FLORINDA BALANGA
Aprender a Ensinar, Ensinar a Pensar: uma Bióloga e Educadora Ambiental que Quer Dar aos Alunos o que a Escola Não Lhe Deu
No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Florinda Balanga, bióloga formada pela Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Agostinho Neto e educadora ambiental activa em escolas e empresas de Luanda. Já dentro de uma sala de aula, trouxe consigo a consciência ecológica, o pensamento crítico e a memória da aluna que precisou de mais do que recebeu.
Nesta entrevista, Florinda fala sobre as lacunas que a sua própria educação deixou, sobre o que quer dar aos alunos que ela própria não teve — e sobre a convicção de que ensinar bem começa por saber questionar: a si própria, o sistema e o mundo.
Quando olhas para a menina que foste no ensino de base, que tipo de professora ela precisava ter — e como isso influencia a educadora que estás a construir hoje?
Florinda Balanga: Precisava de uma professora que me incentivasse a ler, que mostrasse os benefícios da leitura e que explorasse a minha criatividade em diversas áreas para descobrir em qual tenho maior inclinação. Hoje procuro ser o tipo de professora que gostaria de ter tido: incentivo os meus alunos a ler, desafio-os a serem criativos e a desenvolverem uma visão crítica — não apenas nas aulas, mas perante as situações que afectam o seu dia a dia.
Enquanto aluna do ensino de base, que vivências — positivas ou desafiantes — moldaram a tua visão sobre o que significa ensinar com qualidade?
Florinda Balanga: A falta de incentivo à leitura, a falta de acesso a livros e bibliotecas nas escolas públicas, e a falta de saneamento básico. Acredito que tudo isto influencia a qualidade do ensino. Os professores precisam de ser mais criativos e encontrar formas de transmitir melhor os conhecimentos mesmo nestas condições.
Há algo que sentes que a tua educação básica não desenvolveu plenamente em ti — pensamento crítico, autonomia, curiosidade científica, confiança para questionar — e que hoje reconheces como essencial na formação dos teus futuros alunos?
Florinda Balanga: Sim — o pensamento crítico e a curiosidade científica são as duas competências que sinto que a minha educação básica não desenvolveu plenamente em mim, e que hoje reconheço como essenciais na formação dos meus futuros alunos.
Pensamento crítico e curiosidade científica: podes partilhar um exemplo da tua própria experiência escolar em que sentiste a falta dessas competências — e o que isso te ensinou?
Florinda Balanga: Sim, posso. Quando fiz o ensino médio, os professores tinham o hábito de ditar as matérias — e ainda que o aluno fosse aprofundar o assunto com investigações independentes e, no dia seguinte, partilhasse as suas descobertas com os professores, isso não era visto com bons olhos. Era normalmente considerado uma afronta, e o aluno acabava por pagar o preço a partir daquele momento.
Na faculdade tive uma experiência ainda mais difícil. O professor ministrou a aula e, como tinha sentido que faltava algo, fui investigar, li artigos, aprofundei. No momento da prova respondi com base no que tinha lido — as ideias que apresentei não fugiam às das apresentações do professor, mas ainda assim ele não as considerou válidas, porque, segundo ele, não tinha ensinado daquela forma. O que me ficou foi a ideia de que os professores querem alunos que repitam o que é passado na sala de aula — e que a autonomia de ir atrás do conhecimento e construir novas ideias não é bem-vinda.
Na tua formação actual, que competências sentes que estás realmente a desenvolver para ensinar? E quais ainda não estão suficientemente consolidadas?
Florinda Balanga: Tenho desenvolvido a capacidade de fazer investigação científica de forma independente e melhorado a forma como me comunico e a oratória — sobretudo porque tenho actuado como educadora ambiental, realizando palestras em escolas e empresas. O que ainda preciso de trabalhar é a aplicação de casos práticos ao leccionar, de modo a facilitar a compreensão dos alunos e a desenvolver neles a capacidade de construir a sua própria opinião.
Enquanto professora em construção, se amanhã tivesses de assumir uma sala de aula, sentir-te-ias preparada para ensinar com segurança e qualidade? O que te dá confiança — e o que ainda te deixa insegura?
Florinda Balanga: Sim, sentir-me-ia preparada. O que me dá confiança são os anos de experiência que já tenho nesta área. O que ainda me deixa insegura tem mais a ver com o facto de os alunos serem novos — e de não saber exactamente qual método usar para prender a atenção de cada turma.
Que tipo de professora pretendes ser quando entrares formalmente numa sala de aula? Que valores ou princípios queres que orientem a tua prática?
Florinda Balanga: Na verdade, já entrei formalmente numa sala de aula. Tenho procurado ser o tipo de professora que apoia os alunos naquilo que se propõem ser e fazer — quando sei que isso os fará bem como humanos e futuros profissionais. Tenho também procurado desenvolver neles a consciência ecológica, mostrar a importância de cuidarmos da natureza e da biodiversidade, e incentivá-los a ser críticos e autónomos.
Sendo da área científica, como imaginas tornar as aulas mais investigativas, participativas e ligadas à realidade dos alunos?
Florinda Balanga: Contextualizando tudo o que abordamos nas aulas — mostrando o porquê de cada conceito ser como é — e desafiando os alunos a olharem para isso tendo em conta a realidade em que vivem, pedindo que apresentem soluções e opiniões. Acredito que é uma forma eficaz de os motivar a ir atrás das respostas para os seus próprios porquês.
Em tempos de liderança móvel — onde currículos, direcções e prioridades podem mudar — como te preparas para manter coerência e qualidade na tua prática futura?
Florinda Balanga: Em tempos de liderança móvel, procuro adaptar-me constantemente às mudanças e à dinâmica do mundo — principalmente na minha área de Educação e Biologia. Acredito que essa actualização contínua é fundamental para não ficar desactualizada e para manter a coerência na minha prática profissional.
Na prática, participo em workshops e palestras, procuro aprender com outras experiências profissionais e faço voluntariado em algumas ONGs — o que me permite desenvolver competências sociais, profissionais e humanas. Pretendo continuar a investir na minha formação contínua para melhorar, cada vez mais, a minha actuação como educadora.
Ao observares a realidade das escolas angolanas, há algo que te faz perceber que a transição da universidade para a sala de aula poderá ser mais exigente do que imaginas?
Florinda Balanga: Sim. O que observei e me surpreendeu foi ver pessoas que saíram das universidades sem nenhuma experiência na área da educação — e quando digo sem nenhuma experiência, refiro-me a pessoas que nunca sequer fizeram estágio nesta área, que não sabem como elaborar um plano de aula nem como ministrar uma aula, e que ainda assim estão a exercer esta actividade. Isso parece-me inadequado, porque muitas vezes estas pessoas improvisam nas aulas e não procuram aprender com quem já tem experiência — o que dificulta ainda mais o processo de ensino e aprendizagem.
Deveria criar-se um programa de estágio obrigatório para todos os estudantes universitários formados na área da educação — um estágio bem orientado e fiscalizado. Acredito que, desta forma, teríamos pessoas verdadeiramente competentes e preparadas ao saírem das universidades.
Sentindo-te ainda professora em construção, onde identificas as maiores lacunas na preparação de futuros docentes em Angola?
Florinda Balanga: As maiores lacunas que identifico são a falta de hábito de leitura e a ausência de autonomia na investigação científica. Os professores em Angola quase não leem, não investigam e muito menos escrevem.
Se pudesses influenciar hoje os programas de formação de professores, o que acrescentarias para que futuras educadoras se sentissem verdadeiramente prontas para ensinar?
Florinda Balanga: Se pudesse influenciar hoje esses programas, acrescentaria bibliotecas, grupos de leitura, aulas de elaboração de artigos científicos e palestras sobre métodos de ensino e aprendizagem.
Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que esta afirmação desperta em ti?
Florinda Balanga: Desperta em mim a vontade de me dedicar à educação — comprometendo-me a mudar a vida de crianças e jovens da nossa Angola por meio do estudo e do conhecimento.
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A Florinda partilha uma experiência da faculdade que muitos reconhecerão: foi investigar por conta própria, aprofundou, construiu ideias — e foi penalizada por isso. O professor não aceitou respostas que não fossem espelho das suas. Essa é uma ilustração viva de que questionar, no sistema educativo angolano, ainda é lido como “desafiar” — às vezes até como desrespeitar o professor — em todos os níveis.
A minha experiência até à conclusão do ensino secundário foi precisamente como a da Florinda. Já no ensino superior foi o oposto por completo, uma vez que o fiz noutro sistema educativo. Nesse sistema, a cultura formativa era completamente diferente: investigar, construir e defender ideias era a expectativa, não a excepção. Esse contraste fez-se evidente enquanto lia a Florinda nestas linhas.
Se continuarmos com a ideia de que os ambientes de aprendizagem são laboratórios — como defendi no meu ensaio crítico “A Crise do Pensamento Num Mundo que Grita Informação” — veremos que cada etapa do percurso formativo tem o seu papel: no ensino primário aprendemos a reconhecer os elementos do laboratório; no secundário começamos a fazer experiências básicas; no superior tornamo-nos cientistas treinados. Se, como educadores, olhássemos para o processo formativo dessa forma — como um laboratório em construção progressiva — e para os nossos alunos como cientistas em desenvolvimento — talvez deixássemos de penalizar quem chega à aula com mais do que lhe foi dado.
A Florinda percebeu isso. E quer dar aos seus alunos aquilo que a escola não lhe deu. E já começou.
Continue, Florinda — inspire!