POR CLÁUDIA CASSOMA | Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende
A escola angolana carrega nas suas paredes a história de um povo que nunca desistiu de aprender, mesmo quando tudo parecia conspirar contra a aprendizagem. Durante décadas, o país tem investido em reformas, novos currículos, e políticas ambiciosas — mas a verdadeira transformação continua a depender de um elemento essencial: o professor.
O professor angolano não é apenas um transmissor de conteúdos. É o mediador entre o conhecimento e a vida, o elo entre a política educativa e a realidade das comunidades. Em contextos onde faltam recursos, o professor cria; onde há desmotivação, ele inspira; onde há desigualdade, ele aproxima. É por isso que afirmar que o professor é o arquitecto da transformação educativa não é figura de estilo — é uma constatação.
Falar de inovação no ensino em Angola exige desmistificar a ideia de que inovar é sinónimo de tecnologia ou de metodologias estrangeiras. Inovar, antes de tudo, é repensar a forma de ensinar à luz da nossa própria realidade. É compreender que um ensino inclusivo precisa reconhecer as línguas locais, os diferentes ritmos de aprendizagem e as realidades sociais diversas que se cruzam numa mesma sala de aula.
Não há mal em aprender com o mundo — pelo contrário, há grandeza em adaptar com discernimento. As experiências internacionais podem servir de inspiração, mas a inovação verdadeira acontece quando esses saberes encontram o chão angolano, quando o método se transforma em prática culturalmente relevante. É assim que se constrói uma educação realmente inclusiva: quando a aprendizagem faz sentido para quem aprende.
Hoje, mais do que nunca, Angola precisa olhar para os seus professores não como executores de planos alheios, mas como pensadores e criadores de soluções educativas. É preciso investir na sua formação contínua, mas também na sua escuta. Cada professor é um observatório vivo da realidade nacional — sabe o que funciona, o que precisa mudar e o que deve ser preservado.
O papel das instituições — públicas, privadas e sociais — deve ser o de acompanhar e apoiar, e não substituir o professor. Ouvir antes de propor, observar antes de ensinar e criar soluções feitas à medida da nossa realidade deve ser o princípio orientador de toda a acção educativa em Angola. Quando esse princípio é respeitado, a educação deixa de ser teórica e torna-se transformadora.
Quando um professor é ouvido, quando tem voz e meios, ele torna-se um agente de inclusão. Quando se valoriza o seu trabalho, multiplica-se o impacto de cada política pública. E quando se aposta no seu desenvolvimento, a inovação deixa de ser promessa e passa a ser progresso.
A transformação educativa em Angola não virá de uma única reforma, mas de um movimento sustentado pela valorização humana. Cada escola fortalecida, cada docente formado e cada aluno compreendido é uma vitória colectiva.
Inovar para incluir é isso: olhar para a educação como uma obra em permanente construção, onde o professor é o arquitecto principal — e todos nós, Estado, famílias e instituições, somos parte da equipa que sonha e constrói.
Educar é acto de amor, mas também de coragem. E Angola precisa, mais do que nunca, de professores que ensinam com esperança — e de um país que os apoie com propósito.
5 DE OUTUBRO
Dia Mundial dos Professores
Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.