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FINANÇAS SEM LITERACIA

As Lições que o Governo Ainda Não Aprendeu Depois de 50 Anos na Mesma Sala de Aulas

POR CLÁUDIA CASSOMA — Educadora Especializada em Educação Inclusiva, Escritora e Fundadora da Angola Aprende

CINQUENTA ANOS NA MESMA SALA DE AULAS

Existem países que aprendem com os erros. E existem países que apenas os repetem, geração após geração, como se a História não ensinasse nada. Angola celebra em 2025 os 50 anos da sua independência, e seria natural esperar que meio século fosse tempo suficiente para amadurecer, para consolidar saberes, para transformar experiência em sabedoria. Mas quando olhamos para a gestão das finanças públicas, o que vemos é um país que continua na mesma sala de aulas, com o mesmo professor, a repetir os mesmos erros, como se a repetição fosse um método e não um sintoma.

Hoje, 14 de Novembro, o mundo celebra o Dia Mundial da Alfabetização Financeira. É uma data que nos convida a pensar sobre literacia — essa competência tão básica e tão essencial que distingue quem gere de quem desperdiça, quem planeia de quem improvisa, quem constrói futuro de quem apenas consome presente. Mas o que significa literacia financeira quando aplicada a um país? Significa a capacidade colectiva de compreender que dinheiro público não é infinito, que cada escolha tem um custo de oportunidade, que gastar 12 milhões de euros em 90 minutos de futebol enquanto milhões de crianças estudam com fome não é apenas má gestão — é ausência de literacia.

Este texto não é um tratado de economia. É uma reflexão sobre educação. Sobre o que acontece quando um país, durante 50 anos, se recusa a aprender as lições mais elementares da gestão financeira. Sobre a diferença entre saber contar e saber o que conta. Sobre a distância entre ter recursos e saber usá-los.

A metáfora da sala de aulas não é acidental. É intencional. Porque gerir um país é, no fundo, um acto pedagógico: aprende-se com os acertos e, sobretudo, com os erros. Mas Angola parece ter faltado a todas as aulas de literacia financeira. E agora, 50 anos depois, com o mesmo professor à frente da turma, continua a reprovar nas mesmas disciplinas.

 

CINQUENTA ANOS SEM FAZER OS TRABALHOS DE CASA

Quando Angola nasceu como país independente em 1975, nasceu em guerra. E a guerra, como sabemos, não é a melhor professora de gestão financeira. A guerra ensina urgência, não planeamento. Ensina sobrevivência, não sustentabilidade. Ensina a gastar tudo hoje porque amanhã pode não chegar.

Durante 27 anos — de 1975 a 2002 — Angola viveu em guerra civil. É compreensível, portanto, que durante mais de metade da sua existência como país independente a literacia financeira não fosse prioridade. Mas o problema não foi a ausência de literacia naqueles anos de sobrevivência. O problema foi que, mesmo depois da paz em 2002, Angola nunca parou para dizer: agora vamos aprender a fazer diferente. O professor continuou o mesmo. O método continuou o mesmo. E os resultados também.

Mesmo em contexto de guerra, Angola tinha petróleo. Tinha receitas. E a forma como essas receitas foram geridas — ou não geridas — revela um padrão que se repetiria nas décadas seguintes: a ilusão de que abundância dispensa planeamento. Como se o dinheiro que entra hoje garantisse o dinheiro de amanhã. Como se recursos não renováveis fossem eternos. Como se não fosse preciso poupar nos tempos de fartura para sobreviver nos tempos de escassez.

A literacia financeira ensina o óbvio: que nenhuma fonte de receita dura para sempre. Que é nos tempos bons que se preparam os tempos maus. Que riqueza não é quanto se ganha, mas quanto se consegue preservar e multiplicar. Angola não aprendeu nenhuma destas lições durante a guerra. E depois da guerra, continuou sem aprender. Quando os tempos maus chegaram — e chegaram sempre — o país descobriu que não tinha feito os trabalhos de casa. O professor tinha passado a matéria. Mas ninguém tinha estudado.

CINQUENTA ANOS COM O MESMO CADERNO VAZIO

Se os primeiros 27 anos de independência foram de guerra, os anos seguintes foram de abundância. Entre o fim da guerra civil em 2002 e o pico do preço do petróleo em 2014, Angola viveu apenas 12 anos de prosperidade — mas foram anos de prosperidade sem precedentes. O PIB cresceu a taxas impressionantes. Luanda transformou-se num gigantesco canteiro de obras. O dinheiro entrava aos milhões, aos milhares de milhões.

E o que Angola fez com essa abundância? Gastou. Gastou tudo. E gastou mal.

Não se trata apenas de ter gasto muito — isso pode acontecer. Trata-se de ter gasto sem critério, sem planeamento, sem pensar no dia seguinte. Construíram-se estádios que raramente são usados. Edificaram-se cidades inteiras que ficaram vazias. Importou-se tudo, desenvolveu-se pouco. O petróleo continuou a ser a única fonte de receita, como se a diversificação económica fosse uma opção e não uma necessidade vital.

O caderno ficou vazio. Nenhuma lição foi registada. Nenhum erro foi analisado. Nenhuma alternativa foi pensada. O professor continuou a dar as mesmas aulas, a usar os mesmos métodos, a repetir as mesmas fórmulas. E quando o preço do petróleo caiu em 2014 — apenas 12 anos depois do fim da guerra — Angola descobriu que tinha desperdiçado a maior oportunidade económica da sua história. Tinha tido uma década de fartura e saiu dela mais pobre, mais endividada, mais dependente do petróleo do que quando entrou.

Há algo de trágico nesta história. Porque não foi por falta de avisos. Economistas, organizações internacionais, analistas — todos repetiram, durante anos, a mesma mensagem: diversifiquem a economia, invistam na agricultura, desenvolvam a indústria, criem um fundo soberano para as gerações futuras. Mas Angola não ouviu. Ou ouviu e ignorou. Porque literacia financeira não é apenas ter acesso à informação. É ter a humildade de aprender com ela. É ter a coragem de questionar o professor quando a matéria não está a resultar.

 

CINQUENTA ANOS REPETINDO OS MESMOS ERROS

Em 2017, Angola prometeu mudança. Falou-se de um novo método, de novas práticas, de uma forma diferente de fazer as coisas. Falou-se de combate à corrupção, de reforma económica, de diversificação. E houve sinais positivos. Houve investigações. Houve recuperação de activos. Houve, pela primeira vez em muitos anos, a sensação de que algo podia mudar.

Mas 8 anos depois, em 2025, o que mudou realmente?

A dívida pública continua insustentável — acima de 120% do PIB. O serviço da dívida consome quase metade das receitas do Estado. A dependência do petróleo continua quase total. E as prioridades orçamentais continuam invertidas: milhões para espectáculos, migalhas para a merenda escolar; investimento em visibilidade, desinvestimento em dignidade.

O que isto revela não é incompetência. É algo mais profundo: é a ausência de uma cultura de literacia financeira. É a perpetuação de um modelo mental que vê o dinheiro público como recurso infinito, que confunde despesa com investimento, que prioriza o espectacular sobre o essencial. É o resultado de 50 anos na mesma sala de aulas, a seguir o mesmo programa, sem nunca questionar se o método está a funcionar.

E talvez o mais inquietante seja isto: não estamos a falar de erros novos. Estamos a falar dos mesmos erros de há 50 anos, repetidos com ligeiras variações. A dependência do petróleo dos anos 70 é a mesma de hoje. O endividamento excessivo dos anos 90 e 2000 é o mesmo de hoje. A opacidade na gestão dos fundos públicos persiste. As prioridades invertidas repetem-se.

Cinquenta anos na mesma sala de aulas. Cinquenta anos com o mesmo professor. Cinquenta anos a copiar do mesmo caderno errado. E ainda não percebemos que repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes não é estratégia — é insanidade.

CINQUENTA ANOS SEM ENSINAR A LIÇÃO MAIS IMPORTANTE

Mas talvez o problema mais profundo seja este: Angola nunca ensinou literacia financeira ao seu povo.

Não se pode exigir de um governo aquilo que a população não sabe exigir de si mesma. Um país onde a maioria não sabe fazer um orçamento doméstico, não compreende o que é uma taxa de juro, não distingue poupança de despesa — esse país não tem ferramentas para cobrar responsabilidade fiscal dos seus governantes.

A literacia financeira não é um conhecimento técnico. É uma competência cívica. É tão fundamental quanto saber ler e escrever. Porque numa democracia, os cidadãos não votam apenas em pessoas — votam em orçamentos, em prioridades, em visões de futuro. E como se vota bem se não se sabe ler um orçamento? Como se cobram contas se não se sabe fazer contas? Como se questiona o professor se não se compreende a matéria?

Angola passou 50 anos sem colocar a literacia financeira no centro da educação. Não há uma disciplina sobre gestão do dinheiro nas escolas. Não há programas de educação financeira acessíveis. Não há uma cultura de planeamento, de poupança, de pensamento a longo prazo. E o resultado está à vista: uma população que não sabe cobrar, e um governo que não sabe prestar contas.

Se queremos mudar a forma como o Estado gere o dinheiro público, temos de começar por mudar a forma como ensinamos o valor do dinheiro. Temos de fazer da literacia financeira uma missão nacional. Temos de criar uma geração de cidadãos que saibam ler um orçamento, que compreendam a diferença entre investimento e despesa, que exijam transparência e racionalidade nas decisões públicas.

Porque a mudança não virá de cima. Virá de baixo, de uma população educada, informada, capaz de dizer: não, isto não faz sentido. Não, não podemos gastar 12 milhões em 90 minutos de futebol quando milhões de crianças não têm merenda. Não, não podemos continuar a fazer as mesmas escolhas e esperar resultados diferentes. E, talvez o mais importante: não, não podemos continuar 50 anos com o mesmo professor sem nunca questionar os métodos.

 

CINQUENTA ANOS DEVENDO A MESMA LIÇÃO

Há dívidas que se pagam com dinheiro. E há dívidas que se pagam com conhecimento.

Angola tem uma dívida financeira que todos conhecem: 70 mil milhões de dólares devidos a credores de todo o mundo. Mas tem também uma dívida pedagógica — uma dívida de aprendizagem, uma dívida de literacia, uma dívida que se acumulou ao longo de 50 anos de escolhas erradas e lições ignoradas.

Cinquenta anos é muito tempo. É tempo suficiente para aprender. É tempo suficiente para amadurecer. É tempo suficiente para transformar erros em sabedoria. Mas só se houver vontade de aprender. Só se houver humildade para reconhecer os erros. Só se houver coragem para fazer diferente. E, às vezes, só se houver coragem para trocar de professor.

A literacia financeira não é apenas uma questão técnica. É uma questão moral. É a capacidade de olhar para o Orçamento do Estado e perguntar: estas escolhas fazem sentido? Servem o bem comum? Privilegiam o essencial? Ou estamos apenas a repetir, mais uma vez, os mesmos erros que repetimos há 50 anos, na mesma sala de aulas, com o mesmo professor, usando o mesmo método que nunca funcionou?

No Dia Mundial da Alfabetização Financeira, Angola devia parar e reflectir. Não sobre o que conquistou — isso já sabemos. Mas sobre o que ainda não aprendeu. Sobre as lições que continua a ignorar. Sobre os erros que continua a repetir. Sobre o tempo que passou na mesma sala de aulas sem nunca passar de ano.

Porque a verdadeira independência não se mede por celebrações. Mede-se por escolhas. E as nossas escolhas, durante 50 anos, mostram que ainda estamos na mesma sala de aulas, a seguir o mesmo programa, a repetir os mesmos erros.

Mas há esperança. Porque enquanto houver consciência do erro, há possibilidade de mudança. Enquanto houver vontade de aprender, há caminho para o acerto. Enquanto houver quem questione, quem exija, quem cobre — há futuro. E enquanto houver cidadãos que compreendem que têm o direito de escolher o professor, há democracia.

A sala de aulas está aberta. O quadro está limpo. A lição está escrita.

Agora só falta uma coisa: querer aprender. E ter a coragem de exigir melhores professores.

14 DE NOVEMBRO

Dia Mundial da Alfabetização Financeira

Cláudia Cassoma é educadora, gestora escolar e autora de mais de trinta livros, incluindo obras infantis e paradidácticas. Com um historial profissional que vai de professora de educação especial a directora de escola nos Estados Unidos da América, é fundadora da Angola Aprende e da Fundação Cassoma, iniciativas que promovem inovação pedagógica, valorização dos professores e acesso inclusivo. Formadora certificada e palestrante internacional, tem dedicado a sua carreira a criar oportunidades educativas transformadoras. A sua luta é traçar um caminho claro que vá além da educação especial, rumo a uma educação inclusiva, acessível e de qualidade para todos. Dedica-se a inspirar educadores, estudantes e líderes a acreditarem no poder da educação como instrumento de mudança colectiva.

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