Milca Quintas
O Conhecimento não é Estático: Criatividade, Resiliência e a Convicção de que a Comunidade também Merece Profissionais Capacitados
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Milca Quintas, pedagoga a actuar em Luanda. O seu percurso começou em 2018 com uma explicação em casa chamada Esperança do Saber — e passou por quatro anos de trabalho voluntário na escola comunitária Tesouro do Futuro — um espaço sem janelas e com poucos materiais, mas com formadores capacitados que a ensinaram a planificar de verdade. Hoje trabalha em colégios com melhores condições — e continua a apoiar as escolas comunitárias da sua comunidade.
Nesta entrevista, Milca fala sobre o que nenhum manual lhe ensinou, sobre o dia em que as visitas de estudo mudaram a sua forma de ensinar, sobre a criatividade como essência — e sobre a convicção de que a comunidade tem voz e merece profissionais à altura.
O que te trouxe ao trabalho que fazes na educação — e o que te mantém nele, apesar de tudo?
Milca Quintas: Sendo sincera, o que me trouxe à educação numa primeira instância foi a questão de que a formação de professores teria mais saída no nosso país. Mas depois de mergulhar no mar que é a educação, o que me mantém no trabalho que faço hoje é o desejo e a satisfação de partilhar o meu conhecimento com outros, descobrir as minhas valências e o anseio de criar indivíduos com mentes críticas e reflexivas.
Ao olhar para o teu percurso na educação, que transformações no sistema testemunhaste que marcaram profundamente a forma como trabalhas hoje?
Milca Quintas: As transformações que testemunhei e que marcaram profundamente a forma como trabalho hoje têm a ver com as actividades extensionistas realizadas no âmbito das práticas pedagógicas — com a finalidade de formar docentes qualificados, capazes de dar voz à educação angolana. Fóruns, debates, apoio a comunidades em zonas rurais e o desejo de elevar a educação como um factor motivador ao mais alto nível.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Milca Quintas: Escolheria o período nocturno — porque é nessa hora do dia que consigo reflectir com maior clareza, ser mais criativa e realizar as minhas actividades sem interrupções. É o momento em que tudo se organiza dentro de mim.
Há alguma mudança de orientação que chegou ao teu trabalho e que te obrigou a repensar completamente a forma como fazias as coisas? Conta-nos essa história.
Milca Quintas: Há sim. Antes pensava que as aulas tinham de ser feitas apenas dentro da sala de aula, usando modalidades novas para as tornar mais dinâmicas e criativas. Não é que estivesse errada — nem certíssima.
Quando chegou uma orientação sobre visitas de estudo — envolvendo excursões, saídas a museus e a outros lugares fora do contexto escolar — isso fez-me repensar completamente a minha maneira de ensinar. Com essas dinâmicas, as minhas aulas passaram a ter outra dimensão: cativam mais o interesse dos alunos, ajudam-nos a desenvolver uma mente crítica e reflexiva e a compreender melhor o meio em que estão inseridos. Percebo hoje que mesmo fora da sala de aula também se aprende — porque o conhecimento não é estático, mas sim dinâmico e contínuo.
Há algo que aprendeste fazendo — sobre o que funciona, sobre como os alunos aprendem, sobre como as comunidades respondem — que nenhum manual ou orientação oficial conseguiria ensinar-te?
Milca Quintas: Há sim: é a arte de criar. Nenhum manual conseguiria ensinar-me a ser criativa — porque isso faz parte da minha essência.
Quando a liderança muda no topo e novas prioridades chegam, como é que isso se reflecte concretamente no teu trabalho com os alunos, famílias ou comunidade?
Milca Quintas: Quando a liderança muda e novas prioridades chegam, procuro que isso não interfira no meu trabalho com os alunos, nem com as famílias e a comunidade. O que me tem ajudado é manter o equilíbrio — deixar cada coisa no seu devido lugar e priorizar o que mais carece de atenção naquele momento, sem prejudicar o outro lado.
Já viveste aquele momento em que uma nova directriz te pedia algo que sabias ser impossível nas condições reais do teu trabalho? Como resolveste?
Milca Quintas: Já vivi. O que me ajudou a resolver foi ser dinâmica, estratégica e, acima de tudo, criativa. Elaborei as possíveis vantagens e desvantagens de aplicar na prática o que tinha em mente — e em seguida comprei os materiais necessários com o meu próprio dinheiro. Quando os tive em mãos, agi — e tudo correu bem. Superou as minhas expectativas.
Ao longo do teu percurso, que sabedoria prática acumulaste sobre como manter qualidade e continuidade no trabalho quando tudo à volta parece mudar constantemente?
Milca Quintas: A sabedoria que fui acumulando tem a ver com o equilíbrio — saber separar as coisas e colocar cada uma no seu devido lugar. Tem também a ver com manter a união com os colegas, demonstrar empatia e humildade — e, acima de tudo, manter o foco, permanecendo resiliente e persistente, mesmo quando as coisas não saem como previsto.
Quando olhas para o sector educativo, sentes que a tua experiência e o teu conhecimento prático têm peso nas decisões que se tomam? O que te faz sentir assim?
Milca Quintas: Sinto que sim. O que me faz sentir assim tem a ver com as propostas metodológicas que sugeri durante debates e seminários — as mesmas têm sido aplicadas em contexto de sala de aula e têm servido como referência para professores em exercício e para futuros professores também.
Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?
Milca Quintas: Gostaria que compreendessem que a comunidade também tem voz — que merece uma educação à altura e que precisa de profissionais experientes e capacitados na área, para ensinar, orientar e educar.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Milca Quintas: Esta afirmação desperta em mim a satisfação de elevar a voz feminina no contexto educativo. Demonstra que todas as mulheres têm voz, têm conhecimento sobre inúmeros assuntos e que podem e devem contribuir para uma educação melhor — porque, assim como os homens, são dotadas de saberes escondidos, de valências que precisam de ser expostas e de sabedoria que precisa de ser partilhada em todos os níveis.
Porque mulher é um ser resiliente, persistente — e, acima de tudo, um ser com a capacidade de mudar tudo à sua volta, com aprendizagem e uma mente brilhante.
Imagina que uma jovem mulher te procura porque está a começar na educação e sente-se esmagada pela instabilidade e pelas mudanças constantes. O que lhe dirias?
Milca Quintas: Diria que persista neste caminho, rumo a uma educação eficiente — porque a resiliência que demonstrar vai ajudar a melhorar o ensino actual. O conhecimento é dinâmico e precisamos de novas mentes brilhantes no sector educativo para modificar a educação moderna.
Diria também que deve encarar as mudanças como desafios que a vão fortalecer — para mostrar que as mulheres têm voz em qualquer lugar, mesmo no sector educativo. E que a sua persistência e o seu trabalho árduo a vão tornar numa docente bem preparada, capacitada para ensinar a comunidade e dar resposta à voz da mesma.
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Há entrevistas que confirmam o que já sabemos — e há as que nos obrigam a rever o que o sistema ainda não aprendeu. A tua entrevista, Milca, fez-me pensar no quanto a educação angolana continua a confinar a aprendizagem a um espaço físico, a um currículo, a uma orientação que vem de cima. E no quanto isso empobrece o processo — tanto para quem ensina como para quem aprende. A diferença entre saber na teoria e saber na prática é exactamente o que falta em muitas das decisões que se tomam sobre educação em Angola. Espero que os actuais decisores da educação estejam a ouvir as vozes que a campanha Ahetu mu Kulonga tem reunido este mês — incluindo a tua. Porque é daqui, do terreno, que as respostas certas costumam vir.