Mais por descobrir...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Filter by Categories
Ahetu mu Kulonga
ARTIGO
Artigo de Opinião
CRÓNICA
Crónica Narrativa
ENSAIO
Ensaio Comparado
Ensaio Crítico
Ensaio Reflexivo
Ensaio Teórico
ENTREVISTA
Entrevista Individual
Missão
Nas Lentes da Angola Aprende
Páginas do Saber
Vozes

SORAIA MENDES

Ler é uma Forma Silenciosa de Ganhar Liberdade: uma Escritora, Psicóloga e Professora que Transformou uma Dor num Propósito

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Soraia Mendes, psicóloga, professora, escritora infanto-juvenil e empreendedora, a actuar em Luanda. Começou a escrever aos 14 anos e publicou o seu primeiro caderno literário aos 19. Lecciona no CEARTE — o único instituto médio de artes do país — onde criou o Cantinho de Leituras, um espaço que nasceu dos seus próprios livros e que já transformou alunos curiosos em poetas e leitores convictos. O seu percurso não foi linear: a Psicologia chegou por uma dor, a docência por necessidade — e a paixão por ambas surgiu no caminho.

Nesta entrevista, Soraia fala sobre o que a escrita e a psicologia juntas fazem por um aluno que está a falhar, sobre o jovem da 12.ª classe que quase desistiu, sobre os livros que ainda tem na gaveta — e sobre a convicção de que ler é uma forma silenciosa de ganhar liberdade.

Publicaste o teu primeiro trabalho aos 19 anos. O que é que uma professora que também é escritora ensina de diferente — e que vantagem isso dá aos teus alunos que nunca será medida num teste?

Soraia Mendes: Publiquei o meu primeiro trabalho aos 19 anos — e isso ensinou-me algo muito importante: escrever não é apenas juntar palavras, é aprender a olhar para o mundo com atenção.

Quando uma professora também é escritora, ela não ensina apenas a matéria do programa. Ensina os alunos a observar melhor a vida, a pensar com mais profundidade e a perceber que as suas próprias ideias também têm valor. Muitos dos meus alunos são artistas da música, do teatro, do cinema, da dança e das artes plásticas — e a escrita ajuda-os a organizar o pensamento, a expressar emoções e a contar as suas próprias histórias.

A grande vantagem é que eles começam a acreditar que a criatividade deles pode ter lugar no mundo. Isso não aparece num teste — mas fica para a vida inteira.

A psicologia diz-te que o comportamento tem sempre uma causa. A escritora em ti diz-te que toda a causa tem uma história. Como é que essa combinação muda a forma como vês um aluno que está a falhar?

Soraia Mendes: A psicologia ensinou-me que nenhum comportamento aparece por acaso. Quando um aluno falha, há sempre alguma causa por trás. Já a escrita ensinou-me a procurar a história que muitas vezes não é dita.

No contexto angolano isso é muito visível. Muitos alunos chegam à escola com realidades difíceis: responsabilidades em casa, falta de acompanhamento familiar ou preocupações que nem sempre conseguimos ver na sala de aula.

Por isso, antes de ver apenas a falha, procuro perceber o que pode estar por trás daquele comportamento. Às vezes não é falta de capacidade — é cansaço, falta de apoio ou até falta de esperança. Quando olhamos assim, deixamos de ver apenas um erro e começamos a ver uma pessoa que precisa de orientação e oportunidade.

Há coisas que uma história bem contada faz por uma criança que nenhuma aula expositiva consegue fazer. O que é isso, concretamente — e como o usas na sala de aula?

Soraia Mendes: Uma história bem contada consegue fazer algo que muitas aulas expositivas não conseguem: despertar emoção, imaginação e identificação. Quando a criança ou o jovem se reconhece numa história, não apenas ouve — sente e pensa. E quando sente, aprende com mais facilidade.

Na sala de aula costumo usar a história como ponto de partida — a motivação inicial. Conto uma situação simples, próxima da nossa realidade angolana, às vezes ligada à família, à comunidade ou aos desafios do dia a dia. Depois pergunto aos alunos o que entenderam, o que fariam naquele lugar e que mensagem tiram dali.

Assim, a aula deixa de ser apenas explicação do professor e passa a ser reflexão e participação dos alunos. A história abre a mente — a conversa constrói o conhecimento.

Levaste os teus próprios livros para suprir a carência de uma biblioteca. Muitos professores vêem o problema e esperam que alguém o resolva. Tu resolveste. De onde vem essa postura — e o que te custa mantê-la?

Soraia Mendes: Essa postura veio muito da forma como fui educada e daquilo em que acredito. Sempre aprendi que, quando vemos um problema, podemos pelo menos tentar fazer alguma coisa — resolver com o que temos, mesmo que seja pequeno. Na escola, percebi que muitos alunos tinham vontade de ler, mas não tinham acesso fácil a livros. Então decidi levar alguns dos meus para começar um pequeno espaço de leitura — o Cantinho de Leituras, dentro da biblioteca da escola.

Não resolve tudo, mas já cria movimento, curiosidade e hábito. Às vezes basta alguém dar o primeiro passo.

Manter essa postura tem alguns custos: tempo, cuidado com os livros, o risco de muitos desaparecerem e algum esforço pessoal. Mas o retorno compensa quando vemos os alunos interessados, a pegar num livro por vontade própria e a descobrir novas ideias. Para mim, isso já vale muito.

O Cantinho de Leituras que coordenas — o que é, como funciona e o que já transformou em quem por lá passou?

Soraia Mendes: O Cantinho de Leituras é um espaço simples, mas muito significativo dentro da escola. Coordenado por mim, com a colaboração dos professores Elias e Rastukah e o apoio integral da direcção da escola, foi criado para aproximar os alunos dos livros e despertar o gosto pela leitura — sobretudo entre jovens ligados às artes, que muitas vezes têm sensibilidade para escrever e pensar, mas nem sempre têm acesso ou hábito de ler com regularidade. Funciona como um ponto de encontro com a literatura. Ali os alunos podem ler, conversar sobre livros, partilhar textos próprios e ouvir autores convidados. Desenvolvemos também pequenas actividades de leitura e reflexão, como o projecto Um Livro, Uma Voz, que teve início este ano com a escritora Yola Castro, em Janeiro, e o escritor John Bella, em Fevereiro, num formato de diálogo directo entre autores e estudantes. O que mais tem transformado é a forma como os alunos passam a olhar para a palavra. Alguns começaram apenas curiosos e hoje já escrevem poemas, fazem leituras em voz alta e mostram mais confiança para expressar ideias. O Cantinho acabou por se tornar não apenas um lugar de leitura, mas um espaço de descoberta, de escuta e de crescimento.

O CEARTE é descrito como o único instituto médio de artes do país. O que é que isso significa para os jovens que chegam até lá — e o que o país perde sendo essa verdadeiramente a única opção?

Soraia Mendes: Para muitos jovens angolanos, o facto de o CEARTE ser considerado o único instituto médio de artes do país significa, por um lado, uma oportunidade rara — e, por outro, um refúgio para muitos que não conseguiram ingressar no instituto do curso dos sonhos. É um espaço onde talentos que muitas vezes nasceram em bairros, igrejas, grupos culturais ou escolas sem recursos podem finalmente encontrar formação, orientação e reconhecimento. Para muitos, chegar ali é como abrir uma porta que antes parecia fechada.

Ao mesmo tempo, essa realidade mostra um desafio para o país. Quando existe apenas uma opção, muitos jovens talentosos acabam por ficar de fora — não por falta de capacidade, mas por falta de vagas, distância ou condições para estudar ali. Angola tem muitos jovens criativos na música, no teatro, no cinema, na dança e nas artes visuais que poderiam desenvolver melhor os seus talentos se existissem mais escolas de artes.

O CEARTE tem um papel muito importante: formar artistas, educadores e criadores que podem ajudar a fortalecer a cultura do país. Mas também revela que ainda há muito por fazer para que as artes tenham mais espaço na educação angolana.

Disseste que o que mais te aflige é ver alunos com vontade de continuar a desistir por dificuldades que não consegues resolver. Podes contar uma dessas histórias — sem precisares de identificar ninguém?

Soraia Mendes: Ainda ontem tive uma conversa com um aluno da 12.ª classe, da turma que dirijo. Já está quase há um mês sem aparecer na escola e acabou por perder provas em várias disciplinas.

Quando conseguimos conversar, explicou-me a situação. Os pais mudaram-se recentemente para outra província para investir num negócio e deixaram os filhos em Luanda para não interromperem os estudos. São quatro irmãos — e, neste momento, nenhum deles trabalha de forma estável.

Por ser o mais velho entre os rapazes, sente que também precisa de ajudar em casa. Como está ligado à área das artes, começou a participar em pequenas actividades onde recebe algum dinheiro. O problema é que muitas dessas actividades acontecem à noite e tornam-se difíceis de conciliar com a escola. Aos poucos, o cansaço e a responsabilidade foram afastando-o das aulas.

Falámos seriamente. Disse-lhe que ganhar dinheiro é importante — sobretudo quando a família precisa — mas que lhe falta apenas um ano para terminar o ensino médio. A formação também tem um valor enorme e pode abrir-lhe portas maiores no futuro.

Percebi que, por trás da vontade de desistir, existe sobretudo a ausência dos pais e as dificuldades básicas do dia a dia — como transporte e alimentação. A irmã mais velha tenta assumir responsabilidades por todos, mas o peso é grande para quem também ainda está a construir a própria vida.

Histórias como esta afligem-me muito. Porque vemos jovens com talento e vontade, mas presos a circunstâncias que muitas vezes não dependem deles. Ainda assim, acredito que uma conversa no momento certo pode ajudá-los a não desistir do último passo.

Se te pedissem para desenhar o programa ideal de leitura e expressão criativa para o ensino angolano, como seria — e o que precisarias para o implementar?

Soraia Mendes: Se me pedissem para desenhar um programa ideal de leitura e expressão criativa para o ensino angolano, pensaria em algo simples, vivo e muito ligado à realidade dos nossos alunos.

Primeiro, criaria espaços de leitura nas escolas — mesmo que pequenos: um cantinho com livros variados, acessíveis e próximos da nossa cultura. Livros de autores angolanos, histórias que falem da nossa terra, da nossa gente — e também obras universais que ampliem o olhar dos alunos.

Depois, incluiria momentos semanais de leitura orientada, não apenas para avaliar, mas para conversar sobre o que se leu. O aluno precisa de sentir que a leitura é diálogo e descoberta — não apenas obrigação escolar.

A terceira parte seria a expressão criativa: escrita de poemas, pequenos contos, dramatizações, música, desenho ou cinema. Muitos jovens das artes têm talento, mas faltam espaços para experimentar e mostrar o que pensam e sentem.

Apostaria também em encontros com autores, oficinas de escrita e pequenas antologias escolares, para que os alunos percebam que a palavra pode transformar ideias em obras.

Para implementar algo assim, seriam necessários três apoios essenciais: livros e materiais de leitura, formação e incentivo para professores, e parcerias com escritores, bibliotecas e instituições culturais.

O objectivo seria simples: formar leitores que pensem, sintam e se expressem — porque um aluno que lê melhor compreende melhor o mundo e encontra mais caminhos para construir o seu próprio futuro. E deixo uma nota: já temos implementado muito disto no CEARTE — e graças à colaboração da direcção da escola, temos conseguido atingir alguns desses objectivos.

Que projecto tens na gaveta — ligado à educação, à leitura ou à escrita — que ainda não saiu por falta de apoio, parceria ou visibilidade?

Soraia Mendes: Um dos projectos que ainda tenho na gaveta está ligado ao incentivo à leitura e à escrita entre os jovens, através de iniciativas como o Cantinho de Leituras, encontros com autores e pequenas oficinas de leitura e escrita.

Mas nessa mesma gaveta também estão vários livros meus que ainda não consegui publicar. Infelizmente, publicar livros em Angola não é fácil — muitas vezes faltam apoios, parcerias e confiança por parte de quem poderia investir em projectos ligados à educação, à literatura e à formação humana. A maioria dos autores acaba por publicar com recursos próprios.

Mesmo diante dessas dificuldades, procuro transmitir aos meus alunos que não devemos desistir dos nossos sonhos. As oportunidades nem sempre aparecem no momento que esperamos — mas isso não pode impedir-nos de continuar a acreditar e a trabalhar para que um dia esses projectos saiam da gaveta.

Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre os ambientes de aprendizagem em que actuas?

Soraia Mendes: Gostaria que compreendessem que os ambientes de aprendizagem onde actuamos são muito mais complexos do que muitas vezes se imagina.

Os nossos alunos chegam à escola carregando realidades difíceis: desafios familiares, necessidades económicas e, muitas vezes, responsabilidades de adultos ainda muito cedo. Muitos têm talento, sensibilidade artística e vontade de aprender — mas nem sempre encontram condições estáveis para continuar.

Gostaria também que se compreendesse que a educação artística não é apenas expressão ou entretenimento. Para muitos jovens, a arte é uma porta de disciplina, de identidade, de trabalho e até de sobrevivência digna. Quando bem acompanhada, pode ajudar a formar cidadãos mais conscientes, criativos e comprometidos com o seu país.

Por isso, mais do que programas no papel, precisamos de ambientes educativos que escutem os alunos, valorizem os professores e reconheçam que educar é também compreender as realidades humanas que entram todos os dias na sala de aula. Só assim a escola deixa de ser apenas um lugar de passagem e passa a ser um verdadeiro espaço de transformação.

Há uma geração de jovens angolanos a crescer sem hábitos de leitura. Se tivesses uma plataforma nacional para lhes dizer uma coisa — apenas uma — sobre o que a leitura pode fazer por eles, o que seria?

Soraia Mendes: Se tivesse de dizer apenas uma coisa, diria isto: Ler é uma forma silenciosa de ganhar liberdade.

Quando uma pessoa lê, começa a pensar por si, entende melhor o mundo e passa a ter mais caminhos para escolher na vida. Quem lê não fica preso apenas ao lugar onde nasceu — ganha voz, consciência e novas possibilidades. A leitura não muda tudo de um dia para o outro — mas muda a forma como olhamos para a vida. E isso, muitas vezes, muda o nosso destino.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. Para ti, que és também escritora e empreendedora, o que significa esta afirmação além da sala de aula?

Soraia Mendes: Para mim, dizer “Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação” vai muito além da sala de aula.

Ser mulher na educação é assumir uma missão de formação humana. Não é apenas ensinar conteúdos — é ajudar a despertar consciência, valores, sonhos e sentido de responsabilidade nos jovens. Como escritora, procuro transformar experiências e reflexões em palavras que também educam. Como empreendedora, procuro criar caminhos, oportunidades e exemplos de perseverança. Muitas vezes os alunos aprendem mais com aquilo que observam em nós do que com aquilo que explicamos. Por isso, ser mulher na educação é viver de forma coerente com aquilo que se deseja ver nascer na nova geração: coragem para sonhar, disciplina para caminhar e fé para não desistir.

Também acreditas na força da educação? Clica no botão e descobre como participar na campanha e levar esta transformação mais longe.

Continue a Inspirar-se com Ahetu que Fortalecem a Educação em Angola

Ouça as suas vozes

Tens uma perspectiva sobre educação? Escreve para a Angola Aprende

O que aprendeste? Comente ↓

Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
Inline Feedbacks
View all comments
Inspire alguém hoje — partilhe este conteúdo com a tua rede!