O Custo Invisível de Ensinar por Amor

A primeira vez que dei aulas, eu não tinha habilitação docente. Não conhecia estratégias pedagógicas, não tinha adoptado uma filosofia de ensino, não sabia o que era um plano de progressão de carreira, nem sequer imaginava um dia criar o meu próprio método de ensino. Tinha talvez nove anos, uma janela enferrujada no quintal que servia de quadro e um mata-barata — o giz insecticida que toda a casa angolana conhece — que fazia as vezes de giz escolar. Os meus alunos eram os de sempre — primos e primas que, sem saber, se matriculavam no quintal da Dona Antónia para as férias pedagógicas. Coitados dos miúdos, convencidos de que iam descansar, de que estariam finalmente livres de exercícios e de tarefas. Mas lá estava eu, de pé diante da janela, com um objecto qualquer a servir de ponteiro, a apontar para os meus escritos com toda a seriedade do mundo.
Ninguém me mandou fazer aquilo. Ninguém me pagou. Ninguém sequer me pediu. Eu simplesmente fazia. E se alguém me tivesse perguntado porquê, eu não teria sabido responder — porque aos nove anos não se dão explicações para aquilo que se sente como inevitável.
Anos depois, tive a graça de assumir o meu primeiro trabalho oficial como professora. Professora da Escola Bíblica Dominical. Uma experiência que até hoje marca o meu testemunho. Já levava alguma bagagem de leituras e pesquisas, já não era a menina da janela enferrujada — ou talvez fosse exactamente a mesma, agora com mais palavras para o que fazia. Exerci essa função durante quase três anos, e cada domingo confirmava algo que eu já sabia desde o quintal da minha mãe: ensinar era, para mim, a coisa mais natural do mundo.
Depois vieram as formações. Os treinamentos. Os diplomas. Mais de quarenta certificações. Pesquisas. Mais leituras. Mais experiência. Um país diferente. Passei de Angola para os Estados Unidos, de salas sem material para escolas com recursos que antes só conhecia da televisão. Trabalhei em instituições com nomes que as pessoas reconhecem, com colegas de origens que nunca imaginei cruzar, com alunos que falavam línguas que eu ainda estava a aprender. Construí, tijolo a tijolo, uma carreira que ninguém me deu de presente.
E, no entanto, os comentários continuam os mesmos.
Toda a sala em que entro, toda a conferência a que assisto, apresento, ou organizo, toda a escola em que trabalho ou com que colaboro repete, com orgulho, a mesma frase: «Isso é um chamado.» Nos Estados Unidos, tornou-se moda perguntar «Qual é o teu porquê?» — como se a nossa profissão precisasse de uma justificação espiritual que nenhuma outra profissão exige. Ninguém pergunta ao engenheiro qual é o seu porquê. Ninguém pede ao médico que explique o chamado. Ninguém oferece ao advogado um chocolate no final do ano como reconhecimento pelo trabalho feito. Mas a nós, sim. A nós dão-nos doces na semana de apreciação, um presente dos pais no Natal — um chocolate que, depois de uma mordida, acabou — e esperam que isso baste.
E no final, continuamos mal pagos.
Não é queixa. É constatação. E atravessa fronteiras. Em Luanda e em Washington, em escolas públicas e privadas, em sistemas que não se parecem em quase nada mas que coincidem nisto: esperam que o nosso amor nos baste, como se amar o que fazemos anulasse o direito ao salário justo, às condições dignas, ao respeito profissional.
Não só somos mal pagos, como ainda usamos o nosso próprio dinheiro para adquirir recursos que melhorem a experiência dos nossos alunos. Compramos material de bolso. Imprimimos fichas em casa. Levamos livros nossos para as salas de aula. E quando alguém nota, acha bonito. «Que dedicação», dizem. «Vê-se que ama o que faz.» Como se gastar do meu salário para suprir falhas do sistema fosse prova de virtude e não sinal de negligência institucional.
Deixem-me ser clara: eu amo o que faço. Amava aos nove anos, quando nem sabia que aquilo tinha nome. Amava na Escola Bíblica Dominical, quando cada domingo era uma pequena revolução silenciosa. Amo agora também, com quase duas décadas de caminho percorrido, com mais ferramentas, mais consciência, mais firmeza. O amor nunca foi o problema.
O problema é que fizeram do nosso amor a infra-estrutura do sistema.
Quando uma sociedade transforma a paixão de quem ensina na base sobre a qual todo o sistema educativo se apoia, faz uma operação que parece homenagem mas é, na verdade, exploração disfarçada de elogio. Se amamos o que fazemos, então não precisamos de ser bem pagos — o amor compensa. Se temos vocação, então as condições de trabalho são um detalhe — a vocação supera. Se isto é um chamado, então reclamar é quase uma ingratidão — porque quem é chamado serve, não exige.
Esta narrativa não é inocente. Serve um propósito muito concreto: permite que governos invistam menos na educação sem que ninguém se indigne demasiado. Permite que escolas funcionem sem condições e a responsabilidade recaia sobre quem «não tem paixão suficiente». Permite que a sociedade nos exija tudo — que eduquemos, que disciplinemos, que alimentemos, que aconselhemos, que protejamos, que inspiremos — e em troca nos ofereça gratidão simbólica em vez de reconhecimento estrutural.
Agradecem-nos com palavras porque não querem agradecer-nos com recursos. Celebram a nossa entrega porque não estão dispostos a retribuí-la.
Eu conheço os dois lados. Conheço a sala de aula em Angola onde o giz as vezes falta e nós nos desenrascamos. Conheço a sala nos Estados Unidos onde o material existe mas o salário não acompanha o custo de vida, onde trabalhamos sessenta horas por semana, ou mais, e ganhamos menos do que profissões que exigem metade da nossa formação. Os contextos são diferentes, as dificuldades são diferentes, mas o discurso é o mesmo: «Estás a fazer a diferença.» «Isso é um chamado.» «Obrigada por tudo o que fazes.»
E nós continuamos. Não por resignação — por convicção de que o que fazemos importa demasiado para parar.
Mas que ninguém confunda a nossa persistência com conformismo. Que ninguém leia a nossa presença diária como aceitação silenciosa. Continuamos porque acreditamos no que fazemos — não porque aceitamos o que nos fazem. Uma família que reconhece o nosso trabalho não nos está a fazer um favor — está a cumprir o mínimo. Um director que nos defende não é excepção admirável — deveria ser regra. O respeito que nos é devido não é gesto de generosidade. É obrigação.
Se ensinar é tão nobre, por que razão nos tratam como se fôssemos dispensáveis?
Se a educação é a base de tudo — e em todos os discursos políticos ela é —, por que razão quem a sustenta vive na precariedade? Se somos o pilar da nação — e em todas as cerimónias dizem que somos —, por que razão não temos remuneração justa, acesso garantido a formação contínua, estabilidade na carreira e respeito institucional à altura do que entregamos?
A resposta é incómoda, mas é simples: porque o discurso da paixão permite que vivam com essa contradição. Enquanto acreditarem que fazemos o que fazemos por amor, não precisam de investir à medida do que exigem. O nosso amor torna-lhes a vida mais fácil. Sempre tornou.
Não é mais amor que nós precisamos. É de políticas que nos respeitem, que respeitem a profissão, que reconheçam o peso do que fazemos e respondam com estrutura, não com aplausos.
O amor já cá está. Estava na janela enferrujada onde uma menina de nove anos ensaiava ser professora sem saber que o seria para o resto da vida. Estava na Escola Bíblica Dominical, cada domingo de manhã. Está em todas as salas por onde passei, em todos os alunos cujos nomes ainda sei de cor, em cada hora não paga que dediquei a planificar, a corrigir, a pensar numa forma melhor de explicar aquilo que ainda não tinha sido compreendido. Está em cada colega que conheço, em cada professor que acorda cedo e volta tarde, em cada professora que dá mais do que lhe pedem porque sabe que o que está em causa é maior do que ela.
O amor já está na professora Joice e na professora Sandra que, em plena cidade de Luanda, dão aulas de alfabetização a crianças em idade escolar — crianças que já deveriam estar a ler e a escrever com autonomia, não a começar do zero. Como pode? Não me perguntem agora. Esse amor também está na professora Cyd, que compareceu às conferências com os encarregados de educação no mesmo dia em que perdeu o bebé que carregava. Por quê? Porque, para a directora, isso não era motivo suficiente para se ausentar. Está no professor Teo, que passava horas na biblioteca a pesquisar para garantir aulas relevantes. O amor está neles — e em tantos outros professores cujos sacrifícios conheço com dor.
O nosso amor nunca faltou. O que falta é tudo o resto — salários que não sejam uma ofensa, escolas que funcionem sem depender do nosso bolso, políticas que tratem a nossa profissão como aquilo que ela é: um pilar, e não um voluntariado disfarçado de carreira.
Hoje é dia de falar de amor. Pois bem: ensinar por amor tem um custo. E esse custo, há demasiado tempo, só nós o pagamos.
Eu continuo a ensinar. Com mais formação e mais consciência de tudo o que ainda falta. Com o mesmo amor de sempre — mas com a certeza de que o amor, sozinho, não basta. Nunca bastou. E é hora de pararem de fingir que sim.