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Quando as Políticas Mudam, Quem Mantém a Educação de Pé?

O PROBLEMA DA INVISIBILIDADE EPISTEMOLÓGICA
Quando se analisa a literatura académica e os documentos de política educativa em Angola, encontra-se um padrão consistente: o conhecimento produzido sobre educação é, na sua maioria, construído a partir de perspectivas externas às salas de aula. Decisores políticos, académicos, consultores internacionais e gestores de topo produzem análises, diagnósticos e recomendações — mas as vozes de quem efectivamente implementa a educação no terreno estão amplamente ausentes do registo formal.
Este não é um problema abstracto. É uma lacuna epistemológica com consequências práticas: políticas educativas desenhadas sem compreensão profunda das condições reais de implementação, reformas que não consideram os constrangimentos que os professores enfrentam, soluções importadas que não respondem às especificidades do contexto angolano.
No ensino primário em Angola — o nível de ensino que atende o maior número de crianças e que enfrenta os desafios mais complexos de acesso, permanência e qualidade — as mulheres constituem parte significativa do corpo docente. No entanto, esta presença nas salas de aula não se traduz em representação proporcional nos espaços de produção de conhecimento sobre educação, nem nas estruturas de decisão do sector.
Ahetu mu Kulonga parte de uma premissa simples: quem faz a educação acontecer deve ter voz activa na construção do conhecimento sobre educação. Não como testemunho anedótico, mas como fonte legítima de análise, interpretação e proposição.

POR QUE EM MARÇO?
Março é internacionalmente reconhecido como mês dedicado às questões das mulheres. Em Angola, o Março Mulher já integra o calendário cultural e institucional. A Angola Aprende não inventou esta tradição; convertemo-la para o nosso domínio de actuação — a educação — criando um espaço anual onde educadoras possam contribuir para o debate público sobre o sector a partir das suas experiências e análises.
Fazemo-lo porque reconhecemos que a composição do corpo docente angolano exige esta atenção específica. Se queremos compreender como a educação realmente funciona em Angola — não como deveria funcionar segundo documentos de política, mas como efectivamente funciona nas escolas — precisamos de ouvir sistematicamente quem está no terreno. E no terreno, especialmente no ensino primário, são maioritariamente mulheres.

EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE LIDERANÇA MÓVEL
O tema desta edição — Educação em Tempos de Liderança Móvel — emerge de uma constatação histórica e de uma realidade presente.
Historicamente, nos últimos 50 anos, o sistema educativo angolano passou por múltiplas reformas, mudanças curriculares, alterações de políticas e reestruturações institucionais. Cada administração presidencial trouxe novas prioridades: alfabetização massiva pós-independência, expansão do acesso ao ensino básico, reformas curriculares sucessivas, debates sobre línguas de ensino, integração de tecnologias, ênfase na qualidade.
No presente, a nomeação de uma nova Ministra da Educação, a menos de um ano do final do actual mandato presidencial, ilustra precisamente esta dinâmica. Esta mudança de liderança ministerial — num contexto de incerteza sobre continuidade de políticas após as próximas eleições — coloca os profissionais da educação numa situação familiar: navegar transições, adaptar-se a novas orientações, manter a qualidade do trabalho pedagógico enquanto estruturas e prioridades institucionais se redefinem.
Estas mudanças — algumas necessárias, outras precipitadas, muitas implementadas sem recursos adequados — criaram um contexto onde os profissionais da educação precisam de desenvolver capacidades específicas de adaptação, reinterpretação e implementação criativa. Precisam de “liderar” (tomar decisões, fazer escolhas, priorizar) em contextos onde as directrizes mudam, os recursos flutuam, e as condições locais impõem constrangimentos que os documentos oficiais não prevêem.
Esta é a “liderança móvel” que nos interessa investigar: não a liderança formal em cargos de gestão, mas a liderança pedagógica quotidiana que professoras exercem quando navegam entre o que é prescrito e o que é possível, entre o currículo oficial e a realidade das suas salas de aula, entre as expectativas institucionais e as condições efectivas de trabalho.

O QUE PROCURAMOS COMPREENDER
Ao longo deste mês de Março, convidamos mulheres que estão a estudar para trabalhar na educação, que actuam actualmente em escolas e outros contextos educativos, ou que leccionam no ensino superior na formação de futuras profissionais da educação — no pré-escolar, ensino primário ou ensino secundário — a partilharem as suas análises sobre questões concretas:
Como adaptam currículos e metodologias quando as condições da escola não correspondem aos pressupostos dos documentos oficiais?
Que estratégias desenvolvem para manter continuidade pedagógica em contextos de mudança frequente de políticas e lideranças?
Como tomam decisões quando enfrentam dilemas entre directrizes institucionais e necessidades específicas dos seus alunos?
Que conhecimento prático acumularam sobre o que efectivamente funciona no contexto angolano?

Estas não são questões anedóticas. São questões de investigação. As respostas contribuem para uma base de conhecimento mais sólida, diversa e contextualizada sobre educação em Angola — conhecimento construído não apenas sobre a educação, mas a partir da educação.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação.
Digo isso com orgulho. E convido todas as mulheres que trabalham ou estudam no sector da educação a dizerem o mesmo. A afirmarem a sua presença. A partilharem o seu conhecimento. A reclamarem o seu lugar no debate sobre o futuro da educação angolana.

O Que a Escola Torna Público

Durante doze anos a estudar em Luanda, habituei-me a ver o meu nome exposto nos corredores das escolas por onde passei. Surgia nas vitrinas, nos murais, nas listas afixadas com uma naturalidade quase ritual. Lembro-me bem dessa experiência e lembro-me também de a viver com tranquilidade. Em casa, existia um sistema claro e exigente que garantia acompanhamento constante, disciplina e orientação, assegurando que as minhas notas fossem sempre escritas a preto e, na maioria das vezes, acima da média. Para mim, aquela exposição nunca representou ameaça nem constrangimento.

Mas a escola não era feita apenas de mim.

Ao lado do meu nome, muitas outras notas preenchiam os murais em vermelho. Muitas mesmo. E nós sabíamos exactamente quem eram esses alunos. Tinham nomes, tinham rostos, por vezes até fotografias. A exposição não era abstracta nem distante; era concreta, quotidiana e partilhada por todos. Crescemos a reconhecer, sem necessidade de explicação formal, quem estava “bem” e quem estava “mal”, quem subia ao quadro de honra e quem ficava associado, trimestre após trimestre, à cor que marcava o mural. Aqui manifesta-se já um problema central: a normalização da exposição pública do desempenho académico individual, tratada como prática pedagógica legítima sem reflexão sobre o seu impacto.

Recordo-me também das fotografias. As minhas, integradas nos quadros de honra, em fundos de cartolina cuidadosamente decorados para simbolizar mérito, celebrações e datas festivas. Hoje, observo o mesmo a acontecer com os meus irmãos, que ainda percorrem o sistema de educação em Angola. As vitrinas mudaram de formato, os materiais tornaram-se mais modernos, mas a lógica mantém-se surpreendentemente intacta: nomes, notas, imagens e classificações continuam a ser tornados públicos como parte normal da vida escolar. Este prolongamento no tempo revela um problema institucional persistente: práticas herdadas que se mantêm por hábito e não por intenção pedagógica consciente.

Esta observação não surge como acusação nem como nostalgia. Surge como ponto de partida para uma reflexão necessária. Quando uma prática atravessa gerações quase sem ser questionada, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional. E é precisamente nesse plano que a escola deve interrogar-se sobre o que torna público e porquê.

A avaliação escolar não é apenas um mecanismo técnico de medição do desempenho. É um acto pedagógico que comunica valores, expectativas e hierarquias. A forma como os resultados são divulgados ensina tanto quanto os conteúdos desenvolvidos no ambiente de aprendizagem. Quando a divulgação pública de informação académica individual se transforma em rotina, a avaliação afasta-se da sua função formativa e aproxima-se de uma lógica de exposição que pouco acrescenta à aprendizagem. Aqui evidencia-se outro problema estrutural: a confusão entre avaliação formativa e exibição pública de resultados.

Os dados académicos fazem parte do percurso do aluno e da sua identidade em construção. Nomes, imagens e médias não são meros elementos administrativos; são informação pessoal que exige tratamento criterioso. Torná-los públicos não melhora o processo educativo nem fortalece a avaliação enquanto instrumento pedagógico. Em muitos casos, apenas normaliza a comparação constante e reforça um problema recorrente: a confusão entre transparência institucional e acesso irrestrito à informação individual.

Importa sublinhar que esta reflexão não parte de uma visão paternalista da escola nem de uma leitura de fragilidade dos alunos. Parte da responsabilidade institucional. A escola educa também pelo modo como organiza os seus espaços, comunica resultados e gere informação. Ao expor dados académicos individuais, transmite uma mensagem silenciosa sobre sucesso, fracasso e valor, contribuindo para um problema pedagógico profundo: a redução do valor do aluno ao resultado visível que ocupa no espaço escolar.

Proteger dados no contexto educativo não é uma exigência abstracta nem um detalhe administrativo. É uma extensão natural da ética profissional do educador e do compromisso da escola com a dignidade humana. Transparência não significa tornar tudo visível; significa comunicar com intenção pedagógica, com critério e com consciência do impacto das práticas adoptadas.

Na Angola Aprende, entendemos que educar é um acto consciente e responsável. Rever práticas antigas não é negar a história das escolas angolanas, mas reconhecer que a educação, para cumprir o seu papel transformador, precisa de se alinhar com o tempo presente e com os valores que afirma promover. As instituições que reflectem criticamente sobre as suas práticas não perdem autoridade; constroem confiança, coerência e maturidade institucional.

Como tenho defendido, “na escola, a informação sobre o aluno faz parte do seu percurso e da sua identidade. Tratar esses dados com respeito é educar para a dignidade, para a responsabilidade e para a cidadania.” Esta não é uma questão periférica nem um debate meramente técnico. É um tema central para quem acredita numa educação capaz de formar cidadãos conscientes, críticos e responsáveis.

Os problemas institucionais e caminhos pedagógicos possíveis
O primeiro problema claramente identificado é a divulgação pública de notas individuais, prática que transforma a avaliação num mecanismo de comparação permanente e visível. Quando a nota deixa de ser um instrumento pedagógico e passa a ocupar o espaço público da escola, perde-se o seu carácter formativo. A alternativa consiste na comunicação individualizada dos resultados, assegurando que cada aluno e a sua família recebem a informação de forma directa, contextualizada e pedagógica, preservando a avaliação como instrumento de orientação, acompanhamento e melhoria da aprendizagem.

Um segundo problema é a exposição pública de nomes e imagens associadas ao desempenho académico, frequentemente materializada em quadros de honra afixados em cartolinas e murais. A alternativa não é eliminar o reconhecimento do mérito, mas requalificar a forma como esse reconhecimento acontece. Integrar o mérito académico nas celebrações institucionais da escola, como galas de fim de ano ou momentos solenes, com atribuição de certificados, prémios ou menções formais baseadas em critérios claros, torna o reconhecimento mais memorável, duradouro e pedagógico, sem necessidade de expor notas ou classificações.

Identifica-se também como problema a confusão entre transparência institucional e acesso irrestrito à informação académica individual. Muitas escolas tornam públicos dados por ausência de orientações claras sobre o que deve ou não ser divulgado. A alternativa passa pela definição de protocolos institucionais de comunicação, simples e adequados à realidade escolar, que estabeleçam quem tem acesso à informação, em que formato e com que finalidade, promovendo uma cultura de responsabilidade, critério e respeito pela informação educativa.

Outro problema recorrente é a redução da avaliação ao resultado final tornado visível, frequentemente descontextualizado do percurso do aluno. Quando apenas o resultado é destacado, perde-se a dimensão do processo e do desenvolvimento. A alternativa reside no reforço da avaliação formativa contínua, integrada no ambiente de aprendizagem, com retorno pedagógico regular, acompanhamento sistemático e valorização da evolução do aluno ao longo do tempo, reforçando o sentido pedagógico da avaliação.

Por fim, existe o problema estrutural da manutenção acrítica de práticas herdadas, reproduzidas mais por hábito do que por reflexão pedagógica. A alternativa é investir na formação contínua de professores e gestores escolares, centrada em ética educativa, comunicação institucional e gestão responsável da informação, permitindo que as escolas façam escolhas conscientes, alinhadas com os valores que afirmam promover e com as exigências de uma educação contemporânea.

Educar implica escolhas. A forma como avaliamos, comunicamos e tornamos pública — ou protegemos — a informação dos alunos é uma dessas escolhas. E toda escolha educativa ensina, mesmo quando não é explicitamente assumida como tal.

A Educação do Educador que Angola Chama “Pilar do Desenvolvimento da Sociedade”

22 De Novembro: O Dia Em Que Angola Escolheu Aprender
Em 22 de Novembro de 1977, na fábrica Textang II, em Luanda, o primeiro Presidente da República, António Agostinho Neto, abriu uma campanha de alfabetização que se tornaria marco histórico. Não foi apenas um acto pedagógico — foi uma declaração de soberania: um país livre seria, antes de tudo, um país letrado. Ali, no coração operário da capital, o Estado reconheceu formalmente o poder transformador do educador. Um ano depois, em 1978, a data ficou oficialmente registada como o Dia Nacional do Educador, erguendo o professor como figura central na construção da nação que nascia. Quase 50 anos depois, continuamos a chamar o educador de pilar. Mas deixamos que ele, sozinho, sustente o peso do edifício social. E quando o edifício vacila — porque vacila —, é ao pilar que culpamos pela rachadura.

O Educador Como Pilar E O País Que Ainda Não Aprendeu A Sustentá-Lo
A história da educação angolana é povoada por heróis silenciosos: professores que ensinaram debaixo de árvores, em aldeias sem electricidade, em escolas marcadas por balas. Mulheres e homens que, com giz e coragem, desenharam futuros onde havia apenas pó. Eles não tinham manuais actualizados, mas tinham convicção. Não tinham salários dignos, mas tinham missão. E construíram. Alfabetizaram gerações. Formaram médicos, engenheiros, economistas, ministros. Sustentaram, literalmente, o país.
Hoje, o discurso oficial mantém a retórica da valorização. Os comunicados exaltam a “importância estratégica do professor”. Os discursos evocam o “compromisso com a educação de qualidade”. Mas quando chega a hora de traduzir palavras em políticas, o educador continua a esperar. Espera pela formação contínua que foi prometida. Espera pelo salário que reflicta a dimensão social do seu trabalho. Espera pelo reconhecimento que não cabe em cerimónias, mas se mede em condições concretas de dignidade profissional.

O Planeamento Como Símbolo Do Respeito Pelo Educador
O planeamento educacional não é burocracia. É arquitectura do tempo pedagógico. É a base sobre a qual o professor organiza programas, planifica aulas, desenha avaliações, prepara materiais. É o instrumento que permite ao educador ser profissional — e não improvisador. Quando o sistema não oferece previsibilidade, obriga-se o professor a trabalhar no improviso. Pede-se que planifique sem ter parâmetros claros. Exige-se rigor sem oferecer estrutura. É como construir uma casa sem saber quantos andares terá.
O planeamento educacional é mais do que procedimento — é uma promessa de seriedade com a educação. Quando essa promessa é quebrada sistematicamente, não é apenas o professor que perde. É o aluno que estuda num sistema desorganizado. É a família que não consegue planear. É o país que ensina, pelo exemplo, que o planeamento não importa. Um país que quer professores preparados precisa dar-lhes tempo e previsibilidade. Não se pode pedir excelência a quem trabalha no improviso permanente.
O Valor Social Do Educador
A profissão docente é a fundação de todas as outras. Não há médico sem professor. Não há jurista, economista ou engenheiro que não tenha sido, primeiro, aluno. O educador é o arquitecto do capital humano — o recurso mais precioso de qualquer nação que se pretenda desenvolvida. Mas em Angola, essa profissão fundacional é socialmente invisível e economicamente instável. O educador é celebrado em datas comemorativas e esquecido em orçamentos. É chamado ao palco em cerimónias oficiais e devolvido a salas superlotadas, sem material, sem apoio, sem voz nas decisões que afectam o seu trabalho. Chamamos o educador de pilar, mas o tratamos como escada — usado para subir, esquecido quando o topo é alcançado.
A verdade inconveniente é esta: enquanto o professor continuar a ser mal remunerado, socialmente desvalorizado e profissionalmente abandonado, o discurso sobre “educação de qualidade” será retórica vazia. Porque educação de qualidade exige educadores valorizados. E valorização não se declama — constrói-se com políticas, salários, formação, condições de trabalho, reconhecimento estrutural.

Reaprender A Valorizar Quem Ensina
No Dia Nacional do Educador, Angola precisa de olhar para si mesma e fazer perguntas honestas:
O país precisa de reaprender a planear. Porque planeamento é a primeira forma de respeito institucional. E respeitar o educador é respeitar a educação.
A escola precisa de reaprender a respeitar o tempo do professor. Tempo de preparar aulas. Tempo de estudar. Tempo de viver para além da sala de aula. Porque professores exaustos não fazem milagres — fazem o que podem.
E o professor precisa de reaprender a acreditar que a educação ainda pode transformar o país. Mas essa crença não se mantém com voluntarismo. Mantém-se com provas concretas de que o Estado acredita nele, investe nele, o sustenta.
A educação do educador é a educação de Angola. Se o país continuar a celebrar sem sustentar, se continuar a exaltar sem estruturar, se continuar a clamar por desenvolvimento enquanto deixa desmoronar o único pilar capaz de o erguer, então continuará a falar de futuro sem o construir. Porque um país que não educa o seu educador não está apenas a falhar com uma classe profissional — está a falhar consigo mesmo.

Finanças Sem Literacia: As Lições que o Governo Ainda Não Aprendeu Depois de 50 Anos na Mesma Sala de Aulas

CINQUENTA ANOS NA MESMA SALA DE AULAS
Existem países que aprendem com os erros. E existem países que apenas os repetem, geração após geração, como se a História não ensinasse nada. Angola celebra em 2025 os 50 anos da sua independência, e seria natural esperar que meio século fosse tempo suficiente para amadurecer, para consolidar saberes, para transformar experiência em sabedoria. Mas quando olhamos para a gestão das finanças públicas, o que vemos é um país que continua na mesma sala de aulas, com o mesmo professor, a repetir os mesmos erros, como se a repetição fosse um método e não um sintoma.
Hoje, 14 de Novembro, o mundo celebra o Dia Mundial da Alfabetização Financeira. É uma data que nos convida a pensar sobre literacia — essa competência tão básica e tão essencial que distingue quem gere de quem desperdiça, quem planeia de quem improvisa, quem constrói futuro de quem apenas consome presente. Mas o que significa literacia financeira quando aplicada a um país? Significa a capacidade colectiva de compreender que dinheiro público não é infinito, que cada escolha tem um custo de oportunidade, que gastar 12 milhões de euros em 90 minutos de futebol enquanto milhões de crianças estudam com fome não é apenas má gestão — é ausência de literacia.
Este texto não é um tratado de economia. É uma reflexão sobre educação. Sobre o que acontece quando um país, durante 50 anos, se recusa a aprender as lições mais elementares da gestão financeira. Sobre a diferença entre saber contar e saber o que conta. Sobre a distância entre ter recursos e saber usá-los.
A metáfora da sala de aulas não é acidental. É intencional. Porque gerir um país é, no fundo, um acto pedagógico: aprende-se com os acertos e, sobretudo, com os erros. Mas Angola parece ter faltado a todas as aulas de literacia financeira. E agora, 50 anos depois, com o mesmo professor à frente da turma, continua a reprovar nas mesmas disciplinas.

CINQUENTA ANOS SEM FAZER OS TRABALHOS DE CASA
Quando Angola nasceu como país independente em 1975, nasceu em guerra. E a guerra, como sabemos, não é a melhor professora de gestão financeira. A guerra ensina urgência, não planeamento. Ensina sobrevivência, não sustentabilidade. Ensina a gastar tudo hoje porque amanhã pode não chegar.
Durante 27 anos — de 1975 a 2002 — Angola viveu em guerra civil. É compreensível, portanto, que durante mais de metade da sua existência como país independente a literacia financeira não fosse prioridade. Mas o problema não foi a ausência de literacia naqueles anos de sobrevivência. O problema foi que, mesmo depois da paz em 2002, Angola nunca parou para dizer: agora vamos aprender a fazer diferente. O professor continuou o mesmo. O método continuou o mesmo. E os resultados também.
Mesmo em contexto de guerra, Angola tinha petróleo. Tinha receitas. E a forma como essas receitas foram geridas — ou não geridas — revela um padrão que se repetiria nas décadas seguintes: a ilusão de que abundância dispensa planeamento. Como se o dinheiro que entra hoje garantisse o dinheiro de amanhã. Como se recursos não renováveis fossem eternos. Como se não fosse preciso poupar nos tempos de fartura para sobreviver nos tempos de escassez.
A literacia financeira ensina o óbvio: que nenhuma fonte de receita dura para sempre. Que é nos tempos bons que se preparam os tempos maus. Que riqueza não é quanto se ganha, mas quanto se consegue preservar e multiplicar. Angola não aprendeu nenhuma destas lições durante a guerra. E depois da guerra, continuou sem aprender. Quando os tempos maus chegaram — e chegaram sempre — o país descobriu que não tinha feito os trabalhos de casa. O professor tinha passado a matéria. Mas ninguém tinha estudado.

CINQUENTA ANOS COM O MESMO CADERNO VAZIO
Se os primeiros 27 anos de independência foram de guerra, os anos seguintes foram de abundância. Entre o fim da guerra civil em 2002 e o pico do preço do petróleo em 2014, Angola viveu apenas 12 anos de prosperidade — mas foram anos de prosperidade sem precedentes. O PIB cresceu a taxas impressionantes. Luanda transformou-se num gigantesco canteiro de obras. O dinheiro entrava aos milhões, aos milhares de milhões.
E o que Angola fez com essa abundância? Gastou. Gastou tudo. E gastou mal.
Não se trata apenas de ter gasto muito — isso pode acontecer. Trata-se de ter gasto sem critério, sem planeamento, sem pensar no dia seguinte. Construíram-se estádios que raramente são usados. Edificaram-se cidades inteiras que ficaram vazias. Importou-se tudo, desenvolveu-se pouco. O petróleo continuou a ser a única fonte de receita, como se a diversificação económica fosse uma opção e não uma necessidade vital.
O caderno ficou vazio. Nenhuma lição foi registada. Nenhum erro foi analisado. Nenhuma alternativa foi pensada. O professor continuou a dar as mesmas aulas, a usar os mesmos métodos, a repetir as mesmas fórmulas. E quando o preço do petróleo caiu em 2014 — apenas 12 anos depois do fim da guerra — Angola descobriu que tinha desperdiçado a maior oportunidade económica da sua história. Tinha tido uma década de fartura e saiu dela mais pobre, mais endividada, mais dependente do petróleo do que quando entrou.
Há algo de trágico nesta história. Porque não foi por falta de avisos. Economistas, organizações internacionais, analistas — todos repetiram, durante anos, a mesma mensagem: diversifiquem a economia, invistam na agricultura, desenvolvam a indústria, criem um fundo soberano para as gerações futuras. Mas Angola não ouviu. Ou ouviu e ignorou. Porque literacia financeira não é apenas ter acesso à informação. É ter a humildade de aprender com ela. É ter a coragem de questionar o professor quando a matéria não está a resultar.

CINQUENTA ANOS REPETINDO OS MESMOS ERROS
Em 2017, Angola prometeu mudança. Falou-se de um novo método, de novas práticas, de uma forma diferente de fazer as coisas. Falou-se de combate à corrupção, de reforma económica, de diversificação. E houve sinais positivos. Houve investigações. Houve recuperação de activos. Houve, pela primeira vez em muitos anos, a sensação de que algo podia mudar.
Mas 8 anos depois, em 2025, o que mudou realmente?
A dívida pública continua insustentável — acima de 120% do PIB. O serviço da dívida consome quase metade das receitas do Estado. A dependência do petróleo continua quase total. E as prioridades orçamentais continuam invertidas: milhões para espectáculos, migalhas para a merenda escolar; investimento em visibilidade, desinvestimento em dignidade.
O que isto revela não é incompetência. É algo mais profundo: é a ausência de uma cultura de literacia financeira. É a perpetuação de um modelo mental que vê o dinheiro público como recurso infinito, que confunde despesa com investimento, que prioriza o espectacular sobre o essencial. É o resultado de 50 anos na mesma sala de aulas, a seguir o mesmo programa, sem nunca questionar se o método está a funcionar.
E talvez o mais inquietante seja isto: não estamos a falar de erros novos. Estamos a falar dos mesmos erros de há 50 anos, repetidos com ligeiras variações. A dependência do petróleo dos anos 70 é a mesma de hoje. O endividamento excessivo dos anos 90 e 2000 é o mesmo de hoje. A opacidade na gestão dos fundos públicos persiste. As prioridades invertidas repetem-se.
Cinquenta anos na mesma sala de aulas. Cinquenta anos com o mesmo professor. Cinquenta anos a copiar do mesmo caderno errado. E ainda não percebemos que repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes não é estratégia — é insanidade.

CINQUENTA ANOS SEM ENSINAR A LIÇÃO MAIS IMPORTANTE
Mas talvez o problema mais profundo seja este: Angola nunca ensinou literacia financeira ao seu povo.
Não se pode exigir de um governo aquilo que a população não sabe exigir de si mesma. Um país onde a maioria não sabe fazer um orçamento doméstico, não compreende o que é uma taxa de juro, não distingue poupança de despesa — esse país não tem ferramentas para cobrar responsabilidade fiscal dos seus governantes.
A literacia financeira não é um conhecimento técnico. É uma competência cívica. É tão fundamental quanto saber ler e escrever. Porque numa democracia, os cidadãos não votam apenas em pessoas — votam em orçamentos, em prioridades, em visões de futuro. E como se vota bem se não se sabe ler um orçamento? Como se cobram contas se não se sabe fazer contas? Como se questiona o professor se não se compreende a matéria?
Angola passou 50 anos sem colocar a literacia financeira no centro da educação. Não há uma disciplina sobre gestão do dinheiro nas escolas. Não há programas de educação financeira acessíveis. Não há uma cultura de planeamento, de poupança, de pensamento a longo prazo. E o resultado está à vista: uma população que não sabe cobrar, e um governo que não sabe prestar contas.
Se queremos mudar a forma como o Estado gere o dinheiro público, temos de começar por mudar a forma como ensinamos o valor do dinheiro. Temos de fazer da literacia financeira uma missão nacional. Temos de criar uma geração de cidadãos que saibam ler um orçamento, que compreendam a diferença entre investimento e despesa, que exijam transparência e racionalidade nas decisões públicas.
Porque a mudança não virá de cima. Virá de baixo, de uma população educada, informada, capaz de dizer: não, isto não faz sentido. Não, não podemos gastar 12 milhões em 90 minutos de futebol quando milhões de crianças não têm merenda. Não, não podemos continuar a fazer as mesmas escolhas e esperar resultados diferentes. E, talvez o mais importante: não, não podemos continuar 50 anos com o mesmo professor sem nunca questionar os métodos.

CINQUENTA ANOS DEVENDO A MESMA LIÇÃO
Há dívidas que se pagam com dinheiro. E há dívidas que se pagam com conhecimento.
Angola tem uma dívida financeira que todos conhecem: 70 mil milhões de dólares devidos a credores de todo o mundo. Mas tem também uma dívida pedagógica — uma dívida de aprendizagem, uma dívida de literacia, uma dívida que se acumulou ao longo de 50 anos de escolhas erradas e lições ignoradas.
Cinquenta anos é muito tempo. É tempo suficiente para aprender. É tempo suficiente para amadurecer. É tempo suficiente para transformar erros em sabedoria. Mas só se houver vontade de aprender. Só se houver humildade para reconhecer os erros. Só se houver coragem para fazer diferente. E, às vezes, só se houver coragem para trocar de professor.
A literacia financeira não é apenas uma questão técnica. É uma questão moral. É a capacidade de olhar para o Orçamento do Estado e perguntar: estas escolhas fazem sentido? Servem o bem comum? Privilegiam o essencial? Ou estamos apenas a repetir, mais uma vez, os mesmos erros que repetimos há 50 anos, na mesma sala de aulas, com o mesmo professor, usando o mesmo método que nunca funcionou?
No Dia Mundial da Alfabetização Financeira, Angola devia parar e reflectir. Não sobre o que conquistou — isso já sabemos. Mas sobre o que ainda não aprendeu. Sobre as lições que continua a ignorar. Sobre os erros que continua a repetir. Sobre o tempo que passou na mesma sala de aulas sem nunca passar de ano.
Porque a verdadeira independência não se mede por celebrações. Mede-se por escolhas. E as nossas escolhas, durante 50 anos, mostram que ainda estamos na mesma sala de aulas, a seguir o mesmo programa, a repetir os mesmos erros.
Mas há esperança. Porque enquanto houver consciência do erro, há possibilidade de mudança. Enquanto houver vontade de aprender, há caminho para o acerto. Enquanto houver quem questione, quem exija, quem cobre — há futuro. E enquanto houver cidadãos que compreendem que têm o direito de escolher o professor, há democracia.
A sala de aulas está aberta. O quadro está limpo. A lição está escrita.
Agora só falta uma coisa: querer aprender. E ter a coragem de exigir melhores professores.

Angola: Não Há Pão para 9 Milhões de Crianças, Mas Há 12 Milhões de Euros para 90 Minutos de Messi

I. O CONTRASTE DRAMÁTICO
Num país onde milhões de crianças estudam com fome, o Estado encontra 12 milhões de euros para pagar 90 minutos de glória. Esta frase não é retórica. É aritmética. É a descrição exacta de uma escolha que Angola celebra hoje.

Hoje, 14 de Novembro de 2025, Angola recebe a selecção argentina de futebol, comandada por Lionel Messi, num jogo amistoso no Estádio 11 de Novembro, em Luanda. O evento marca as celebrações dos 50 anos da independência nacional, celebrados há três dias. Segundo a imprensa desportiva internacional, particularmente o portal Sport News Africa, o governo angolano pagou 12 milhões de euros à Associação de Futebol da Argentina para garantir a presença do plantel campeão mundial.
Enquanto isso, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) 2025-2027 — desenhado para alimentar 5,4 milhões de crianças angolanas durante o ano lectivo — começou a ser implementado apenas em outubro de 2025, nos municípios com maiores dificuldades alimentares. Aprovado por decreto presidencial em Abril de 2025, o programa tem um orçamento anual de 450 mil milhões de kwanzas (cerca de 436 milhões de euros) para cobrir 6.926 escolas públicas em todo o país.
A fome escolar não é um problema invisível em Angola. É uma realidade diária nas salas de aula. Professores assistem ao cansaço de alunos que chegam sem pequeno-almoço, ao esforço de quem tenta aprender com o estômago vazio, à desistência silenciosa de quem não tem forças para continuar. A merenda escolar não é apenas comida. É combustível para a mente, é dignidade, é futuro.

Angola vive uma contradição profunda: entre o discurso de compromisso social e a prática de investimento simbólico. Entre os 50 anos de independência que se celebram com um jogo de futebol e as milhões de crianças que esperam pela refeição que nunca chega.

II. A PROMESSA QUE AINDA NÃO CHEGOU A TODOS
O Programa Nacional de Alimentação Escolar não é uma novidade nem uma promessa vazia. É um compromisso assumido pelo Estado angolano, fundamentado em lei e em obrigações constitucionais.
Aprovado em Abril de 2025 por decreto presidencial, o PNAE 2025-2027 pretende assegurar alimentação escolar a 5,4 milhões de crianças matriculadas na educação pré-escolar e no ensino primário. O custo diário por criança é de 376,82 kwanzas (aproximadamente 0,36 cêntimos de euro), distribuídos ao longo de cinco dias por semana, durante dez meses do ano lectivo.
O programa tem um orçamento trienal de 1,3 biliões de kwanzas (1,2 mil milhões de euros), divididos em parcelas anuais de 450 mil milhões de kwanzas (436 milhões de euros). A gestão é descentralizada, ficando a cargo das administrações municipais, numa tentativa de garantir maior eficiência e proximidade às necessidades locais.
Em Outubro de 2025, o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, anunciou que o PNAE começou a ser implementado nos municípios que apresentam maiores dificuldades alimentares. “Começamos já com ensino de base e começamos com os municípios que apresentam as maiores dificuldades”, afirmou Massano, sem especificar quais. Os municípios das categorias A e B — que incluem os centros urbanos mais desenvolvidos — não fazem parte do início do programa.
O ministro classificou o PNAE como “despesa obrigatória” do Estado, ao lado dos salários, pensões de reforma, dívida e projectos estruturantes. Reconheceu também que o programa terá de ser consolidado progressivamente, à medida que se aprende com o processo e se mobilizam os recursos necessários.

Mas o que significa, na prática, esta implementação gradual? Significa que, neste momento, há milhões de crianças angolanas que continuam a estudar com fome. Significa que, enquanto se espera pela expansão do programa, há salas de aula onde a concentração é roubada pela fome, onde o cansaço vence a vontade de aprender, onde a desistência é uma questão de sobrevivência.

A fundamentação legal do PNAE é sólida. A Constituição da República de Angola, no n.º 6 do artigo 35.º, estabelece que “a protecção dos direitos da criança, nomeadamente a sua educação integral e harmoniosa, a protecção da sua saúde, condições de vida e ensino constituem absoluta prioridade da família, do Estado e da sociedade.” O artigo 79.º determina que “o Estado promove o acesso de todos à alfabetização, ao ensino, à cultura e ao desporto.” E o artigo 80.º reforça que “a criança tem direito à atenção especial da família, da sociedade e do Estado, os quais, em estreita colaboração, devem assegurar a sua ampla protecção.”
A Lei n.º 25/12, de 22 de Agosto — Lei sobre a Protecção e Desenvolvimento Integral da Criança — obriga o Estado a assegurar “a sobrevivência, a saúde e o desenvolvimento da criança em Angola desde os primeiros anos da vida”, nomeadamente através de “serviços e acções em prol da criança na área de nutrição.”

O direito à merenda escolar não é, portanto, um favor. É um direito fundamental. A merenda que não chega não é apenas comida que falta. É um direito negado. É uma promessa constitucional incumprida. É o futuro que se adia, uma criança de cada vez.

III. 12 MILHÕES PARA 90 MINUTOS
Enquanto a implementação do PNAE avança de forma gradual e selectiva, Angola decidiu investir 12 milhões de euros num jogo de futebol que acontece hoje.
Segundo o portal Sport News Africa, o governo angolano pagou este valor à Associação de Futebol da Argentina (AFA) para garantir a presença da selecção campeã do mundo em Luanda, neste 14 de Novembro de 2025. O jogo insere-se nas comemorações dos 50 anos da independência de Angola, celebrados há três dias, a 11 de novembro.
A imprensa internacional reporta valores diferentes. A agência Deutsche Welle (DW) aponta para um montante entre 5 e 12 milhões de euros. Mas o valor mais citado — e o que foi confirmado por múltiplas fontes desportivas — é de 12 milhões de euros. Este foi também o valor que afastou outras selecções africanas, como Marrocos, que manifestaram interesse em receber a Argentina mas consideraram o custo proibitivo.
O valor elevado deve-se sobretudo à presença de Lionel Messi, considerado um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. O jogo de hoje é o único compromisso da Argentina na data FIFA de Novembro, e o seleccionador Lionel Scaloni deverá aproveitar para testar novos jogadores visando o Mundial de 2026. Ainda assim, a presença de Messi é vista como essencial para atrair o público e dar visibilidade ao evento.

Este não é, contudo, o único custo associado ao evento de hoje. O Estádio 11 de Novembro, construído em 2010 para o Campeonato Africano das Nações (CAN), apresentava sinais avançados de degradação. Para preparar o recinto para este jogo, o Presidente João Lourenço autorizou, através do Despacho Presidencial n.º 224/25, de 5 de Setembro, a segunda fase das obras de requalificação do estádio, com um investimento de 13,6 milhões de dólares (aproximadamente 11,75 milhões de euros).
Esta segunda fase junta-se à primeira fase de obras, realizada em 2023, que custou 23,7 milhões de dólares. No total, a requalificação do Estádio 11 de Novembro para receber o jogo de hoje custou 37,3 milhões de dólares.

Em Novembro de 2025, quatro organizações da sociedade civil angolana — Associação Luterana para o Desenvolvimento de Angola (ALDA), Organização pelo Observatório para a Coesão Social e Justiça (OCSJ), Friends of Angola (FOA), Associação Omungo — divulgaram uma carta aberta manifestando “profunda indignação e séria preocupação” com os gastos associados ao jogo. Segundo estas organizações, “o Estado angolano terá gasto entre 10 e 12 milhões de dólares para assegurar a presença da selecção argentina em Luanda, somados a aproximadamente 13,6 milhões de dólares investidos na segunda fase das obras de requalificação do estádio.” O montante total estimado — superior a 25 milhões de dólares (cerca de 21,6 milhões de euros) — “esbarra de forma flagrante com a grave realidade socioeconómica que o país enfrenta.”
O jogo foi também criticado pela UNITA, o principal partido da oposição, que estimou os custos totais em 20 milhões de dólares (cerca de 18,5 milhões de euros) e denunciou que “a população está a morrer de malária e de fome.”

Em Agosto de 2025, grupos de activistas angolanos apelaram à Associação de Futebol Argentino e a Lionel Messi para cancelarem o jogo, num pedido que surgiu após a morte de 30 pessoas durante tumultos na capital. Os activistas sublinharam que o apelo “representa um grito de consciência diante da dolorosa realidade vivida por milhões de angolanos, que contrasta com a ostentação e os gastos milionários na organização do evento.”
O governo angolano defende que o jogo é um “investimento em visibilidade” e um “símbolo de reconhecimento internacional” que promoverá o futebol angolano. Mas as questões que ficam são simples: visibilidade para quem? Reconhecimento de quê?

O país que adia a merenda das crianças não pode celebrar o futuro. Hoje não.

IV. FAZER AS CONTAS
Hoje, enquanto Angola se prepara para receber Messi, vale a pena fazer as contas.
Os números não mentem. E, neste caso, os números são devastadores.
Segundo o PNAE, o custo diário de uma refeição escolar é de 376,82 kwanzas por criança. Considerando um ano lectivo de 200 dias (5 dias por semana, durante 10 meses), o custo anual por criança é de 75.364 kwanzas. À taxa de câmbio actual (aproximadamente 1.032 kwanzas por euro), isto equivale a cerca de 73 euros por criança/ano.
Os 12 milhões de euros gastos no jogo com a Argentina equivalem, portanto, a alimentar 164.383 crianças durante um ano lectivo completo.
Se considerarmos apenas os 13,6 milhões de dólares (aproximadamente 11,75 milhões de euros) da segunda fase das obras do estádio, este valor seria suficiente para alimentar 160.959 crianças durante um ano lectivo.
Se somarmos o custo total das obras do estádio (37,3 milhões de dólares, aproximadamente 32,2 milhões de euros) ao custo do jogo (12 milhões de euros), chegamos a 44,2 milhões de euros. Este valor seria suficiente para alimentar 605.479 crianças durante um ano lectivo completo — ou seja, mais de 11% das 5,4 milhões de crianças que o PNAE pretende abranger.
Mas há outra forma de fazer as contas. Uma forma mais dramática. Uma forma que nos obriga a pensar no que acontece hoje, neste preciso momento.
O jogo tem 90 minutos de duração. Dividindo os 12 milhões de euros pelos 90 minutos, chegamos a 133.333 euros por minuto. Com este valor, seria possível alimentar 1.826 crianças durante um ano lectivo completo.
Por cada minuto que Messi passar hoje em campo, 1.826 crianças poderiam ter comido durante 200 dias.
Por cada segundo do jogo desta noite — 13,33 euros por segundo — seria possível alimentar uma criança durante três meses e meio.
Estas não são apenas estatísticas. São vidas. São crianças reais, com nomes, com sonhos, com fome. São alunos que chegam à escola às sete da manhã sem ter tomado pequeno-almoço e passam cinco ou seis horas sem comer. São professores que vêem a concentração dos alunos desaparecer a meio da manhã, substituída pelo cansaço e pela distracção que a fome traz. São pais que enviam os filhos para a escola sabendo que eles não terão o que comer até regressarem a casa.
O problema não é celebrar os 50 anos da independência. O problema não é gostar de futebol. O problema não é mesmo querer trazer Messi a Angola.
O problema é a escolha. É decidir que 90 minutos de glória valem mais do que 164.383 crianças alimentadas durante um ano. É decidir que a visibilidade internacional vale mais do que a dignidade nacional. É decidir que o espectáculo vale mais do que a educação.
Estas são escolhas. E escolhas revelam prioridades.

V. AS ESCOLHAS QUE REVELAM PRIORIDADES
As políticas públicas são espelhos das prioridades de um Estado. Cada linha do Orçamento Geral do Estado conta uma história sobre aquilo que um país valoriza. Cada decisão de investimento é também uma mensagem para as gerações presentes e futuras sobre o que importa, sobre o que é prioritário, sobre o que define uma nação.
Angola decidiu gastar mais num jogo de futebol do que alimentaria 164.383 crianças durante um ano. Esta não é uma crítica ao futebol, nem uma crítica ao entretenimento, nem sequer uma crítica à celebração dos 50 anos da independência. É uma crítica à inversão de prioridades. É uma crítica à escolha de investir na aparência em vez de investir na essência. É uma crítica ao que Angola celebra hoje.
A Constituição da República de Angola é clara. O artigo 21.º, sobre as tarefas fundamentais do Estado, determina na alínea i) que cabe ao Estado “efectuar investimentos estratégicos, massivos e permanentes no capital humano, com destaque para o desenvolvimento integral das crianças e dos jovens, bem como na educação, na saúde, na economia primária e secundária e noutros sectores estruturantes para o desenvolvimento auto-sustentável.”
Massivos e permanentes. Estas são as palavras da Constituição. Não ocasionais. Não graduais. Não selectivos. Massivos e permanentes.
A educação não é caridade. É dever constitucional. A alimentação escolar não é um favor. É um direito fundamental. Cada decisão orçamental é também uma lição para as novas gerações. E a lição que Angola dá hoje é devastadora: a aparência vale mais do que a substância; o espectáculo vale mais do que a dignidade; 90 minutos de glória valem mais do que 9 milhões de crianças com fome.
As organizações da sociedade civil que se manifestaram contra os gastos com o jogo sublinharam que “esta situação entra em conflito com normas jurídicas nacionais e internacionais às quais Angola aderiu.” Citaram a Lei n.º 13/25, de 7 de outubro de 2025, que determina que “os fundos públicos só podem ser criados por despacho do Presidente da República, acompanhado de relatório justificativo de necessidade e de viabilidade técnica e económica.” Argumentaram que os custos do jogo contrariam “normas positivas de boa governação e obrigações de priorização de recursos para direitos fundamentais.”
O Programa Alimentar Mundial estima que metade dos angolanos vive com menos de 3,65 dólares por dia. O Índice Global da Fome 2025 coloca Angola entre os 13 países com maior nível de fome no mundo — o pior índice entre os países lusófonos. Dados do Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde (IIMS) de 2015-2016 indicavam que 38% das crianças angolanas sofriam de desnutrição crónica.
Não faltam dados. Não falta informação. Não falta conhecimento sobre a gravidade da situação. O que falta é prioridade. O que falta é vontade política. O que falta é a coragem de dizer: as crianças primeiro.
A merenda escolar negada hoje não é apenas uma refeição perdida. É capacidade cognitiva comprometida. É rendimento escolar reduzido. É abandono escolar facilitado. É potencial humano desperdiçado. É futuro roubado.
O futuro de Angola não se constrói com jogos de futebol. Constrói-se com crianças bem alimentadas, bem educadas, bem cuidadas. Constrói-se com investimento massivo e permanente na educação. Constrói-se com escolhas coerentes entre o discurso e a prática.

VI. A PERGUNTA QUE FICA
Quando um país escolhe 90 minutos de aplausos em vez de 9 meses de merenda, o que ensina aos seus filhos?
Ensina que o espectáculo vale mais do que a educação. Ensina que a visibilidade internacional vale mais do que a dignidade nacional. Ensina que 164.383 crianças alimentadas durante um ano valem menos do que um jogo de futebol. Ensina que os 50 anos de independência se celebram com símbolos vazios em vez de políticas concretas. Ensina que o futuro pode esperar, porque o presente é um espectáculo.
Angola está às vésperas de celebrar meio século de independência. Cinquenta anos de soberania, de construção nacional, de afirmação no mundo. Mas a verdadeira independência de um país não se mede pelos jogos que consegue organizar. Mede-se pelas crianças que consegue alimentar. Mede-se pela educação que consegue garantir. Mede-se pela dignidade que consegue assegurar a todos os seus cidadãos.
O futuro de Angola não depende de vitórias no relvado. Depende da dignidade nas escolas. Depende de crianças bem alimentadas, bem ensinadas, bem cuidadas. Depende de escolhas que privilegiem a essência em vez da aparência. Depende de políticas que coloquem as crianças em primeiro lugar — não no discurso, mas na prática. Não nas promessas, mas no Orçamento.
Às vésperas dos 50 anos de independência, Angola enfrentou uma escolha: celebrar o passado ou alimentar o futuro. Comemorar com espectáculos ou investir em substância. Gastar 12 milhões de euros em 90 minutos de glória ou alimentar 164.383 crianças durante um ano.
A escolha foi feita. E hoje, Angola celebra essa escolha.
A merenda das crianças não é negociável. Não é um luxo. Não é uma despesa que se adia. É a medalha mais valiosa que uma Nação pode exibir. É o investimento mais estratégico que um Estado pode fazer. É a prova mais real de compromisso com o futuro.
Não há pão — não há merenda — para 9 milhões de crianças. Mas hoje há 12 milhões de euros para 90 minutos de Messi.
Esta é a escolha que Angola celebra hoje.
E esta escolha diz tudo sobre as prioridades de quem governa o nosso país.

Bibliotecas Escolares: O Investimento que Pode Mudar o Destino de Angola

Nenhum país se constrói apenas com recursos naturais. As nações que prosperam são aquelas que compreendem que o verdadeiro petróleo é o conhecimento, e que a maior riqueza está nas mentes bem formadas do seu povo. Em Angola, onde mais de metade da população é jovem, o futuro depende da capacidade colectiva de transformar potencial em competência, curiosidade em criatividade e talento em progresso. Nesse esforço, as bibliotecas escolares representam uma das políticas públicas mais simples, económicas e poderosas para garantir a qualidade e a equidade da educação.
Numa comunidade de baixos recursos, uma biblioteca não é apenas um edifício com livros. É um centro de esperança, um espaço onde a criança descobre o mundo para além das fronteiras da pobreza, onde o jovem encontra respostas e onde o professor se reencontra com o seu propósito. A biblioteca é a escola depois da aula, o lar depois do dever, o refúgio silencioso onde a mente aprende a sonhar e o coração aprende a pensar. É, simultaneamente, o lugar da curiosidade e da dignidade, o ponto de encontro entre o saber formal e o saber vivido das comunidades.
Num país de desigualdades marcadas, investir em bibliotecas escolares é investir em igualdade de oportunidades. Quando uma escola dispõe de uma biblioteca activa e aberta à comunidade, os resultados são visíveis: alunos mais motivados, professores mais preparados, famílias mais envolvidas e comunidades mais conscientes. É um investimento que reduz a exclusão, previne o abandono escolar e combate a pobreza com o poder mais duradouro que existe — o do conhecimento partilhado.
A Lei de Bases do Sistema de Educação (Lei n.º 13/01) define a educação como processo contínuo de desenvolvimento humano, social e cultural. A Constituição da República de Angola consagra a educação como um direito e um dever do Estado e da sociedade. A Lei sobre o Desenvolvimento Integral da Criança (Lei n.º 25/12) determina que cada criança deve ter acesso a condições que garantam o seu crescimento intelectual e moral. Mas uma lei só se cumpre quando é acompanhada de acções concretas. A biblioteca escolar é uma dessas acções: um gesto político de justiça social que torna real o direito à educação de qualidade, independentemente do lugar onde a criança nasce.
Nas zonas rurais e periurbanas, onde o acesso à internet é limitado e os recursos pedagógicos são escassos, a biblioteca é frequentemente o único espaço público de aprendizagem livre. É ali que o saber circula, que a leitura desperta, que a imaginação floresce e que a cidadania se aprende. Uma criança que lê compreende melhor o mundo e faz melhores escolhas. Um jovem que frequenta a biblioteca desenvolve pensamento crítico, autonomia e ambição. Um professor com acesso a livros ensina com mais profundidade e confiança. E uma comunidade que lê é uma comunidade mais consciente, mais tolerante e mais participativa.
Investir em bibliotecas escolares é um acto de governação visionária. É investir em capital humano, na paz social e na sustentabilidade económica. O custo de uma biblioteca é irrisório quando comparado com o custo da ignorância, da exclusão e da dependência. Cada livro é uma arma contra o atraso, cada prateleira é uma oportunidade de futuro, cada biblioteca é uma semente de progresso plantada no coração de uma escola.
Ao criar e equipar bibliotecas escolares em todo o território nacional, o Estado estaria a fortalecer o sistema educativo, mas também a construir pontes entre gerações e regiões, aproximando o centro das margens e transformando as periferias em espaços de produção de saber. Essa política não requer apenas orçamento; requer vontade política, visão estratégica e fé no poder transformador da educação.
Angola precisa de mais do que escolas — precisa de escolas com alma, e a alma de uma escola é a sua biblioteca. É nela que o estudante aprende a pensar, o professor aprende a inovar e a comunidade aprende a sonhar. Quando uma criança entra numa biblioteca, ela entra, simbolicamente, no futuro do país. E quando um governo decide investir nelas, decide também investir na inteligência colectiva e na dignidade do seu povo.
O futuro de Angola será escrito nas páginas que as suas crianças aprenderem a ler. Cada biblioteca escolar inaugurada é um acto de fé no desenvolvimento nacional, um compromisso com a equidade e um tributo ao direito universal de aprender. Porque um livro aberto é uma mente livre — e uma mente livre é o início de uma nação próspera.

O Papel Vital dos Programas Comunitários na Alfabetização e no Desenvolvimento do País

A alfabetização não é apenas um acto de ensinar a ler e a escrever — é a base sobre a qual se constrói a cidadania, o desenvolvimento social e o crescimento económico. Em Angola, onde milhares de crianças, jovens e adultos ainda não têm acesso pleno à escola formal, os programas comunitários de alfabetização têm-se revelado um verdadeiro pilar da transformação nacional.

Em muitos bairros urbanos e comunidades rurais, é nesses espaços alternativos — igrejas, quintais, centros comunitários — que se cumpre, de forma prática, aquilo que a Constituição da República de Angola garante como direito fundamental e que a Lei de Bases do Sistema de Educação define como obrigatório e gratuito. Quando o Estado não chega com a força necessária, a comunidade responde, mostrando que a alfabetização não pode esperar.

Estes programas têm um impacto directo na vida das pessoas. Para uma criança, aprender a ler significa poder continuar estudos e sonhar com um futuro diferente. Para um adulto, significa recuperar a dignidade de assinar o próprio nome, compreender documentos, aceder a serviços básicos. Mas o impacto vai muito além do individual: comunidades alfabetizadas tornam-se mais participativas, mais informadas e mais capazes de tomar decisões que afectam o seu desenvolvimento.

A alfabetização comunitária ajuda a quebrar o ciclo da pobreza. Famílias com acesso à educação têm maiores hipóteses de gerar rendimento, melhorar condições de vida e garantir oportunidades para as próximas gerações. Esse processo cria um caminho para a construção de riqueza geracional — uma riqueza que não se mede apenas em dinheiro, mas em conhecimento, autonomia e capacidade de transformar realidades.

Setembro, mês da alfabetização: um compromisso colectivo por Angola

Setembro é celebrado em todo o mundo como o mês da alfabetização, e em Angola esta data deve ser vivida com especial atenção. Alfabetizar não é apenas ensinar alguém a juntar letras, é devolver dignidade, abrir horizontes e permitir que cada cidadão participe de forma plena na vida política, económica e social do país. Uma pessoa alfabetizada tem mais possibilidades de compreender os seus direitos, de aceder a oportunidades de emprego, de cuidar melhor da sua família e de contribuir para a construção de uma Angola mais justa e próspera.

 

A Constituição da República de Angola reconhece a educação como um direito fundamental e obriga o Estado a criar condições para a sua efectivação. A Lei de Bases do Sistema de Educação estabelece a gratuitidade e a obrigatoriedade do ensino primário, assumindo que nenhuma criança deve ser deixada para trás. Mas, apesar destes avanços legais e institucionais, os índices de analfabetismo continuam a ser um desafio que precisa de soluções corajosas, inovadoras e sustentáveis.

 

É nesse contexto que surgem organizações e projectos que, com criatividade e resiliência, têm levado a alfabetização a zonas rurais, a comunidades desfavorecidas e a adultos que durante anos ficaram à margem do sistema. A Angola Aprende coloca-se entre as instituições preparadas para responder a este desafio, através da criação de manuais de alfabetização em línguas nacionais e de propostas de programas de educação para adultos adaptados à realidade angolana. Estas soluções, concebidas para respeitar a diversidade cultural e linguística do país, mostram que, quando se aposta em metodologias adequadas, a alfabetização deixa de ser apenas uma meta estatística e passa a ser uma transformação real na vida das pessoas.