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O Papel Da Escola Na Construção Da Consciência Africana

Perspectiva Comparada Sobre Práticas E Sentidos Da Educação Em África — Com Particular Atenção Ao Caso Angolano

POR CLÁUDIA CASSOMA — Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende

  1. Introdução: A escola como espelho da identidade africana

A escola africana é, mais do que um espaço físico de ensino, um lugar simbólico de construção de identidades e um espelho da consciência colectiva do continente. Ao longo da história, o sistema educativo em África foi moldado por duas forças opostas: a imposição de modelos coloniais que visavam dominar e uniformizar, e o esforço de libertação cultural que procurou devolver aos africanos a sua voz e autonomia. Reflectir sobre o papel da escola na construção da consciência africana é, portanto, compreender esta tensão histórica entre alienação e emancipação.

Nesta Perspectiva Comparada, analisam-se políticas e práticas educativas em três países africanos — Angola, Tanzânia e Moçambique — que, apesar de partilharem uma herança colonial semelhante, seguiram trajectos distintos no processo de africanização da escola. O objectivo é extrair aprendizagens úteis para Angola, fortalecendo o papel da educação como ferramenta de afirmação cultural e desenvolvimento humano.

 

  1. A herança da educação comunitária africana

Antes da colonização, as sociedades africanas possuíam sistemas educativos próprios, profundamente ligados à vida social, moral e espiritual das comunidades. A educação era essencialmente oral, participativa e prática: as crianças aprendiam observando, imitando e participando activamente nas actividades comunitárias. O saber era transmitido pelos anciãos, pelas famílias e pelos líderes tradicionais, que formavam o carácter e inculcavam valores de solidariedade, respeito, entreajuda e pertença.

Em Angola, nas regiões do Kongo, do Planalto Central ou do Leste, o processo educativo incluía histórias, provérbios, rituais e ofícios, unindo o saber à experiência da vida. A escola tradicional africana não separava o aprender do viver, nem o conhecimento da ética. A aprendizagem era colectiva e contínua, e o seu propósito era assegurar a harmonia da comunidade. Esta pedagogia ancestral, apesar de não institucionalizada, continua a ser referência de uma educação integral, que forma o ser humano de forma completa — espírito, mente e corpo.

 

  1. A escola colonial: o apagamento da consciência africana

Com o domínio europeu, o modelo de escola implantado em África passou a servir interesses de controlo e aculturação. Em Angola, o Decreto n.º 12 533, de 23 de Outubro de 1926, instituiu o Estatuto do Indigenato, criando uma hierarquia jurídica e social entre “indígenas” e “assimilados”. Posteriormente, o Decreto-Lei n.º 39 666, de 20 de Maio de 1954, consolidou esse regime, restringindo o acesso dos africanos à educação formal e subordinando o ensino às finalidades coloniais.

A oferta educativa foi entregue, em grande parte, às missões religiosas, que seguiam orientações do Estado português. A língua portuguesa tornou-se obrigatória, e o currículo escolar centrava-se na religião e na história europeia, omitindo quase totalmente o património cultural africano. Aprender significava, assim, afastar-se da própria identidade.

Em outras colónias africanas verificou-se o mesmo fenómeno. No Senegal, o modelo francês da Escola Colinial (École coloniale) produzia “negros de cultura europeia”; no Quénia e no Gana, o sistema britânico formava burocratas coloniais; em Moçambique e em Angola, a escola portuguesa funcionava como instrumento de evangelização e disciplina social. Este processo de alienação sistemática reduziu a escola a um meio de domesticação cultural, rompendo a ligação entre o africano e a sua própria memória colectiva.

 

  1. A descolonização educativa: a escola como instrumento de libertação

Com as independências africanas, a escola ganhou novo significado. Passou de espaço de dominação a ferramenta de emancipação. Líderes como Julius Nyerere, Kwame Nkrumah, Samora Machel e Agostinho Neto compreenderam que a independência política só seria plena com a independência mental e cultural.

Na Tanzânia, Nyerere apresentou em 1967 a política Educação para a Auto-Suficiência (Education for Self-Reliance), propondo uma escola enraizada na vida comunitária, onde o trabalho, a cooperação e a ética substituíssem o elitismo colonial. O swahili foi promovido a língua de instrução, tornando-se um dos maiores símbolos de unidade africana.

Em Moçambique, a FRELIMO organizou durante a luta as chamadas “escolas do mato”, alfabetizando populações nas zonas libertadas. Após a independência, essas experiências originaram uma política nacional de alfabetização e, mais tarde, de ensino bilingue.

Em Angola, após 1975, o novo Estado assumiu a missão de construir uma escola nacional, gratuita e universal, com base nos valores de unidade e solidariedade. A educação tornou-se pilar da reconstrução e do orgulho de ser angolano. Contudo, os anos de conflito e as limitações de recursos dificultaram a plena concretização deste ideal.

 

  1. Perspectiva comparada: três caminhos para uma escola africana

A comparação entre Angola, Tanzânia e Moçambique permite compreender que o êxito da educação africana depende, acima de tudo, da ligação entre escola, língua e comunidade. Cada país encontrou o seu caminho particular para articular estas dimensões.

ASPECTOTANZÂNIA (NYERERE)MOÇAMBIQUE (MACHEL)ANGOLA (PÓS-1975)
Base ideológica e política educativaEducação para a Auto-Suficiência (Education for Self-Reliance, 1967), orientada para o trabalho produtivo e a vida comunitária. Política nacional de educação vinculada ao socialismo africano (Ujamaa).Educação concebida como parte da revolução nacional; alfabetização massiva nas zonas libertadas (1966–1974). Após 1975, política de alfabetização e escolarização universal sob orientação socialista.Após 1975, educação gratuita e obrigatória na base da reconstrução nacional. Entre 1975 e 2002, afectada pela guerra civil. Desde 2002, foco na expansão do acesso e na reforma curricular. Política orientada pela Lei de Bases n.º 17/16.
Língua de ensinoSwahili como língua de escolarização até ao ensino básico. Inglês introduzido gradualmente no ensino secundário (reforma de 2015).Português como língua oficial de ensino. Programas de educação bilingue com línguas locais iniciados em 2003 e regulamentados em 2010.Português como língua oficial e predominante de ensino. O Decreto Executivo n.º 67/18 reconhece a introdução gradual de línguas nacionais no ensino primário, mas a implementação é incipiente.
Relação escola–comunidadeEscola integrada no modelo de aldeias comunais (Ujamaa villages), combinando trabalho agrícola e aprendizagem cooperativa.Forte envolvimento comunitário nas “escolas do mato” e em programas de alfabetização. Após 1992, descentralização progressiva com apoio internacional (UNESCO/UNICEF).Sistema altamente centralizado; fraca articulação escola–comunidade, especialmente em áreas rurais. A Estratégia Integrada para a Melhoria do Sistema de Educação (EIMSE, 2020–2030) prevê reforço da participação comunitária.
Resultados e indicadores principaisTaxa de alfabetização adulta de 79% (UNESCO, 2022). Ensino primário praticamente universalizado.Taxa de alfabetização adulta de 60,7% (UNESCO, 2022). Acesso melhorado, mas problemas de retenção e qualidade.Taxa de alfabetização adulta de 66,0% (Censo INE 2014). Taxa líquida de escolarização primária de 77,5% (UNICEF, 2021). Fortes desigualdades regionais e de género.
Desafios actuaisSaturação do sistema e transição difícil para o ensino secundário. Dependência do inglês no ensino superior.Fraca qualidade do ensino básico, escassez de professores qualificados e baixos salários.Carência de professores formados, infra-estruturas insuficientes em zonas rurais, desajuste entre currículo e contexto local, fraco uso de línguas nacionais e dependência de manuais estrangeiros.

A análise demonstra que a escola africana é tanto mais eficaz quanto mais se aproxima da vida real. Quando a língua de ensino é familiar, o currículo dialoga com a cultura local e a escola participa da comunidade, a aprendizagem torna-se instrumento de emancipação e orgulho colectivo.

  1. A escola africana contemporânea: entre a modernidade e a pertença

No contexto actual, a educação africana enfrenta novos desafios. A globalização introduziu padrões internacionais de qualidade, mas também impôs modelos curriculares desligados das realidades locais. O risco é que a busca por modernização reproduza, de forma subtil, as antigas formas de dependência cultural.

 

A verdadeira modernidade africana deve nascer de dentro, conciliando inovação tecnológica com valorização do património cultural. As tecnologias digitais podem democratizar o ensino e criar pontes entre escolas rurais e urbanas, mas precisam de ser usadas com propósito africano: para preservar memórias, ensinar em línguas locais e estimular o pensamento crítico.

 

Assim, a consciência africana deve ser o eixo orientador das políticas educativas. Uma escola moderna, mas africana na sua essência, será aquela que ensina o aluno a compreender o mundo a partir de si — e não a esquecer-se de quem é para o compreender.

  1. Angola hoje: o caminho da escola viva

Em Angola, o sistema educativo vive uma fase de reconstrução e reflexão. O país investiu fortemente na expansão do acesso, mas o desafio actual é aprofundar a qualidade e a identidade da escola. A Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino (Lei n.º 17/16) estabelece princípios de adequação à realidade nacional, de valorização das línguas e culturas locais e de formação de cidadãos solidários e responsáveis.

Contudo, persistem lacunas. A distância entre o currículo e o quotidiano das comunidades, a escassez de materiais pedagógicos contextualizados e a necessidade de uma formação docente mais crítica e culturalmente informada continuam a limitar a transformação da escola.

Neste cenário, organizações como a Angola Aprende desempenham papel decisivo ao produzir materiais pedagógicos nacionais, promover a formação de professores e desenvolver recursos multimídia que valorizam a língua e a cultura angolana. Estes esforços contribuem para que a escola se torne espaço de pertença e de criação, onde aprender signifique também reconhecer-se como africano e angolano.

  1. Lições comparadas e caminhos para o futuro

Da comparação entre experiências africanas emergem três lições principais para Angola e para o continente:

Primeiro, ensinar na língua do povo fortalece a compreensão e a identidade. A experiência tanzaniana mostra que o uso do swahili como língua de ensino promoveu coesão e eficiência pedagógica. Em Angola, a adopção progressiva das línguas nacionais pode reforçar o sentimento de pertença e melhorar os resultados escolares.

Segundo, a escola deve regressar à comunidade. Modelos participativos, como os de Moçambique e do Quénia, demonstram que a gestão comunitária aumenta a retenção de alunos e a relevância social da escola.

Terceiro, é fundamental educar para a consciência continental. A integração africana não se constrói apenas nas cimeiras políticas, mas também nas salas de aula. O aluno deve conhecer a história, os líderes e os valores de África, cultivando um sentimento pan-africano de responsabilidade e solidariedade.

A educação africana do futuro será aquela que ensina o aluno a pensar localmente e a agir globalmente, sem perder as suas raízes.

  1. Conclusão: a escola como semente de consciência

A história da escola africana revela que a educação é o terreno mais fértil da liberdade. Foi na escola que o africano aprendeu a negar-se, mas é também nela que pode reencontrar-se. O desafio do século XXI é transformar a escola num espaço de pensamento crítico, de pertença e de dignidade.

Em Angola, a construção da consciência africana passa por uma educação que una ciência e cultura, tecnologia e tradição, razão e sensibilidade. Como afirmou Julius Nyerere em Educação para a Auto-Suficiência (Education for Self-Reliance), “a educação deve libertar o homem para pensar, decidir e trabalhar para o seu povo”; e como recordou Agostinho Neto, “a verdadeira independência é a do espírito”.

A escola africana que o continente precisa é aquela que ensina o aluno a ser inteiro: consciente das suas raízes, orgulhoso da sua cultura e capaz de sonhar um futuro africano com os pés firmes na sua terra.

1 DE NOVEMBRO

Dia da Juventude Africana

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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