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Educar é Estender: Quando o Saber Sai da Sala e Encontra a Comunidade

POR CLÁUDIA CASSOMA — Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende

Em Angola, educar continua, muitas vezes, confinado a quatro paredes. No entanto, a aprendizagem só se transforma em mudança real quando o conhecimento atravessa a porta da sala e encontra as pessoas e os desafios da comunidade. Educar é, por isso, estender — levar o saber ao território onde a vida acontece. Essa é a essência da extensão universitária: a ponte entre o conhecimento académico e a acção social, entre o que se ensina e o que realmente transforma.

Quando bem estruturada, a extensão universitária transforma o conhecimento em desenvolvimento, une o estudante ao cidadão e converte a universidade num espaço de serviço à sociedade. Em Angola, esta função encontra-se ainda em consolidação — carece de políticas claras, recursos dedicados e integração efectiva na missão das instituições de ensino superior. Estudos académicos, como Extensão Universitária em Angola: Tendências, Acções e Projecções (Universidade Agostinho Neto, 2019) e As Funções da Universidade em Angola (Universidade Katyavala Bwila, 2020), analisam este percurso e sublinham a importância de reforçar a relação entre as instituições de ensino superior e as comunidades locais.

Estender o saber não significa levar soluções prontas da universidade para a comunidade, mas ouvir antes de propor, observar antes de ensinar e criar soluções feitas à medida da nossa realidade. Significa reconhecer o conhecimento que já existe nas comunidades e transformá-lo em diálogo, parceria e acção. A alfabetização de adultos, a formação de professores, a literacia digital, a educação ambiental e a inclusão educativa são exemplos de práticas que dão vida a uma educação que aprende com o mundo e o serve ao mesmo tempo.

Algumas universidades angolanas têm dado passos promissores. A Universidade Mandume ya Ndemufayo, na província da Huíla, e a Universidade Lueji A’Nkonde, na Lunda Norte, têm implementado gabinetes e planos de extensão universitária, aproximando o ensino das realidades locais e promovendo a aplicação prática do saber. As acções vão desde o empreendedorismo comunitário à melhoria do desempenho escolar em comunidades rurais, mostrando que, quando o ensino superior se abre à sociedade, o impacto é imediato e visível.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) reforça essa visão no relatório Educação Superior para o Desenvolvimento Sustentável em África (Higher Education for Sustainable Development in Africa, 2023), defendendo que as universidades africanas devem tornar-se incubadoras de transformação social — comprometidas com a aprendizagem ao longo da vida, o desenvolvimento local e as parcerias intersectoriais. O documento Quadro de Transformação da Educação em África (Africa Education Transformation Framework, 2024)  complementa esta ideia ao afirmar que a sustentabilidade educativa em África depende de um equilíbrio entre escola, universidade e comunidade.

Para que essa visão se torne realidade em Angola, quatro pilares são essenciais:

  • Diagnóstico partilhado — Identificar as necessidades reais com as comunidades, e não apenas sobre elas.
  • Co-criação e adaptação — Unir o saber científico e o conhecimento tradicional, respeitando a diversidade cultural e linguística.
  • Governança e recursos — Estabelecer estruturas e políticas que sustentem a extensão como missão institucional.
  • Avaliação e evidência — Medir resultados e comunicar o impacto de forma clara e acessível.

 

Modelos de sucesso já podem ser observados noutras partes de África, como na Universidade Egerton (Quénia) e na Universidade de Makerere (Uganda), onde os gabinetes de extensão comunitária integram projectos que unem educação, inovação e desenvolvimento local. O que estas experiências demonstram é simples: quando o saber encontra a comunidade, todos aprendem — e todos crescem.

Em Angola, o potencial é imenso. O país tem professores comprometidos, universidades com capacidade técnica e comunidades ansiosas por conhecimento útil. O que falta é uma articulação mais sólida entre as instituições de ensino superior, as escolas do ensino geral, os governos locais e as organizações sociais. Estender o saber é garantir que o conhecimento chegue a quem mais precisa dele — de forma prática, ética e transformadora.

Educar é estender quando o saber regressa à sala de aula transformado pela realidade. Quando a universidade aprende com a comunidade, o ensino ganha alma e o conhecimento torna-se acção.

A extensão é o caminho onde o ensino encontra a vida e o saber se torna serviço.

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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