Zeferina Camatanga
Entre Rimas e Saberes: a Professora que Transformou o Rap numa Ferramenta de Ensino e Aprendizagem
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Zeferina Camatanga, professora de Língua Portuguesa no ensino secundário em Luanda. Com menos de dois anos de experiência, Zeferina reinventou o conceito de aula: o rap deixou de ser apenas música e tornou-se uma ponte entre arte e conhecimento. Para ela, cada aluno é único — e a aprendizagem só acontece quando o ensino consegue dialogar com o interesse, a atenção e a criatividade de quem aprende.
Nesta entrevista, Zeferina revela como descobriu o poder pedagógico da música, como adapta o ritmo das rimas à gramática e às classes de palavras — e como aprendeu a ensinar em voz mais baixa sem perder nem o conteúdo nem o impacto.
A sua trajectória reúne dois universos aparentemente distintos: a docência e o rap, ao ponto de se apresentar como “Professora Rapper”. Em que momento da sua vida nasceram essas duas paixões e de que forma conseguiu articulá-las no seu percurso profissional na educação?
Zeferina Camatanga: Eu sempre fui apaixonada pela arte, mas nunca a levei tão a sério. Ao mesmo tempo, sempre amei ensinar, e decidi seguir a área da educação — especificamente em Língua Portuguesa e Educação Moral e Cívica — apesar do desejo inicial de estudar Comunicação Social. Enquanto frequentava o Ensino Médio, nas aulas de metodologias activas, aprendi sobre o método de gamificação, que envolve ensinar através de brincadeiras ou músicas. Resolvi fazer um experimento com os alunos, eles gostaram, e desde então não parei mais. Hoje, o rap que utilizo baseia-se nos conteúdos ligados à Língua Portuguesa, a disciplina que actualmente lecciono.
Há alguma mudança de orientação que chegou ao teu trabalho e que te obrigou a repensar completamente a forma como fazias as coisas? Conta-nos essa história.
Zeferina Camatanga: Sim, claro que sim. Eu utilizo uma melodia — um beat — para enquadrar a letra e tornar a aula mais emocionante. No entanto, alunos de outras salas faziam de tudo para ter acesso à minha aula, o que acabava por gerar uma espécie de incómodo indirecto. Por isso, precisei de interromper as aulas com música por um tempo.
Depois, percebi que bastava baixar o volume e ensinar de forma diferente: continuei a rimar, mas como se estivesse a explicar de maneira normal, mantendo o conteúdo e o ritmo da aprendizagem. Era algo assim:
“Escuta essa rima que eu vou te ensinar, sobre classes de palavras vem comigo e vamos lá: substantivo, nome que dá para tudo — pessoas, lugares e coisas, não fica mudo, ok?”
Criava-se, assim, um clima de batida e conversa. Perguntava em meio de rimas, respondia em meio de rimas — e a aula seguia sem a presença excessiva de alunos de outras turmas.
Se tivesses de escolher um momento do teu dia a dia que melhor representa o trabalho que fazes, qual seria e porquê?
Zeferina Camatanga: Escolheria o recreio, porque amo ensinar — e quanto mais pessoas estiverem envolvidas, melhor. No recreio, tenho a oportunidade de unir todos os alunos, o que me torna ainda mais criativa.
Há algo que aprendeste fazendo — sobre o que funciona, sobre como os alunos aprendem, sobre como as comunidades respondem — que nenhum manual ou orientação oficial conseguiria ensinar-te?
Zeferina Camatanga: Dar liberdade de expressão aos alunos é uma forma essencial de aprendizagem — e isso é algo que considero obrigação de todo o professor. Nenhum manual ensina a perceber, no momento exacto, quando um aluno precisa de falar para conseguir aprender.
Num contexto educativo marcado por mudanças constantes nas orientações e políticas do sector, que estratégias considera fundamentais para que o professor mantenha a motivação dos alunos e a qualidade do ensino?
Zeferina Camatanga: Como dizem, o mercado educativo está em constantes mudanças — e os alunos também são afectados por essas transformações. É verdade que o professor é um pilar no processo de ensino e aprendizagem. Para manter a motivação dos alunos e a qualidade do ensino, considero fundamentais as aulas interactivas, que permitam conhecer o ponto de vista de cada aluno e tornar o ambiente mais dinâmico, e a flexibilidade na abordagem pedagógica.
Acredito que, acima de tudo, o professor precisa de manter a própria motivação. Isso envolve deixar de lado problemas pessoais que possam inquietá-lo e agir de forma natural em sala de aula. Se o professor não estiver motivado, os alunos acabam por se focar no lado negativo e distrai-se, em vez de se concentrarem na aprendizagem.
Ao longo do seu percurso, houve alguma mulher — professora, educadora ou figura pública — que tenha influenciado a sua forma de pensar a educação e o papel do professor na sociedade?
Zeferina Camatanga: Até ao momento, não. Sempre usei os meus alunos como principal fonte de influência na minha forma de pensar sobre educação. É por isso que considero fundamental tornar as aulas muito interactivas. Cada ponto de vista de um aluno ajuda-me a reflectir de forma diferente e a dar passos significativos no processo de ensino e aprendizagem.
Como avalias a educação em Angola a partir da tua experiência?
Zeferina Camatanga: A educação em Angola enfrenta diversos desafios. A falta de infra-estrutura adequada — especialmente de materiais didácticos — faz com que muitos alunos fiquem sem acesso completo às aulas. Outro ponto crítico é a qualidade do ensino e a formação dos professores. A má remuneração dos docentes coloca em risco a oferta de um ensino de qualidade e limita o desenvolvimento pleno dos alunos.
Se estivesses sentada à mesa onde se tomam decisões sobre educação em Angola, o que mais gostarias que as pessoas nessa sala compreendessem sobre a realidade que vives?
Zeferina Camatanga: Gostaria que compreendessem que cada aluno é único e merece atenção individualizada. Muitos alunos enfrentam situações em casa que prejudicam o seu percurso académico — por isso é fundamental que cada um seja ensinado de forma diferente, considerando as suas realidades distintas.
A forma como o aluno A entende algo pode não ser a mesma do aluno B — e muitas vezes é o aluno C que ajuda os colegas a compreender melhor. Por isso, é essencial que as aulas sejam interactivas e adaptadas às necessidades de cada estudante.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que é que esta afirmação desperta em ti?
Zeferina Camatanga: Desperta em mim um espírito de responsabilidade e maturidade — e, acima de tudo, o compromisso de ser uma pedagoga de excelência. Ser mulher na educação significa que o meu trabalho vai além da sala de aula: cada rima que crio, cada aluno que consigo alcançar com uma melodia, é também uma forma de mostrar que é possível ensinar de forma diferente e com qualidade. Esse compromisso não é só meu — é um exemplo que deixo para quem vem a seguir.
Imagina que uma jovem mulher te procura porque está a iniciar o seu percurso na educação e deseja conciliar a sua vocação docente com a expressão artística. Que conselhos lhe darias?
Zeferina Camatanga: Aconselharia que continue — mas sem perder o foco no objectivo principal. É importante criar uma coligação entre essas paixões distintas; quando estão sincronizadas, não representam risco algum, mas sim originalidade, criatividade e um trabalho de alta qualidade. Lembro-me de que amo o rap, assim como amo a educação — por isso transformei as minhas rimas num meio de ensino, e não apenas em entretenimento. E, acima de tudo: ensinar é uma responsabilidade — é um seguro para a vida!
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O que a Zeferina faz tem um nome técnico: gamificação. Mas o que torna esta entrevista relevante não é o método — é o que ele revela sobre uma questão que o sistema educativo angolano ainda não resolveu: como ensinar quando a atenção do aluno está em permanente disputa com tudo o que existe fora da sala de aula. A Zeferina não ignorou esse problema. Partiu dele. Usou o que os alunos já conhecem e valorizam para criar uma entrada para o que precisam de aprender. É uma lógica pedagógica simples e bem documentada — e que continua a ser excepção, não regra, nas nossas escolas. A pergunta que esta entrevista deixa não é sobre rap. É sobre o que perdemos quando insistimos num modelo de ensino que exige do aluno que se adapte — em vez de exigir do professor que encontre o caminho.