fortalecer um país. O cérebro é o território da autonomia; é nele que se decide o que pensar, o que criar e o que sonhar. Um povo de cérebros subnutridos — pela fome literal ou pela escassez de estímulo — torna-se refém da dependência intelectual. A soberania começa na sinapse.
Educar, nesse sentido, é mais do que transferir conteúdos; é oferecer as condições para que o cérebro humano atinja o seu potencial máximo. É garantir energia, estabilidade emocional, estímulo intelectual e propósito social. Cada aula deve funcionar como um suplemento cognitivo; cada escola, como um espaço de produção de energia mental. O país que investe nisso prepara-se para competir não apenas em economia, mas em ideias.
O sucesso académico, por sua vez, não é apenas uma questão de esforço individual. É o resultado da soma entre biologia, pedagogia e contexto. Quando o corpo está nutrido, o cérebro tem base; quando o ensino é estimulante, o pensamento tem direcção; quando há propósito, a aprendizagem tem alma. E é desse encontro — entre corpo, mente e sentido — que nascem os verdadeiros resultados.
Alimentar o cérebro é, portanto, uma tarefa colectiva. Cabe ao Estado garantir programas de nutrição escolar sustentáveis; às famílias, promover hábitos alimentares saudáveis e rotinas de descanso; às escolas, oferecer ensino que motive, desafie e acolha; e à sociedade, valorizar o conhecimento como o mais nobre alimento do desenvolvimento.
Se quisermos medir o futuro de Angola, basta observar a forma como cuidamos do cérebro das nossas crianças. O que elas comem e o que elas aprendem determinará o que o país pensará amanhã. As políticas públicas que hoje alimentam a infância são as que definirão a inteligência nacional daqui a uma geração.
A boa alimentação cerebral é, por isso, a mais estratégica de todas as políticas. É ela que transforma energia em pensamento, curiosidade em descoberta, e potencial em progresso. Quando o corpo e a mente trabalham em harmonia, a educação deixa de ser um desafio e passa a ser uma força motriz. O cérebro, fortalecido, torna-se a verdadeira fábrica da liberdade.

Educação Contínua como Pilar da Profissão Docente e do Desenvolvimento Educativo em Angola

A educação é, por essência, um acto de continuidade. Ensinar é um compromisso que nunca se encerra, um processo de aprendizagem constante que acompanha a vida do educador e se renova a cada geração. O professor vive entre o presente das suas práticas e o futuro que constrói nos seus alunos. Cada época desafia-o a reaprender, a adaptar-se e a reinventar-se. No contexto angolano, onde o sistema educativo se encontra em permanente reconstrução e procura consolidar o seu papel no desenvolvimento nacional, falar de educação contínua é falar da própria sobrevivência, dignidade e relevância da profissão docente.
O professor é, antes de tudo, um aprendiz. A sua missão não se limita à transmissão do saber, mas à sua constante redescoberta, ao exercício de questionar, interpretar e recriar o conhecimento. Ensinar é aprender duas vezes, e por isso a docência exige actualização permanente, sensibilidade cultural e abertura ao novo. O mundo muda rapidamente e o conhecimento expande-se a um ritmo sem precedentes. Um educador que não se actualiza corre o risco de ensinar fora do tempo, de permanecer num modelo que já não responde às necessidades dos alunos nem às exigências da sociedade. A educação contínua não é apenas uma necessidade técnica; é um dever ético e uma expressão de compromisso com o futuro do país.
Em Angola, a formação contínua dos professores representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade. Vivemos num tempo em que o acesso à educação se alargou, mas em que persistem desigualdades profundas. Muitas escolas funcionam com carência de materiais, com turmas numerosas e com professores que, embora dedicados, carecem de acompanhamento técnico e de oportunidades regulares de formação. Nestes contextos, a educação contínua é o instrumento mais eficaz para garantir a equidade e a qualidade do ensino. Permite corrigir lacunas, valorizar competências e assegurar que cada docente, independentemente do lugar onde ensina, possa desenvolver-se profissional e intelectualmente.
A Lei de Bases do Sistema de Educação (Lei n.º 13/01) estabelece que a formação dos professores deve articular a formação inicial com a formação contínua. Esta orientação jurídica traduz um princípio fundamental: o de que ensinar implica aprender sempre. A formação inicial, embora indispensável, não é suficiente para sustentar uma carreira docente num mundo em mutação. A educação contínua assegura que o professor permaneça actualizado, reflexivo e capaz de responder aos desafios contemporâneos da aprendizagem, da inclusão e da cidadania.
A educação contínua é também um direito profissional do professor. Nenhum educador deve ser deixado à margem do acesso à formação e ao desenvolvimento. É igualmente uma responsabilidade colectiva do Estado, das instituições e da sociedade. A docência é uma actividade que se cumpre em diálogo e cooperação, e a formação deve reflectir esse espírito. Quando investimos na formação contínua, não estamos apenas a melhorar o desempenho individual do professor; estamos a elevar o nível de qualidade do sistema educativo e a fortalecer o tecido social.
Paulo Freire ensinou-nos que “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens educam-se em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Esta afirmação exprime o sentido mais profundo da educação contínua. Ela é um processo de partilha, de reflexão conjunta, de construção colectiva do saber. Um programa de formação não se mede apenas pelos conteúdos que transmite, mas pela capacidade que tem de fazer o professor pensar, sentir e agir de forma diferente.
Nós, na Angola Aprende, acreditamos que a transformação da educação angolana depende da formação contínua e colaborativa dos educadores. Reconhecemos que cada professor é um agente de mudança, e que o seu desenvolvimento é o primeiro passo para o progresso da escola, do aluno e da comunidade. Por isso, trabalhamos para criar oportunidades reais de aprendizagem permanente, através de oficinas pedagógicas, programas de mentoria, comunidades de prática e projectos de formação interpares, tanto presenciais como digitais. Procuramos que o professor não seja apenas receptor de conteúdos, mas autor do seu próprio crescimento, partilhando saberes, experiências e soluções adaptadas à realidade local.
A nossa acção inspira-se nos princípios da UNESCO e da Agenda 2030, em especial no Objectivo de Desenvolvimento Sustentável n.º 4, que defende uma educação de qualidade, inclusiva e equitativa, com oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Sabemos que nenhum sistema educativo será verdadeiramente forte se não tiver professores motivados, valorizados e em formação contínua. Assim, a Angola Aprende posiciona-se como parceira estratégica do Estado, das escolas e das comunidades, contribuindo para o desenvolvimento profissional dos docentes e para a consolidação de uma cultura de excelência e responsabilidade educativa.
A Lei sobre o Desenvolvimento Integral da Criança (Lei n.º 25/12) recorda que a educação é um direito essencial e uma responsabilidade partilhada. O professor é o principal garante desse direito, e por isso necessita de apoio constante. A educação contínua oferece-lhe ferramentas para lidar com a diversidade das turmas, integrar as tecnologias de forma crítica e promover aprendizagens significativas. Um professor em formação contínua torna-se um multiplicador de esperança, porque cada nova competência que adquire reflete-se directamente na vida dos seus alunos.
Defendemos que a educação contínua deve ser compreendida como uma política de Estado, estruturada, descentralizada e sustentável. Ela não pode depender apenas de projectos ocasionais, mas precisa de ser incorporada de forma permanente nas estratégias nacionais de educação. Cada escola deveria ser um centro de formação em si mesma, um espaço onde os professores aprendem uns com os outros, reflectem sobre a prática e inovam. Programas de mentoria, redes provinciais de formadores, intercâmbios pedagógicos e o uso de plataformas digitais podem tornar esta visão uma realidade.
Nós, Angola Aprende, temos procurado contribuir activamente para esta mudança de paradigma. Através de projectos de formação em serviço, da criação de recursos pedagógicos locais e da promoção da formação híbrida e digital, aproximamos a aprendizagem contínua dos professores de todas as regiões do país. Com base no princípio de que formar um educador é transformar uma comunidade, procuramos desenvolver acções que valorizem a experiência dos docentes e reforcem o seu protagonismo como líderes educativos.
A educação contínua tem também uma dimensão humana que ultrapassa a técnica. É o processo que mantém o professor intelectualmente desperto e emocionalmente ligado à sua vocação. Num contexto em que as dificuldades materiais e a falta de reconhecimento podem desmotivar, a formação contínua é uma forma de cuidado e de valorização simbólica. Representa o reconhecimento de que o professor é o coração do sistema educativo e que a sua aprendizagem é a força motriz da mudança.
Do ponto de vista social, investir na formação contínua é investir na justiça e no desenvolvimento. Em comunidades de baixos recursos, o professor é muitas vezes a única fonte de conhecimento e o principal modelo de cidadania. Quando o educador se forma, transforma não só o seu modo de ensinar, mas também a vida dos seus alunos e o destino da sua comunidade. Cada curso, cada oficina, cada leitura partilhada multiplica o impacto social da escola e fortalece o capital humano do país.
A Constituição da República de Angola consagra o direito à educação e impõe ao Estado o dever de promover a qualificação dos cidadãos como base do desenvolvimento nacional. A educação contínua, ao fortalecer o corpo docente, concretiza este princípio constitucional. Nenhum investimento em infra-estruturas ou equipamentos será eficaz se o professor não for preparado, apoiado e valorizado. A formação contínua é o elo que liga as políticas públicas à realidade das salas de aula, o ponto de encontro entre o ideal e o possível.
O Novo Estatuto do Ministério da Educação (Decreto Presidencial n.º 193/20) reforça esta visão ao prever a valorização profissional e o aperfeiçoamento permanente dos professores. Contudo, as boas políticas só se tornam transformadoras quando são vividas no terreno. É aí que nós, Angola Aprende, procuramos actuar, como uma organização que traduz o ideal educativo em práticas concretas, construídas com as escolas, e não apenas para as escolas. Acreditamos que a qualidade da educação começa na qualidade da formação docente, e que formar o professor é preparar o futuro da nação.
A educação contínua é, portanto, muito mais do que uma política de capacitação. É uma filosofia de trabalho e de vida. Representa o reconhecimento de que o saber é dinâmico, e de que o professor é, antes de tudo, um ser em aprendizagem. Num país que busca consolidar a qualidade da sua educação, investir na formação contínua é investir na inteligência colectiva da nação e na sustentabilidade do seu desenvolvimento.
Nós, Angola Aprende, acreditamos que cada educador que continua a aprender é uma semente de futuro. É alguém que multiplica saberes, cultiva esperança e inspira transformação. O progresso de Angola começa na sala de aula, e a sala de aula começa no professor. A formação contínua é o caminho que nos permite construir escolas com alma, comunidades com propósito e um país que aprende a crescer com o conhecimento.
A escola que Angola precisa será edificada pelos professores que Angola formar. E esses professores só existirão plenamente se tiverem o direito, o tempo e o estímulo para continuar a aprender. Enquanto houver um professor disposto a aprender, haverá também uma Angola capaz de se reinventar.