Mais por descobrir...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Filter by Categories
Ahetu mu Kulonga
ARTIGO
Artigo de Opinião
CRÓNICA
Crónica Narrativa
ENSAIO
Ensaio Comparado
Ensaio Crítico
Ensaio Reflexivo
Ensaio Teórico
ENTREVISTA
Entrevista Individual
Missão
Nas Lentes da Angola Aprende
Páginas do Saber
Vozes

Lucinda Cahanda Dinis Faria

Ser Psicóloga na Educação Especial: Atenção Precoce, Famílias Sem Resposta e as Leis que Ainda Não Chegaram às Crianças

No âmbito da campanha Ahetu mu Kulonga — Mulheres na Educação, a Angola Aprende conversou com Lucinda Cahanda Dinis Faria, psicóloga clínica especializada em Psicomotricidade e Atenção Precoce, a actuar no Centro de Neurodesenvolvimento Infantil Topázio Azul, em Luanda. Numa área onde o diagnóstico precoce pode mudar o curso de uma vida, ela trabalha com crianças e famílias nos momentos mais decisivos — e muitas vezes mais sós — do seu percurso.

Nesta entrevista, Lucinda fala sobre o aumento de casos de crianças com o desenvolvimento comprometido, sobre os sinais de alerta que os pais desconhecem, sobre as leis que existem mas ainda não chegaram à prática — e sobre o que significa ser psicóloga numa área que Angola ainda não aprendeu a priorizar.

O que a levou à psicologia clínica e, posteriormente, à especialização em psicomotricidade e atenção precoce?

Lucinda Faria: Para mim, sempre foi curioso entender como a mente humana funciona — daí o meu interesse pela psicologia clínica. A especialização foi uma consequência da necessidade do centro onde trabalho.

No Centro de Neurodesenvolvimento Infantil onde actua, que realidades encontra com maior frequência no que diz respeito ao desenvolvimento infantil em Angola?

Lucinda Faria: A realidade que encontro diariamente é o aumento de casos de crianças com o desenvolvimento comprometido. Por outro lado, existe uma necessidade contínua de formação por parte dos profissionais, para que possam dar melhor assistência a estas crianças.

Para si, por que razão a atenção precoce é decisiva no percurso educativo de uma criança?

Lucinda Faria: A atenção precoce detecta, identifica e previne alterações no desenvolvimento, bem como identifica crianças em risco de virem a apresentar algum transtorno. Por isso, é decisiva no percurso educativo da criança — quanto mais cedo se intervém, melhor o prognóstico.

Vivemos tempos de liderança móvel, onde orientações e prioridades podem mudar com frequência. Como essa instabilidade impacta a área da educação especial e da intervenção precoce?

Lucinda Faria: Novas lideranças podem trazer novas prioridades — o que pode afectar projectos em curso, recursos alocados e até a abordagem pedagógica. Isso gera incerteza e a necessidade de ajustes constantes. Como profissional, procuro métodos e recursos para continuar a actuar. Mas o que prevalece e faz toda a diferença, perante as mudanças e as incertezas, é a criatividade e a imaginação. É desta forma que me motivo para continuar diante das adversidades.

Na sua experiência, o sistema educativo angolano está preparado para responder às necessidades das crianças com dificuldades de desenvolvimento?

Lucinda Faria: Tenho de reconhecer que já se fizeram muitos esforços, e que actualmente se fala muito mais sobre crianças com necessidades educativas especiais. Mas é preciso fazer muito mais — desde a formação de quadros, em qualidade e quantidade, até às infraestruturas.

Referiu a falta de acesso e de informação às famílias como uma das situações mais tristes na educação especial. O que mais a preocupa nesse cenário?

Lucinda Faria: Preocupam-me três realidades em particular. A escassez de profissionais qualificados. A ausência de programas de apoio para crianças identificadas com alterações congénitas desde o nascimento — no caso de crianças com síndrome de Down, por exemplo, seria fundamental que estas crianças e as suas famílias tivessem um programa de apoio elaborado pelo Estado angolano. E a falta de suporte contínuo aos pais que cuidam de crianças nesta condição.

Que sinais de alerta os pais deveriam conhecer nos primeiros anos de vida, mas muitas vezes desconhecem?

Lucinda Faria: A falta de atenção partilhada, a hiperactividade, a dificuldade em fazer amigos, a dificuldade em contar um acontecimento ou uma história, a impulsividade e os comportamentos hostis — são sinais que muitas vezes passam despercebidos ou são mal interpretados.

Como podemos reduzir a distância entre as famílias mais carenciadas e os serviços especializados?

Lucinda Faria: Através da informação — palestras, programas de televisão e rádio sobre desenvolvimento infantil. E levando essa informação a hospitais, colégios, escolas públicas, mercados informais e comunidades. A informação precisa de ir ao encontro das pessoas, não esperar que as pessoas a encontrem.

Qual é o papel das escolas na identificação precoce de dificuldades no desenvolvimento infantil?

Lucinda Faria: A escola tem um papel fundamental: identificar e detectar os sinais de alerta nas crianças, informar os pais sobre a situação dos filhos e fazer o encaminhamento para instituições especializadas. Tudo isto para que a criança receba a ajuda necessária no momento certo — o que melhora o prognóstico e a qualidade de vida.

Se pudesse propor uma mudança estrutural para fortalecer a educação especial em Angola, qual seria a primeira medida?

Lucinda Faria: A minha primeira medida seria propor ao Estado angolano estratégias práticas para a implementação dos serviços no sistema de educação especial — porque o problema não é a ausência de intenção, é a ausência de operacionalização.

O que a sua prática lhe ensinou sobre inclusão que ainda não está suficientemente reflectido nas políticas públicas?

Lucinda Faria: É necessário ter empatia, compreensão e respeito por todas as pessoas, independentemente da sua condição. Os pais precisam de muito apoio — na maioria dos casos, chegam até nós esgotados e desesperados. O Diário da República aprovou muitas leis: a Lei da Acessibilidade, a Lei da Educação Pré-Escolar, a Lei de Base do Estatuto das Modalidades. O que falta é que todas elas sejam efectivamente colocadas em prática.

Eme ngui muhatu wa Kulonga — eu sou mulher na educação. O que esta afirmação significa para si enquanto profissional que acompanha crianças e famílias em momentos decisivos do desenvolvimento?

Lucinda Faria: Esta afirmação é, para mim, um símbolo de esperança. Primeiro, porque existe uma comunidade como a Angola Aprende que dá voz a esta causa. Segundo, sinto-me honrada pela oportunidade de partilhar a minha experiência — é uma oportunidade para ser ouvida. Sinto-me grata e responsável por poder participar de um programa que, com certeza, vai impactar a forma como vemos a educação em Angola.

Também acreditas na força da educação? Clica no botão e descobre como participar na campanha e levar esta transformação mais longe.

Continue a Inspirar-se com Ahetu que Fortalecem a Educação em Angola

Ouça as suas vozes

Tens uma perspectiva sobre educação? Escreve para a Angola Aprende

O que aprendeste? Comente ↓

Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
Inline Feedbacks
View all comments
Inspire alguém hoje — partilhe este conteúdo com a tua rede!